De como o artesanato de mulheres quilombolas chegou aos EUA

De como o artesanato de mulheres quilombolas chegou aos EUA

Por Mara Salai, Blog Solidare – 

Nasci, cresci, estudei e trabalhei no Brasil e não conhecia as mulheres quilombolas de Oriximina, Pará. Precisei mudar de país  para conhecer as mulheres da Floresta Amazônica e seu artesanato.

Redwood City (Califórnia, EUA) – Na virada do século, decidi que era hora de mudar de vida, de país, de amores e começar uma nova história no século 21. Desembarquei em São Francisco, Califórnia, onde primeiro investi na produção independente de vídeo para TV a cabo no Brasil.

O projeto não vingou. Porém, indo e vindo, entre metrô, bonde e ônibus conheci um tipo de diferente de comércio e de produto. Dei de cara com o comércio solidário, economia justa, sustentabilidade e o termo Fair Trade (comércio justo, em inglês).

Os produtos vendidos, que não eram apenas produtos, vinham com a história de vida de uma comunidade, e melhorava a renda familiar de lugares carentes pelo mundo.

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Bazaarbrazil

Conheci a ONG Global Exchange, uma loja Fair Trade em São Francisco.  Nasceu a ideia do Bazaarbrazil, uma loja de produtos brasileiros, feitos a mão, de forma sustentável e socialmente justa. O meu irmão foi parceiro no Brasil.

O Projeto Terra, pioneiro no  comércio  justo e solidário no Brasil, me apresentou grupos de artesãos e o trabalho de brasileiros que, na prática, estão mostrando que uma outra economia é possível, fraterna e solidária.

Daí vieram Artesol-SP, o contato com a Comissão Pró-Índio SP e a descoberta das mulheres quilombolas de Oriximina. As comunidades quilombolas são populações descendentes de grupos que formaram os antigos quilombos, com histórico de resistência à opressão e que, por lei, têm direito à propriedade da terra onde se encontram. Foi amor à primeira vista.

mulher quilombola_maraNasci, cresci, estudei e trabalhei no Brasil  e não conhecia as mulheres quilombolas de Oriximina, Pará. Precisei mudar de país  para conhecer as mulheres da Floresta Amazônica, que venceram uma série de dificuldades, entre elas a distância, 6 horas dentro de um barco, para chegar à pequena Oriximina, além da falta de energia elétrica e de todas as coisas básicas com as quais vivemos.

Na sociedade familiar dos quilombolas, mulher trabalha na roça com o marido e o acompanha na colheita da castanha.

As mulheres quilombolas descobriram a economia solidária e a sustentabilidade, e me apresentaram o artesanato feito com o “ouriço da castanha”, a casca grossa que protege o fruto, a castanha do Pará.

O ouriço não tinha valor comercial, mas com apoio da Comissão Pró-Índio SP e duas entidades internacionais, OXFAM (uma confederação global de 17 organizações que lutam pelo fim da desigualdade e da pobreza em 94 países) e ICCO (uma organização internacional de cooperação para o desenvolvimento), as quilombolas receberam treinamento, desenvolveram design e aprenderam a operar  máquinas desenvolvidas para áreas sem energia elétrica.

O resultado foi mostrar ao mercado um artesanato único, com a marca da sustentabilidade, o novo papel da mulher dentro de casa e a história de vida de quem nasceu e cresceu na Floresta Amazônica.

Cabine em Oriximina

O contato, eu na Califórnia e as quilombolas na Floresta Amazônica, inicialmente era feito através da Comissão Pró-Índio SP. Depois, os pedidos eram feitos diretamente entre mim, na Costa Oeste Americana, e a líder das quilombolas em Oriximina.

Contato telefônico, na única cabine pública da cidade. Uma vez por mês elas iam à cidade fazer compras e atender ao telefone com o pedido do Bazaarbrazil.

Abrir as caixas que chegavam pelo Exporta Fácil do Correio era uma emoção. Os olhos enchiam de lagrimas. O endereçamento sempre feito a mão com letra simples me lembrava que aquelas mulheres no interior da floresta estavam exportando e movimentando a economia.

Os americanos ficavam encantados com o produto, conheciam a castanha do Pará, Brazil Nut. Mas não sabiam como era a colheita da fruta e como  a castanha se desenvolvia.

E o mais interessante: cada peça vinha com  etiqueta e o nome de quem havia produzido. Às vezes,  tinha gente que insistia em apenas dar dinheiro para ser enviado as mulheres. Eu insistia, explicava que era um negócio.

O bazaar funcionou de 2005 a dezembro de 2008. Fechei quando a crise americana bateu, real valorizado, dólar baratinho, os BRICs mandando no mundo e americanos comprando só o essencial, roupa e comida. Eu sem o capital para segurar a onda e esperar a bonança que voltou por aqui.

Fotos: Mara Salai

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