08 de Janeiro: Há uma confusão que não é acidental, é estratégica.

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Por Julio Benchimol Pinto 

O Congresso aprovou, no apagar das luzes de dezembro, um projeto feito sob medida para reembalar tentativa de golpe como problema de dosimetria. Reduzir pena aqui, suavizar ali, até que o crime desapareça por cansaço. Lula vetou integralmente. E o que veio na sequência não foi debate jurídico, foi chantagem política explícita.




O relator no Senado, Esperidião Amin (PP), resolveu tirar a máscara: se não dá para aliviar a pena, então anistia geral, ampla e irrestrita. Sem rodeio. Sem vergonha. Paulinho da Força (Solidariedade) chamou isso de “bandeira branca da paz” rasgada pelo presidente. Traduzindo: paz, para eles, é esquecer que houve ataque às instituições, planejamento, financiamento, comando e expectativa real de ruptura democrática.

Anistia não é pacificação quando o crime ainda está sendo justificado. É convite à reincidência. É dizer que vale a pena tentar, porque no fim alguém passa a borracha.

O mais revelador não é a reação da oposição. É o desconforto institucional. A cerimônia do veto foi esvaziada. Presidentes da Câmara e do Senado ausentes. Presidente do STF ausente. O silêncio não é neutro: é cálculo. E o cálculo é simples: ninguém quer carregar sozinho o custo de dizer que golpe não se negocia.

Enquanto isso, o governo faz o que deveria ter sido feito desde o início: chama o ato pelo nome, assume o veto e banca o desgaste. Não por heroísmo, mas por obrigação constitucional. Democracia não é consenso artificial nem foto de família. É limite. E limite incomoda.

No meio disso tudo, o ministro da Justiça sai. Oficialmente por razões pessoais. Politicamente, no momento mais sensível da disputa sobre punição, segurança institucional e memória do 8 de janeiro. Coincidência ou não, o recado é claro: a pressão para transformar crime contra o Estado em problema administrativo está em curso.

Agora o Congresso tem a palavra. Derrubar o veto exige voto aberto, número alto e responsabilidade histórica. Não é só sobre Lula. Não é sobre PT. É sobre decidir se tentativa de golpe vira precedente ou exceção.

Quem chama isso de revanchismo está apenas pedindo licença para tentar de novo.

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