Porque não queremos a volta dos militares

Porque não queremos a volta dos militares

Este depoimento foi enviado pela Márcia Bassetto Paes para o Bem Blogado. O blog se sente honrado por ter recebido este material contundente sobre uma pessoa que sofreu nas mãos dos militares golpistas. Depoimentos como este nos mostram o quanto é insano qualquer menção a intervenção militar ou qualquer outro tipo de golpe.

 

“Aqui, no Bem Blogado, do amigo Washington Araujo, está publicado o meu relato feito à Comissão Nacionalda Verdade, em 28 de agosto deste ano. Levei mais de 35 anos pra elaborar essa fala e me apropriar dessa voz. Desde 2002 estou tentando elaborar esse passado, aos trancos e barrancos. Contava, escrevia, como se tivesse acontecido com outra pessoa. As passagens vêm aos poucos, a memória trai, convenientemente. A participação na Clínica do Testemunho – Projetos Terapêuticos, projeto bancado pelo governo federal (cujos coordenadores são Moisés Rodrigues da Silva Junior, Issa Mercadante e conta em sua equipe com Cristina M.E. Herrera, Maria Beatriz Vannuchi, Maria Marta Azzolini, Pedro Tavares Antunes, Rodrigo Blum) ajudou muito. Nunca quis ocupar lugar de coitada, nem de heroína. Esse foi o depoimento mais completo que consegui elaborar. Devo esse resultado ao processo terapêutico da clínica do Testemunho e a Jaime Ginzburg , por suas aulas, pelas conversas e pelos artigos reunidos no livro “Crítica em Tempos de Violência”. Não era minha intenção publicar esse depoimento, mas com essas últimas manifestações pedindo a volta dos militares ao poder, com Bolsonaro Filho no palanque, de arma na cintura, exortando jovens a pedir a volta dos militares e dizendo que “jovem que faz as coisas certas não apanha da polícia”, me senti além de insultada, na obrigação de tornar público.”

Márcia Bassetto

 

Relato da prisão e tortura de Márcia Bassetto Paes

À Comissão Nacional da Verdade

Sou Márcia Bassetto Paes; tenho 58 anos. Nasci em uma família de classe média; sou neta de imigrantes italianos pelo lado materno, e meu era pai descendente de uma mulata, empregada doméstica, e filho de imigrantes portugueses e franceses.

O Grupo Escolar Martim Francisco, escola estadual implantada no bairro onde morávamos, a Vila Nova Conceição, – era o destino natural para as crianças da família; e, depois de concluir o primário, estudávamos muito para passar no exame de admissão e garantir uma vaga em uma boa escola estadual, no caso das crianças da família Bassetto era o Instituto Estadual de Educação Prof. Alberto Levy, escola situada no Planalto Paulista.

Esse Instituto de Educação era composto de um qualificado corpo docente, dentre os quais figuravam Marilena Chauí, Bento Prado Jr. e tantos outros com equiparável formação humanística. Tais educadores, sem dúvida, legaram uma visão crítica aos alunos daqueles anos, não só pelo conteúdo transmitido, mas também porque traziam relatos dos conflitos que aconteciam na Rua Maria Antonia, entre USP e Mackenzie, e o confronto em passeatas contra o avanço da implantação da Ditadura no país.  Estes acontecimentos fascinavam muitos adolescentes, inclusive os de 12 e 13 anos, como eu.

Um clima de tensão invadiu a escola em uma manhã de 1968. As pastilhinhas azuis das paredes externas amanheceram pichadas com as siglas CCC e a frase “Morte aos Comunistas”, o que causou indignação e curiosidade nos estudantes e professores. O diretor, prof. Carlos Alvarenga, chamou os alunos para o pátio, subiu numa cadeira e, após um discurso emocionado, nos incitou a cantar o hino nacional. Naquele dia não houve aula.

Vários episódios contribuíram para a mudança da rotina escolar. O Grêmio Estudantil, bastante ativo, foi fechado e as atividades, tais como o jornalzinho da entidade, o festival de música, entre outras, foram sumariamente suspensas e proibidas.

Em 1972, alguns estudantes do colegial perceberam uma brecha para abrir a corrente e o cadeado que trancavam, há dois anos, a porta da sala do Grêmio. Era possível formar um Centro Cívico, porém, o estatuto não lhe conferia autonomia. Era necessário um professor que coordenasse as atividades e estas, por sua vez, não poderiam ser de natureza política. A professora designada para a função concordava com a reativação do Centro Cívico, desde que o trabalho ficasse com os alunos e não a obrigasse a fazer mais do que dar aulas.

Desta maneira começamos a reorganizar, eu e um grande grupo de amigos, as atividades pertinentes à entidade. Foi reativado o jornal, o grupo de teatro, o festival de música. Fazíamos circular publicações, como o jornal Pasquim, a revista Bondinho, o tabloide Ex, a revista Rolling Stone, o Grilo, que, de certa maneira, transmitiam aos secundaristas algumas posições mais críticas com o que acontecia no Brasil e também no mundo. De certa forma, contornavam a censura imposta pela Ditadura Militar. Estas publicações reverberavam as mobilizações contra a Guerra do Vietnã e os eventos caracterizados como contra cultura. Tínhamos uma identificação direta com os festivais de roque, por exemplo, e os protestos contra a guerra empreendida pelos americanos.

A censura era de tal forma ridícula, e consequentemente só fazia aumentar entre nós a indignação de viver sob um Estado de exceção, que as letras das músicas do festival que fazíamos na escola para apresentação no Teatro João Caetano, à Rua Borges Lagoa, em São Paulo, escritas pelos alunos de 15, 16 anos, tinham de ser levadas a um posto da Censura Federal no centro da cidade para que fossem liberadas e permitidas as execuções. Eu fui, durante o primeiro e segundo anos do segundo grau, presidente deste Centro Cívico e fazia esse trabalho.

Assim, processávamos informações e compúnhamos a identidade cultural, os signos e o modo como aquela geração via e se posicionava no mundo, no início da segunda metade da década de 1970.

Somam-se alguns outros acontecimentos determinantes para o comportamento de muitos jovens adolescentes já prestes a entrar na Faculdade: as eleições de 1974 – com a vitória estrondosa do MDB, dita “oposição” – ano em que eu e a maioria dos meus amigos votávamos pela primeira vez; o brutal assassinato de Vladimir Herzog, em 1975, que nos moveu até a Catedral da Sé para participar do massivo ato ecumênico, em 31 de outubro de 1975; e, em 16 de janeiro 1976, a morte do operário metalúrgico Manuel Fiel Filho, no DOI-CODI.

Foi assim que em março de 1976, ao entrar no curso de História da Universidade de São Paulo (USP), eu já tinha a convicção da necessidade de participar mais ativamente dos grupos estudantis e do Centro Acadêmico, ainda sob o decreto-lei nº 477, de 26 de fevereiro de 1969, baixado pelo ditador Artur da Costa e Silva. Esse decreto-lei previa a punição de professores, alunos e funcionários das instituições de ensino que participassem de organizações de caráter político.

Na Universidade de São Paulo, assim como nas outras, atuavam vários grupos e partidos proibidos pela ditadura de terem um funcionamento legal. Dentre eles o Partido Comunista do Brasil (PC do B), a Ação Popular (AP), a Liga Operária, a Organização Socialista Internacionalista; e grupos ligados a movimentos da Igreja, como a Juventude Universitária Católica (JUC) entre outras.  Na faculdade de História tive contato com o pessoal da Liga Operária e, para dar mais sentido e fundamentação teórica à minha militância política, ingressei nessa organização.

Em um primeiro momento, como eu também pertencia a um grupo de teatro que era composto, inclusive, por alguns integrantes vindos do colégio Alberto Levy, me ofereci para desempenhar a militância em alguns bairros da periferia como São Mateus e Guaianases. Este grupo apresentava as peças nos bairros da periferia e, após a apresentação, fazía discussões e debates em torno do texto. Após alguns meses de atividades achei que o trabalho militante em fábrica, como operária, poderia ser uma atuação mais gratificante. Fui atrás de uma vaga em empresas do ABC. Trabalhei na Rhodia, divisão química, em Santo André e em seguida pleiteei uma vaga na Autometal – empresa metalúrgica fabricante de componentes e acessórios para a indústria automobilística -, também na linha de produção, como operária.

Já morava com Ronaldo Almeida, meu companheiro e que tenho a felicidade de desfrutar o convívio até hoje, e nos mudamos para São Bernardo do Campo a fim de facilitar o meu acesso ao trabalho. Ronaldo continuava o curso de História na USP e eu tranquei, naquele semestre, a minha matrícula sem perder o vínculo com a Universidade.

Na fábrica, comecei a participar de reuniões do sindicato dos metalúrgicos e a fazer parte de alguns grupos de discussão dentro e fora do sindicato. A base sindical também iniciava uma demanda por mudanças, desde o processo de eleições de sua diretoria em 1975. Havia uma necessidade de sangue novo e um olhar renovado para os problemas dos trabalhadores. Foi na eleição da diretoria daquele ano que Luís Inácio Lula da Silva consegue articular, contando com um bom grupo de apoio, uma chapa única.

Assim me vi em um ambiente onde as atrocidades do regime autoritário também incomodavam e instigavam ações de oposição.

Na mesma época, dois outros episódios de horror corroboraram para o trauma dos cidadãos brasileiros já inconformados com os abusos do regime instaurado há doze anos: o bárbaro massacre da Lapa, comandado pessoalmente pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, em 16 de dezembro de 1976, quando foram mortos Ângelo Arroyo e Pedro Pomar e presos Elza Monnerat, Haroldo Lima, Aldo Arantes, Joaquim de Lima e Maria Trindade; e o Pacote de Abril – um pacote de leis aprovado pelo ditador Ernesto Geisel, em 13 de Abril de 1977-, que determinava o fechamento temporário do Congresso Nacional, dentre outras medidas.

Cito esses episódios para reafirmar que não existiu nenhuma brandura no governo do ditador militar Ernesto Geisel em relação aos seus antecessores. A caracterização divulgada, inclusive em alguns livros didáticos de que seria um governo menos truculento e predisposto à abertura, não passa de um mito que faz com que a visão do próprio processo, que culminou na extinção das leis de exceção, tenha se dado por boa vontade dos militares, sem ter relação nenhuma com o que acontecia nos meandros e setores organizados da sociedade civil. Estes fatos, enfim, só fizeram aumentar a indignação de quem viveu a infância, toda a adolescência e boa parte da vida adulta sob o autoritarismo de um Governo Militar implantado pelo golpe desferido em 01 de abril de 1964.

Apesar dos sinais de endurecimento, a Liga Operária fazia uma análise cujo viés deslumbrava contradições e insatisfações crescentes, e decidiu que a data daquele próximo primeiro de maio não poderia passar em brancas nuvens. Escrevemos um panfleto, rodado precariamente em mimeógrafo, cujo teor lembrava o caráter de luta do dia dos trabalhadores e, claro, nada tinha a ver com um dia de festa como queriam fazer crer o governo ditatorial e o empresariado. O texto, não muito longo, terminava com as palavras de ordem “contra a carestia” e pela “restauração das liberdades democráticas”.

Formamos dois grupos, com três pessoas cada, para pendurar esses panfletos em ganchos nos muros das fábricas do ABC. Escolhemos o dia 27 de abril, e não exatamente 01 de maio, por questões de segurança. A intenção era abordar o pessoal que saía do turno da noite e também o que chegava pela manhã. Por volta da 01h00, já na madrugada do dia 28, fomos eu, Celso Brambilla e José Maria de Almeida abordados por policiais militares nas imediações da Estação Ferroviária de Mauá, quando estávamos dentro do fusca de José Maria de Almeida.

Fomos truculentamente retirados do carro pelos policiais, algemados e colocados, os três, na “gaiola” do camburão e em seguida levados para uma delegacia na cidade de Mauá. Após o preenchimento de uma pequena ficha e vários telefonemas do delegado responsável, fomos revistados,  novamente colocados na “gaiola” do camburão e iniciada a vinda para São Paulo. Esses policiais não sabiam ao certo se deveriam nos levar para o Doi-Codi  ou para o DOPS.

Por volta das 05h30 da manhã, depois de rodarmos por longo tempo, os policiais estacionaram em frente ao prédio do DOPS, no centro da cidade de São Paulo, e nos encaminharam para o interior do edifício. Foi feito o preenchimento formal de uma ficha, levantados alguns dados. O delegado de plantão era o Tácito Pinheiro Machado. Vale lembrar que recentemente, em 2012, foram encontrados e enterrados no terreno de uma fazenda que pertenceu a este torturador, em Jaborandi, vários documentos, relatórios confidenciais e fichas de supostos “subversivos”.

O interrogatório começou nestas salas localizadas nos andares superiores, mas já com muita truculência. Nos dez dias que se seguiram fui torturada quase que ininterruptamente, sendo que nos quatro primeiros dias fiquei sem comer ou dormir. Fui submetida a todo tipo de tortura, sempre nua, como aquela praticada na “cadeira do dragão” (cadeira revestida de metal, para que os efeitos dos choques elétricos fossem maximizados) e o pau-de-arara. Tanto na cadeira do dragão como no pau-de-arara nos jogavam água, principalmente no rosto, para que os choques também fossem amplificados. Outro tipo de tortura praticada comigo, umas duas vezes, foi a simulação de afogamento. Seguravam-me pelos cabelos e mergulhavam minha cabeça em uma tina de água.

A tortura também incluía humilhações como dançar nua sobre uma mesa, os mamilos torcidos por alicate, choques na vagina, no ânus, nos seios e na língua. Fizeram-me andar com latas de conserva amarradas sob os pés. Sofri a ameaça de ter um pedaço de pau introduzido na vagina, baratas andando pelo corpo e na boca; submetida a socos, palmatórias, pontapés, além da constante ameaça de morte aos outros amigos presos, e a mim. Uma destas ameaças foi ter o gatilho de uma arma disparado na cabeça após a introdução de uma bala no tambor (roleta russa).

Muitas vezes as sessões de tortura eram praticadas juntamente com Celso Brambilla. Também fui levada à frente de Cláudio Lúcio Gravina (estudante da PUC e preso posteriormente), para reconhecimento, quando estava sendo torturado também nu na “cadeira do dragão”. Algumas das sessões de tortura contavam com a presença do delegado Luiz Walter Longo.

Por muitas vezes perdi a noção do tempo e sofri frequentes desmaios.

Fui retirada das dependências do DOPS duas vezes. Na primeira delas, fui algemada e colocada na gaiola de um camburão e levada para a casa onde eu residia. Lá arrombaram a porta e levaram tudo que havia dentro: móveis, roupas, livros, quadros, gravuras. Não sabia precisar quanto tempo já durava aquele martírio. Anos depois, através dos documentos levantados, constatei que esse episódio ocorreu na noite do dia 29 de abril, um dia e meio depois da minha prisão. Não me tiraram do camburão, porque eu estava desacordada quando o veículo chegou ao local.

Na segunda ocasião, fui amarrada com cordas nas mãos e nos pés, amordaçada, encapuzada e jogada no piso da traseira de um carro pequeno (na volta vi, através do capuz, tratar-se de um fusca azul claro, sem placa) por dois policiais civis de codinomes Ronie Von e Capeta. Após rodarem por algum tempo percebi, com o desaparecimento gradual dos sons urbanos, que estavam me levando para algum lugar ermo. Pararam em uma estrada, fui arrancada do carro e jogada no chão de terra, espancada a pontapés e soco inglês. Por vezes sentia o cano de um revolver ora na fronte, ora na nuca. Os dois foram interrompidos por uma comunicação através do rádio do carro que ordenava que retornassem com o “peixe vivo”. Por conta disso, durante muito tempo, eu não conseguia entrar em taxi que tivesse rádio transmissor, os sons de estática me deixavam absolutamente desconfortável.

De volta às dependências do DOPS, apesar da minha aparência evidenciar os maus tratos com hematomas, inchaços e muita dificuldade para andar, fui levada à presença de um oficial da aeronáutica que, dizendo-se conhecido da minha família, pediu para eu assinar uma declaração negando qualquer tipo de mau trato sofrido, me redimindo das posições contra o governo  e, ainda, entregar nomes da minha organização. Como me neguei a assinar essa declaração ou qualquer outra de mesmo teor, e não acreditei que alguém da minha família pudesse fazer tal pedido, principalmente através de alguém com tanta influência, o oficial disse que tinha poderes para permitir a visita de quem eu quisesse para comprovar essa história, embora eu estivesse sob o regime de incomunicabilidade. Foi assim que recebi a visita de meus tios Sylvia Bassetto e Adhemar Bassetto e, apesar do esquema de vigilância dos policiais ao nosso redor, soube que esse oficial não falava em nome de ninguém da minha família.

Após dez dias de incomunicabilidade, houve o pedido de prorrogação por mais dez dias. Desta vez para sermos submetidos a tratamento médico. Todos os dias eu, Anita Maria Fabbri, Celso Brambilla, Cláudio Lúcio Gravina e Fernando Oliveira Lopes éramos levados a uma enfermaria para banhos de luz, massagens com pomadas e ingestão de comprimidos. Após essas sessões de tratamento passávamos pela vistoria, sempre todos nus, do delegado torturador Sérgio Paranhos Fleury e pelo médico legista Harry Shibata. Este legista foi quem orientou um médico para que assinasse o laudo onde não acusava nenhuma marca de tortura em meu corpo, embora eu ainda apresentasse, na ocasião, um grande hematoma no seio direito. Vale ressaltar que Celso Brambilla já estava surdo, com sérias complicações em um dos tímpanos e lesões nas articulações.

Passei todo esse período, na cela do DOPS, com Anita Maria Fabbri, presa posteriormente e que também sofreu muitas torturas, e por um curto período com Fortuna Dwek (hoje a atriz Tuna Dwek), também muito torturada e tirada do DOPS e exilada, ainda no período de incomunicabilidade. Em outra cela estavam Fernando de Oliveira Lopes, Cláudio Lucio Gravina e Celso Brambilla.

Em 16 de junho de 1977 eu e Anita fomos transferidas para o presídio do Carandiru. Lá estavam presas Elza Monnerat e Maria Trindade. Tínhamos direito a um espaço especial, por sermos universitárias, porém podíamos sair ao pátio somente por um curto período pela manhã (duas horas, se não me engano).

Logo após a transferência ao Carandiru, solicitei que fosse examinada pelo médico que fazia plantão uma vez por semana no presídio. Além de estar me sentindo demasiadamente fraca, desde que tinha sido presa não havia menstruado. Este médico, após me ouvir, disse que “quando o organismo tem que tratar da própria sobrevivência é normal que o aparelho reprodutor não funcione normalmente”. Deu-me um comprimido para tomar. Este comprimido provocou uma forte hemorragia, me deixando ainda mais debilitada por vários dias.

No dia 12 de julho de 1977 alguns policiais chegam com uma ordem, expedida pelo DOPS, exigindo um novo depoimento. Na época o presídio feminino era dirigido por freiras o que me deu coragem para me recusar, terminantemente, a sair de lá. Criado o impasse, exigi a presença de duas freiras, com a promessa de que elas não sairiam de perto, nem em caso de eu precisar ir ao banheiro. Novamente no DOPS, policiais repetiam sempre as mesmas perguntas sobre a organização, já exaustivamente respondidas, O tempo desses depoimentos levou aproximadamente seis horas. Tratava-se, na verdade, de uma sindicância aberta, em decorrência às denúncias de torturas, feitas por Idibal Piveta, meu advogado e de Brambilla. Acredito que essa sindicância tenha sido um fato inédito na época.

Na presença do delegado Edsel Magnotti, me expuseram um álbum fotográfico com cerca de 500 fotos, no formato três por quatro. Percebi, pelas marcas no cartão do álbum, que muitas delas tinham sido retiradas. Eram investigadores, escrivães e delegados do DOPS e queriam que eu apontasse quem eu poderia identificar dentre as fotos mostradas e se por acaso eu havia sido maltratada por essas pessoas. Apontei investigadores e delegados sendo que alguns coincidiram com os reconhecidos por Celso Brambilla que, sem meu conhecimento, prestava depoimento em outra sala.

Durante todo esse interrogatório, os policiais tentavam me confundir, distorciam minhas palavras, como em todos os depoimentos durante a prisão, além de desqualificar Idibal Piveta. Importante salientar que o Dr. Idibal Piveta não estava presente durante o depoimento.

Posso citar ainda os delegados Alcides Singillo, Edsel Magnotti e Tácito Pinheiro Machado que não participaram diretamente das sessões de tortura, mas presenciaram vários interrogatórios em salas dos andares superiores onde muitas torturas e sevícias foram praticadas.

Fui indiciada em inquérito policial instaurado pelo DOPS (n. 25/77) e denunciada em 06/06/1977 como incursa nos artigos 14 e 43 da Lei de Segurança Nacional.

Em 21 de julho de 1977 foi relaxada a prisão preventiva e retorno à casa de meus pais. Passadas duas semanas, tenho novamente uma forte hemorragia o que me leva a consultar uma ginecologista particular – dra. Libia Poggetti – que atesta uma gravidez já bastante avançada. Soube, pela doutora, que eu estava grávida de algumas semanas no momento da prisão e, portanto, fui torturada grávida.

Este era um complicador em um momento bastante indefinido do processo a que fui submetida. As perspectivas ainda apontavam para a condenação. Uma crise se instalou dentro dos setores militares com a disputa de poder por parte do general Silvio Frota e alguns de seus apoiadores na tentativa de um maior recrudescimento. Por isso decidi me submeter a um aborto, bastante delicado, dado o avanço da gravidez – cinco meses.

Nesse período de espera pelo julgamento, tentei retornar à faculdade e ter uma vida normal, embora sempre sendo vigiada e seguida por policiais e sofrendo frequentes processos depressivos.

Em 29 de novembro de 1977, as denúncias foram julgadas improcedentes e fui absolvida junto com os outros colegas.

Durante todo esse tempo, de abril a dezembro, fui alijada da companhia de meu marido, Ronaldo Eduardo Almeida, que figurava no processo como réu revel. Em meados de 20 de dezembro consigo restabelecer contato com Ronaldo. Ele estava vivendo clandestinamente: ficou cerca de um mês em uma fazenda em Goiás, foi para Belo Horizonte e seguiu para o Rio de Janeiro. Em março de 1978 mudei para a cidade do Rio de Janeiro na tentativa de reorganizarmos e reestruturarmos nossas vidas.

Em 28 de agosto de 1978, Ronaldo é preso pelo DOPS do Rio de Janeiro e transferido para o DOPS de São Paulo. Nesse período fui obrigada a me refugiar por mais de um mês na clandestinidade. Tinha muito medo de ser envolvida em outro processo e passar pelos mesmos maus tratos.

Em 14 de dezembro de 1979, o Superior Tribunal Militar (STM) comunica oficialmente o julgamento do acórdão decretando a extinção da punibilidade.

Os arquivos do Serviço Nacional de Investigação (SNI) atestam muito tempo de perseguição. Há relatórios arquivados datados de 1986, ainda com referência a reuniões que eu supostamente havia participado. Muitos deles inventados. Alguns acusam minha presença em comissões sindicais em São Paulo no mesmo período em que eu morava em Londres, por exemplo.

Estas prisões e a denúncia de torturas renderam protestos em vários pontos do país, além de manifestações e denúncias por parte da Anistia Internacional. Aconteceram os primeiros enfrentamentos, depois de 1968, entre policiais e estudantes. Algumas manifestações, inclusive a denúncia da prisão e o pedido de soltura com meu nome e de Celso Brambilla, encontram-se no documentário O Apito da panela de pressão produzido, na época, pelos Diretório Central dos Estudantes da USP e da PUC.

Bem, quero ressaltar a importância das apurações da Comissão Nacional da Verdade. Não podemos nos furtar de manter viva a luta pelo direito de resgate pleno da memória e pelo acesso irrestrito aos arquivos da repressão. Restrições são impostas, muitas vezes, motivadas para preservação de biografias maquiadas. E aqui não posso deixar de citar o caso da matéria publicada na edição de 03 de novembro de 2010 da revista Carta Capital sob o título “Servidor do Estado – Romeu Tuma, exemplar responsável e muito competente”, em referência a morte desse senhor.

A matéria faz alusão a Romeu Tuma como tendo “atuado no DOPS ainda sob as ordens de Sérgio Paranhos Fleury, na qualidade de ‘analista de informações’”. Afirma despudoradamente que Romeu Tuma “sempre se declarou contra a violência  e expressamente a proibiu desde sua nomeação à chefia do DOPS em 1977”. Muitos outros órgãos de imprensa também veicularam biografia deste policial semelhante a essa. No entanto, me espantou ser oriunda da Carta Capital por tratar-se de uma publicação comprometida com um posicionamento mais sério em relação ao respeito ao processo democrático.

Ora, a indecisão da polícia militar em saber qual seria nosso destino, no momento da prisão, se devia a uma disputa de poder travada entre os dois órgãos da repressão (DOI e DOPS). Tal fato fez com que o Diretor da Divisão de Ordem Social Sérgio Paranhos Fleury enviasse um memorando de esclarecimento, com data de 30 de abril, ao “ILMO. Sr. Dr. Diretor do Departamento Estadual de Ordem Política e Social Romeu Tuma” relatando as trapalhadas das polícias Militar, Civil e Exército. Estes documentos, que conferem os cargos ocupados por esses delegados, podem ser verificados no Arquivo do Estado. Anexado ao memorando consta um relatório do então Delegado Adjunto da Divisão da Ordem Social Luiz Walter Longo. O mesmo memorando culpa a confusão entre esses poderes pelo vazamento da notícia à imprensa. Fato inventado porque a denúncia à imprensa foi empreendida pelos meus companheiros de organização que tiveram a coragem de conclamar o DCE da USP e da PUC a convocarem assembleias que desencadearam várias mobilizações contra as nossas prisões e incitaram entidades internacionais a enviar declarações de repúdio, dentre elas a própria Anisita Internacional.

A hierarquia do DOPS naquele ano de 1977 e no caso da equipe que investigou meu caso, como atestam os documentos, era a seguinte:

  1. Delegado Luiz Walter Longo – chefiava a equipe de investigadores que torturaram a mim, ao Celso Brambilla e ao Zé Maria, tendo, inclusive participado de várias seções; que se reportava ao
  2. Delegado Sérgio Paranhos Fleury – desceu várias vezes aos porões para ver como iam os “interrogatórios” e, inclusive, checar no período de tratamento as condições para sermos apresentados ao advogado e familiares, que se reportava ao
  3. Sr. Romeu Tuma, Diretor do Departamento Estadual de Ordem Política e Social.

Na época o DOPS, segundo documentos do Arquivo do Estado, contava com 20 presos, portanto era impossível um diretor “competente”, como setores da imprensa biografaram o senhor Romeu Tuma, não saber o que se passava entre as salas de tortura e as poucas (quatro ou seis) celas da carceragem. Este documento foi assinado pelo sr. Amadeu Marastoni, então Guarda das Prisões (carcereiro) que presenciou muito dos traslados dos presos das celas para as salas de torturas quando saíamos das celas mais ou menos andando e voltávamos arrastados, ensanguentados e desacordados.

Sr. Romeu Tuma, apesar de ter conseguido um cargo de Senador da República – e só ingressou no senado porque pessoas como eu e meus companheiros lutamos pela restauração do Estado de Direito–, não pode, sob qualquer hipótese, ter a biografia maquiada e contada por meias verdades. Porque meias verdades são mentiras, portanto.

Quanto à matéria da Carta Capital, me senti na obrigação de escrever ao editor, jornalista Mino Carta, externando minha indignação.  Para minha surpresa e indignação, nunca recebi uma linha sequer de resposta, apesar de a carta ter tido uma grande repercussão em vários blogs e portais de notícias.

O processo de resgate da memória de tortura, como de qualquer outro processo traumático, é bastante difícil. Não consigo me lembrar de tudo. Muitas vezes os depoimentos e processos que estamos movendo ajudam emergir muitas situações que foram “apagadas”. Zé Maria me surpreendeu ao descrever o momento em que me viu nua, desmaiada, deitada no chão e com as pernas colocadas sobre uma cadeira em uma das salas de um destes delegados que citei. Nestas mesmas salas ocorreu, por exemplo, o episódio da barata.

Além das torturas físicas e psicológicas, invasão de minha casa, roubo de todos os meus pertences e ser obrigada a me afastar da companhia de meu marido, a casa de minha mãe, de outros familiares e de muitos amigos ficaram, durante muito tempo, sendo vigiadas, com os telefones grampeados e muitos ainda sendo seguidos por policiais civis.

Enfrentei vários problemas, principalmente com relação à maternidade, nos anos seguintes. Tive dificuldade em segurar várias gestações, pois sempre entrava em processo abortivo. Recorri a acompanhamento psicológico e ainda tenho muita dificuldade em relatar tudo que passei neste período e nos anos posteriores. Eu e Ronaldo levamos anos para reorganizar nossas vidas.

Agradeço, portanto, aos que estão empenhados no resgate da verdadeira história deste período que tanto envergonha os defensores dos direitos humanos e os que batalham pela consolidação da democracia no Brasil. O devido desmascaramento e punição, tanto dos que praticaram quanto daqueles que foram coniventes ou silenciaram frente às atrocidades cometidas, inaugurará, sem dúvida, um processo nunca antes conhecido na história do país. História esta marcada por enormes períodos de autoritarismo e desrespeito aos direitos humanos sem que nunca tenham sido devidamente contados pela boca dos que sofreram intimidações e tiveram suas vidas ameaçadas. A impunidade dos policiais citados – alguns ainda na ativa –, ao se estender por tanto tempo, permite que a prática da tortura e as violações de direitos humanos básicos ainda sejam comuns nos processos de investigação e atentam contra a vida de muitos. Agora não mais de estudantes de classe média contra atrocidades de um regime ditador, mas de jovens, mulheres, homens e negros, pobres e vítimas de exclusão, moradores da periferia que não conseguem erguer a voz contra o abuso dos policiais.

Sequência de mobilizações em 1977.

30/04/77 – Em São Paulo, primeira manifestação estudantil fora do campus; passeata (5.000 estudantes) seguiu do campus da USP até o Largo de Pinheiros sob vigilância de forte aparato policial.

3/05/77 – Assembleia geral de estudantes na PUC/SP. Criado o Comitê de Anistia Primeiro de Maio.

5/05/77 – Concentração de estudantes no Largo de S. Francisco (10.000 pessoas); passeata até o Viaduto do Chá, onde quase se inicia uma batalha com o forte aparato montado pela repressão.

5/05/77 –  Pela proposta do sindicato dos artistas todos os teatros abriram gratuitamente pela anistia e fim da tortura no Brasil, face a prisão de Celso Brambilla, Márcia Bassetto Paes, José Maria de Almeida e outros operários presos no primeiro de maio no ABC.

19/05/77 – Concentração de estudantes (8.000 pessoas nos jardins da Faculdade de Medicina e outras 2.000 no Largo de S. Francisco). Passeata da praça do Correio até a Consolação e manifestações-relâmpago dão início à Jornada Nacional de Luta pela Anistia.

06/77 – Criação em São Paulo da Comissão de Mães em Defesa dos Direitos Humanos/SP.

4/06/77 – Tentativa de realização do III Encontro Nacional de Estudantes em Belo Horizonte. Prisão de mais de 400 estudantes, delegados eleitos em todo o País.

11/08/77 – Ato público no Largo São Francisco, quando foi lida, sob as Arcadas da Faculdade de Direito, a Carta aos Brasileiros, elaborada pelo professor Goffredo da Silva Telles.

18/09/77 – Ato realizado na igreja da Penha pelo Movimento “Justiça e Libertação”, contra as ameaças de prisão e expulsão de religiosos.

22/09/77 – Estudantes driblam a proibição das autoridades e realizam, na PUC/SP o seu III Encontro Nacional.

22/09/77 – Invasão da PUC/SP, como represália da polícia, comandada pelo Cel Erasmo Dias, contra a realização do III Encontro Nacional de Estudantes. 2.000 estudantes detidos; vários feridos. Cinco moças gravemente queimadas por bombas de “efeito moral”.

Link do documentário O apito da panela de pressão, postado por Paulo Massoca Macciocca em 10/03/2012:

 

http://www.youtube.com/watch?v=DuGZABQ0L5c

Documentário de 25 minutos produzido em 1977 por iniciativa do DCE Livre da USP e DCE Livre da PUC-SP sobre a retomada das manifestações estudantis.  O CAASO[1] tinha uma cópia do filme que era exibida em sessões itinerantes nos campi universitários, principalmente no interior de São Paulo. As exibições eram feitas de surpresa, seguidas de debates, sendo que projetor e filme eram retirados de imediato para impedir a apreensão pela polícia.

“O filme é um painel do ressurgimento do movimento estudantil em São Paulo e mostra a primeira passeata estudantil (05/05/1977, no Viaduto do Chá) e a primeira concentração política aberta fora dos campi universitários, além de entrevistas e montagem de material fotográfico da época. Realizado rapidamente para intervir em plena efervescência dos acontecimentos, o filme foi utilizado, sobretudo, como instrumento político nas mobilizações estudantis de todo o país. Várias cópias foram apreendidas pela Polícia Federal e algumas sessões canceladas pela Censura.”

[1] Um dos maiores centros acadêmicos da América Latina, o Centro Acadêmico Armando de Salles Oliveira, mais conhecido como CAASO, é o órgão representativo de todos os alunos de graduação da USP São Carlos. O CAASO foi fundado no dia 22 de abril de 1953 pela primeira turma de alunos da Escola de Engenharia de São Carlos e recebeu este nome em homenagem ao governador do Estado de São Paulo que criou a Universidade de São Paulo.

3 Comentários

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    11 Nov, 2015 @ 02:14:16

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  2. Márcia Bassetto Paes
    20 Nov, 2014 @ 11:37:09

    Quem fala que caminhamos para uma ditadura petista comete um grave erro de conceito. O clima golpista sim acena para uma situação de desrespeito constitucional. Às vésperas de 1964, o discurso de quem era contra Jango era o mesmo. Os editoriais dos jornais da época parecem assinados ontem. A acusação de que o país se tornaria uma Cuba pautava o discurso da classe média mais conservadora. Na verdade, nem se o PT realmente quisesse, pela discrepância das características históricas, sociais e até geográficas , somado os compromissos internacionais assumidos , ele se tornaria uma Cuba. Há que se sair do lugar da voz oligárquica, da elite colonialista. Conhecer um pouco da história e mecanismos políticos ajuda bastante.

  3. Liana
    17 Nov, 2014 @ 19:03:21

    Bem emocionante esse depoimento,sinto muito por vc Márcia,mas tbem sinto muito pois estamos caminhando para uma ditadura petista,pense!

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