Por Zeca Ferreira, cineasta
2025 foi ano de perder. Perder aos pouquinhos e de repente perder um tudo. Até o que parecia horizonte era muro.
A casa vazia, os móveis imóveis, indo embora mudos, carregados por braços fortes a soldo negociado.
A mudança que não veio de Caruaru, disse a moça, feliz pela mesinha que ganhará algum sentido novo, décadas depois de abrigar o velho telefone de disco giratório e algum resquício de carcomida aristocracia, anos depois de virar obstáculo de parkour gático, semanas depois de virar uma caixa de madeira velha e sem sentido num canto esquecido da casa entristecida.
O fogão foi pro Grajaú, a geladeira foi pro Engenho Novo, a porta de armário que virou espelho foi pra Laranjeiras, assim como o gato desamparado, que já emagreceu e perdeu os pêlos de saudade mas agora parece voltar a si.
A casa se esvaziando e a gente buscando os sentidos, fim de semana de calor e frio, tudo remexido e revolvido, mas acarinhado pela cerveja gelada e pelo sonho no olhar dos próximos moradores no fim da tarde que parecia perdida.
As caixas empilhadas no carrinho deslizando na barca cheia, fotos, memórias, documentos e reflexão – por que diabos ela guardava os distratos mas não os contratos? Muitas cicatrizes em forma de papel envelhecido.
A foto é pegada emprestada das amigas queridas que a batizaram Rua da saudade, 581. “Vocês são muito fortes, não sei como conseguem entrar nessa casa”, a mensagem. Eu ri da tal da força, pois sei lá que nome tem isso.
E pra casa delas, uma casa aberta ao bom convívio, que vai a velha mesa redonda, de origem controversa e de vida infinita.
2025, ok pelos ensinamentos, mas segue o seu rumo, você não foi um bom menino
2026, se aprume, chega bonito pra que eu possa enfim dizer que ano passado eu morro mas esse ano eu não morro







