Entrevista com Moacir Santos por Guilherme Vergueiro

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Por Guilherme Vergueiro, pianista, arranjador e documentarista
Salve Moacir Santos!
No começo dos anos 90, fundei em Los Angeles a Brazilonline, o primeiro portal brasileiro da Internet. Numa das sessões do portal, o “Talking to Mr. Samba”, fiz essa entrevista com o maestro e amigo Moacir Santos. Divirtam se.
Moacir Santos é sem dúvida, uma das personalidades musicais Brasileiras mais importantes deste século. Sua vida, sua música, sua carreira, enfim tudo o que compõem seu ser, e sua alma, é o retrato do cidadão afro-brasileiro, que tem que caminhar por estradas cheias de espinhos e perigos constantes para conseguir transmitir suas mensagens.
Moacir é se não o primeiro, um dos poucos cidadãos afro-brasileiros a receber a medalha da Ordem do Rio Branco, honraria concedida pelo Presidente da República.
Moacir aonde o senhor nasceu?
Nasci nos rincões do sertão do Brasil. Nos sertões de Pernambuco, não estou certo se é Serra Talhada ou Bom Nome, numas terras que meus pais herdaram, no mato mesmo.
Quantos anos de música?
Eu acho que devia ter uns dois anos quando comecei com a musica, liderando uma bandinha de garotos, bebês, todos nus, lá no sertão, uma cidade de cinco ruas chamada Flores onde fui criado até os 14 anos.
Mas o que vocês tocavam, todos nus em Flores, pequenos?
Imitávamos a banda da prefeitura, lata de qualquer tipo, servindo de instrumentos.
O  senhor disse que fugiu aos 14 anos, fugiu de que?

Fugi de casa.
Da casa dos seus pais?
Quando minha mãe morreu, eu tinha 2 anos de idade e fui adotado por uma família, que eram
cinco irmãos. Morávamos numa garagem, que foi cedida por um desses ricos, chamado major, capitão… Mas eu fugi, porque achava que em Flores, uma cidade de cinco ruas, não daria para eu expandir a minha música e, além disso, eu levava uma vida muito subjugada, eu apanhava muito, levava peia, sem merecer. Uma moça que nunca casou era quem cuidava de mim, e ela me batia muito, facilmente.  De tal forma que, por exemplo,  ela me mandava ir ao mercado, que era um bocado longe, para comprar sabão, café, açúcar, qualquer coisa.’Va logo’, ela dizia, já me batendo.
Antes de ir?
É uma educação diferente. 
Bem emocional, mas errada.
O senhbor fugiu e foi para aonde?
De Flores eu saí para um lugar chamado Lagoa de Monteiro.
Mas o senhor  foi de que?  A pé, de trem?
Um caminhão de uns rapazes que viajavam frequentemente, caminhão de carga, que carregava milho, feijão. Então, uma vez, eu perguntei, e antes de eu perguntar eles falaram: “Você não é o garoto que tocou clarinete lá em Lagoa de Baixo?”
O senhor já tocava clarinete? Com quantos anos pegou um clarinete assim de verdade?
Acho que com uns 11 anos mais ou menos…
E o senhor ficou indo de cidade em cidade?
Não, aí fui à Lagoa de Baixo, como o meu pai, o chefe da família
Mas espere, porque que o senhor não ficou com o seu pai quando sua mãe morreu?

Porque meu pai fugiu, abandonou a família. Ele disse, uma vez que eu encontrei com ele, não conhecia ele, sabia quem era, uma ou duas vezes que ele apareceu em Flores. Conheci meu pai, e uma das vezes perguntei a ele porque abandonou a família, e ele disse que foi forçado para ser militante para esses donos de fazenda, contra Lampião, na fase de Lampião. Então ele foi, mas não justificaria…
E como o senhorfoi parar em Recife?

Quando fui para Rio Branco,  encontrei o Paixão , o senhor que me ensinou música por algum tempo, e fui morar com ele e a família dele. Me arranjaram um emprego de contínuo na prefeitura. Eu limpava, e via assim algum recado. Depois, ele mudou-se para o Recife e eu fui com eles. Recife era uma cidade… Eu olhei o mar eu senti uma coisa…
O senhor nunca tinha visto o mar?

É, nunca. É aquela coisa descomunal, parecia uma pintura… Recife parecia não ser realidade . Algum tempo depois, Paixão, que gostava de tomar batida de maracujá, um dia numa forte, me deu um murro na testa, então eu fui embora da casa dele.
Quando saiu da casa de Paixão, o senhor permaneceu no Recife?

Procurei sair de lá também, porque não tinha nada. Então fui para Vila Bela (Serra Talhada). Estou indo para o sertão de novo … Apareceu um circo lá e  precisavam de um músico para acompanhar a Miss Jani, que cantava e dançava.
Aí, em Serra Talhada,  fui morar na casa do prefeito, porque depois de Recife eu fui para Serra Talhada. Bom,  aí eu morava na casa do prefeito, e eu tocava na banda do prefeitura. Mas o Aluizio Benjamin, um destacado (militar)  de Serra Talhada, me empurrou, porque eu fui na casa do meu irmão, que já era casado e tinha um filho. Quando fui visitá-lo,  adormeci com a criança na mão, na rede, e quando o sol bateu na minha cara e eu acordei, me lembrei dos ensaios. Quando cheguei lá, Aluizio Benjamin me chamou de moleque e me empurrou.
Então, no outro dia, eu estava falando com o prefeito na mesa, que deixei a banda, e ele disse: “Mas você vai perder o emprego,,,”. Eu estava empregado como coletor dos impostos dos cavalos na feira. “Você deixou a banda, preto”. Assim que ele me chamava… “preto”, mas com doçura. E ele, branco. Mas esse pessoal do sertão do Nordeste não é branco não, é escaldado, não é preto nem caboclo, é escaldado. O circo tinha o nome de Farranha, “Circo Farranha”, e eles pensaram: “O preto caiu do céu. Agora ele vai com a gente”. Agora, o circo tinha um maestro, e eu não tinha um instrumento…
O senhor  já está com uns 18 anos?
Não eu tinha 16 aninhos. Em dois anos tudo isso já tinha acontecido. Então, a gente foi para Pernambuco e, depois, entramos na Bahia. Eu me familiarizava com os músicos, maestros da banda de músicos, que chama, mestre da banda… Eu encontrei os melhores saxofones, por exemplo em Petrolina… Oh, que saxofone gostoso, sertanhoso. Cada cidade um saxofone diferente.
Entramos na Bahia, de uma cidade a outra. Bonfim e outra cidade depois de Bonfim que eu não me lembro. Fui terminar em Salvador. Conheci o pessoal assim dos Estados Unidos, o pessoal que ia a Paris. Era na época do Cassino Tabaris, época da guerra, entre 42, 43, e na época da guerra o Cassino Tabaris tinham muitos músicos de fora que vinham tocar lá, e parece que era muito necessário, pois os investimentos dobravam, multiplicavam.
Eu nunca cheguei a trabalhar lá, mas aprendi muito com os músicos de lá, com os saxofonistas… Tinha um que tocava com o saxofone deitado, mas eles tinham um som… Eles eram monstros para mim naquela época.
Foi como um banho de prata ou de ouro… de prata. Fiquei encantado com a demonstração. Depois, toquei lá na banda como demonstração, como eu era menino eu não tinha idade, por isso que demorou, burocracia…
O tenente Paixão, que não tinha nada a ver com o outro Paixão, era o diretor do Brigada de Salvador, mas não podia fazer nada, por que o menino era menor. Então, nas semanas que eu estava em Salvador, eu já estava pensando em voltar para a minha terra, Pernambuco. Depois que eu soube que estavam me procurando para tocar em um desses circos.
Como é que o senhor sobrevivia, com os dinheirinhos que ganhava?
Olha, eu acho que é muito parecido com rato, e gato, não tem… só sei que estou vivo até agora. Aí pela volta, passei por Ceara, por que é assim, eu queria andar para qualquer lugar, para aonde fosse, pro Ceara? eu ia e fui, eu não queria era morrer. Então parei no Crato, passei por lá.
E como é que o senhor chegava nesses lugares, de que?
Caminhões, pedindo carona. Por exemplo: Crato (CE), eu nem sei como é que eu fui parar em Crato. Todos os lugares que eu chegava,  perguntava onde era a banda de música. Felizmente, o povo tinha curiosidade, porque eu era moleque. Então, eu toquei e eles falaram “muito bem”. Eles me mostraram o caminho para a casa do mestre e que eu podia me ajeitar por lá, e ver se eu podia ser parte da banda. Eu não sei se foi o  mestre Neguinho ou Rapazinho, mas ele disse: “Olha, ele quer tocar saxofone.”. E, além disso, eu tinha aprendido a ler de primeira vista na Bahia.
O senhor aprendeu a ler n Bahia?

A ler de primeira vista, que é uma outra coisa. Eu sabia música, devagar mas eu sabia. Mas quando eu fui à Bahia pra ler um ensaio com o Joca do Piston. Ele falou: “Vocês tenham paciência com este rapaz, que ele é muito promissor. Ele promete muito”. Eu aprendi na marra,  me envolvi de um tal jeito com o negócio e aprendi de vergonha, uma vergonha dos músicos que tocavam.
Aí, fui fazer um baile de carnaval , que eles me levaram em Juazeiro na Bahia, uma meia hora 45 minutos, num carro conversível, e aqueles rapazes passeando, e cantando “Nega do Cabelo Duro” e outras coisas daquela época, e eles tocavam muito, isso que era uma maravilha. Carnaval no Crato, ganhei dinheiro comprei roupa e sapato, aí eu não sei… fui para Vila Bela. Por saudades de Pernambuco.
O senhor já estava com os seus 18 anos. Já era maior?

Não, eu tinha 17, tudo isso aconteceu em três anos.
Quantos anos o Sr. tinha quando foi para o Recife, se estabelecer definitivamente?
Foi,  mas ou menos, em 1943, aos 17 anos.
E lá foi diretor da orquestra da radio. Não é isso?:
Não, eu não era do cenário artístico, até depois que eu fiz minhas andanças, nos estados, e nas cidades pequenas de Pernambuco. Fui para o Recife de novo, eu estaria estabelecido lá, mas fui como um artista. Me agarraram, compraram um saxofone alto e eu apareci num programa chamado “Vitrine”, um programa da TV 8. Mas nem assim me estabeleci.
Depois eu fiz uns freelances assim e tal. Toquei num lugar, que me parece chamar ‘Agua Fria’. Então eu ouvi falar que a policia da Paraíba estava, recrutando músicos., aceitando músicos.
Foi assim que eu fui para a Paraíba e fiquei por lá mais ou menos um ano e seis meses na policia, pois acharam que eu era um bom músico. Depois, dei baixa, por que a orquestra do Severino Araújo tinha saído da Rádio Tabajara para estabelecer-se no Rio de Janeiro. Então eu fui para tocar na Rádio Tabajara e com pouco tempo me tornei o líder da jazzband, e foi quando eu me casei. Então, demorou muito tempo para eu ir para o Rio de Janeiro.
E a fase Rio de Janeiro?
Bem, eu trabalhei no Rio de Janeiro. Fui músico da Orquestra da Radio Nacional, e depois por intermédio do velho Paulo Tapajós, fui promovido a Maestro arranjador da rádio. Havia um programa chamado “Quando os Maestros se Encontram”. E esta foi a minha estreia.
Na Rádio Nacional, tinha programa com música ao vivo das 8 horas da manhã até a meia noite. Então, havia muito trabalho para músicos e arranjadores.
Como eu, estavam trabalhando lá o Radamés Gnatalli, Lyrio Panicalli, Guaraná, Lazoli, Alexandre Gnatalli, Eduardo Pathané, Zimbris, e muitos outros.
Trabalhei lá por 19 anos. E eu ainda achava tempo para dar aula; dei aulas à Nara Leão, Sergio Mendes, Roberto Menescal, maestro Peruze, Carlos Lyra, Nelson Gonçalves, Quartera, e muitos outros.
Por intermédio do Baden Powell, conheci Vinicius de Moraes, com quem tenho muitas composições, como “Se você disser que sim” e “Menino Travesso”, gravada pela Elizete. Fiz o Nana, com o Mario Telles e gravei meu primeiro disco o “Coisas” e estive um tempo em São Paulo como maestro da TV Record. Voltei ao Rio, onde escrevi trilhas para o cinema, “Ganga Zumba”, de Caca Diegues, “O Beijo”, de Flavio Tambelini, “Os Fuzis”, de Ruy Guerra, “O Santo Módico, Seara Vermelha”, do livro de Jorge Amado, que acho que foi um bom trabalho. Através de uma destas trilhas, “Amor no Pacífico”, que escrevi, vim parar nos Estados Unidos, pois ganhei de prêmio do Itamarati as passagens para vir assistir a estreia do filme, e resolvi ficar aqui, morando.
E o americano, tem facilidade para assimilar todo esse molejo brasileiro?
Não, pelo contrário, tem muita dificuldade. Eu acho que eles aprendem desde cedo a coisa toda muito matematicamente, deixando pouco espaço para o espírito. Para o americano, é mais fácil entender como se vai à Lua, do que entender o samba, por exemplo.
E como foi o começo aqui em Los Angeles?

Eu vivia lá por Hollywood, arranjando concertos pelo jornal, pela União dos Músicos, fiquei catando as coisas por Hollywood. Vim parar aqui por sugestão, conselho do Sergio Mendes, eu vivia do meu saxofone.
E como arranjador? Com quem o senhor trabalhou aqui como arranjador?
Aqui, eu não trabalhei como arranjador.
Só em seus próprios discos?

Sim. Eu trabalhei aqui em filmes. Existe uma coisa chamada compositor fantasma aqui nos Estados Unidos. O compositor fantasma é aquele que faz as coisas, uma ponta ou mesmo um pedaço do filme, mas não aparece o nome dele no piloto, não tem crédito, então …
Como assim, é um trabalho mais de orquestrador do que de compositor?

Às vezes de criação também. Então eu já tinha uma ideia do que era um compositor fantasma, que não aparece, só recebe. Às vezes, eu sou o fantasma do fantasma.
Como se o fantasma estivesse com muito trabalho, então ele arranja um fantasma ajudante?
Isso, eu fui fantasma como esse, só recebi crédito num filme que eu participei, e compus algumas partes da trilha.
Que filme foi  “Final Justice”, de 1989.
O Sr. fez muitos desses trabalhos fantasmas?
Não, alguma coisa, mas não muito não.
E olhando aqueles panfletos todos lá na União (sindicato), o senhor conseguia muito trabalho?

Aí que está, trabalhei em igreja como pianista.
E o senhor tocava na igreja todos os domingos?

Isso todo domingo, música gospel. Aí, fui dar aulas.
De que matéria?
Olha, piano, mas eu substituía os professores. Então, eu dava aula de quase tudo, até trombone de vara eu ensinei. Eu entrava numa porta, e não sabia nem o que eu ia ensinar…
Ficou muito tempo nessa escola?
Talvez uns oito anos, uma boa temporada. Aí, eu já estava estabelecido como professor de órgão, tive que aprender os pedais, os registros. Fui a uma loja de música e, falando com uns professores,  falei qualquer coisa de quem eu era e ouvi de um deles: “Moacir Santos, Você é o Moacir Santos?”. Falou  que tinha os meus discos e tal…
Era o Gary Foster.  Ele era um dos professores e me perguntou se eu queria aula de música aqui em Pasadena, e isso transformou a minha vida… Eu vim logo morar, me mudei logo.
E quanto tempo o Sr. ficou dando aula na escola do Gary Foster?
Uns, mais ou menos, oito anos. Foi quando eu mudei de vida.
Quantos discos o senhor gravou para a Blue Note?
Três.
E o senhor tem planos de gravar mais?

Eu tenho planos agora, eu gosto de gravar, gostaria de estar lá. Eu gostaria de estar no meio. Mas eu vejo a minha vida ainda em ascensão. Isso eu ja fiz; já fui músico, compositor, professor… Eu fiz também esse disco, o “Maestro”, que foi o meu primeiro, e foi nomeado para o Grammy Awards. Então, mas eu tenho uma coisa de fazer música erudita.
Essa musica erudita que o senhor quer gravar, e está trabalhando, é baseada na cultura brasileira, quer dizer o afro-brasileiro, e com a suas raízes africanas, do Recife, e de Flores. Tudo isso vai aparecer na sua Música? O que que o senhor  pretende dizer com essa música erudita sua?

Eu vou desenvolver essa resposta.  Antes eu aprendi que isso de fazer música nacionalista é quase um pretexto, tem uma razão. Acontece que eu estou vendo claramente, está na cara, que o músico deve ser nacionalista, porque essa barreira… O músico está classificado em três categorias. Por exemplo: existe o compositor regional, o compositor nacional, e tem o compositor essencial, tem muitas fontes para atingir. E é muito bom que você comece com alguma coisa.
Muito aconselhável, é muito importante começar como você sendo folclórico, por que é aquilo que lhe pertence, depois nacionalista. Mas aí, assim, por exemplo, o Aram Khatchaturian, compositor russo-armênio, é um folclorista universal, por que ele toca o coração de todos,
Me dá uns exemplos de outros compositores dessa linha assim de universalistas.

Todos os compositores russos, a maioria que estão nos livros, atingiram a universalidade. Por exemplo Tchaikovsky. O Luiz Gonzaga é um folclorista nacional, incendeia, pronto. Ele vai cantando assim e o povo gosta e incendiou.
O Jobim é universalista?

O Jobim, eu acho que é universalista por que onde é tocada a música é aceita, gostam, nas Filipinas, na Rússia. Mas tem uma coisa, ele faz musica popular. 
Exatamente. Se bem que ele tem uns relances clássicos, em algumas composições, mas o  essencial de Tom Jobim é popular. Embora, eu voto, eu aposto assim, na minha opinião, que muitos compositores não fizeram música popular assim como o Tom Jobim, por que não souberam fazer, desenvolver a alma, que transforma em músicas popularistas e eruditas.
Agora os eruditos, quanto mais avançados no folclórico, eles acendem. Porque eles, os da erudição, transformam em maravilhas com técnicas e sofisticação também. Esses músicos, não foram expostos ou determinados, eles foram pré-determinados.
Eles tinham que existir, haviam de existir. Essa música que se chamam erudita, essa música desenvolvida. A música é como a rosa, tudo tem que ser perfeito. Você encontra tudo como um desenho, é uma beleza, é uma coisa. Quem souber venerar uma rosa, é uma beleza, que nem a música popular.
A música erudita é comparada com um jardim, no sentido que tem o festim, tem a garça, tem tudo, mas você vê de longe assim, e quando você vai se aproximando você vai encher de coisas, mas é preciso, de coisas que o compositor tem que gravar. Quando eu estava estudando com o Guerra Peixe, e eu fazia uma música e ele falava: ‘Agora isso aqui é encher, encher com qualquer coisa”. Tem umas coisas  que você tem o essencial, . mas tem que fazer isso (preencher), porque é uma forma, e se não se fizer daquela maneira não pode ser considerara uma sonata …
Então o senhor está tentando revolucionar essa fórmula, o senhor está pretendendo apresentar um trabalho assim, mais livre dessa fórmula?
Primeiramente, eu acho que como um dever de dentro, eu (não devo) começar a revolucionar nada, porque do jeito que você aprende o beabá na cartilha, são regras. Eu só tenho que estudar as fórmulas e segui-las, depois que eu me formar no beabá, na cartilha, aí, voo, aí, eu vou ser um condor.
E quando é que o mundo vai ter oportunidade de ouvir? O senhor já está com música no papel, prontinho para gravar?
Não, eu pretendo fazer isso, o meu passo vai agora ser esse.
E no coração?
No coração, já está armazenado.
Existem espalhados por todo o mundo, muitos admiradores seus, que estão querendo ouvir o Moacir, querendo a musica do Moacir, querendo ver o que que anda pela cabeça, e pelo coração do Moacir…

Eu acho que , vamos dizer com dez anos eu terei… Mesmo que não seja volumosa, mas poderosa. Mesmo que se eu tiver uma meia dúzia de obras eruditas…
Se aparecer de repente um convite de uma gravadora, alguém interessado em lançar um disco seu, assim no ano que vem…
Isso é muito fantasioso, muito enganoso, eu tenho a impressão que eu não devo ceder a essa fantasia, ilusória. O que faço agora é unidade e variedade; unidade porque sou eu, são os meus pensamentos, variedade porque faço música para qualquer formação. Por exemplo: começo pelo Nordeste, fazendo música com um quinteto de metais, já tem uma parte; os meninos de São Caetano (PE) querem música, uma banda de música do quartel me pediu música. Eu faço, eu acredito. Alguém tem que acreditar nessa unidade e variedade. Então, vai ser assim, tudo variado; um quinteto de metais numa faixa, os meninos de São Caetano cantando em outra faixa, a banda do quartel em outra, eu estou compondo para eles, seja o que quiser.
É isso então que está em seu coração agora?
Isso, uma unidade de variedades do Moacir Santos, eu vou numerar.
Mas essa variedade, podem ser centenas de repente, pois quanta vida o senho0r tem dentro de si, quantas coisas, experiências, ideias …

Isso vai variando. Variedades numero 1, 2, 3. É uma coisa interessante, surpresa. Você vai ouvir isso na unidade, variedade. A música que está enquadrada numa categoria, tem que ter unidade, variedade e proporção. Essas três são  essenciais da base musical, unidade, variedade e proporção, porque meio cavalo não pode correr…
Por que o senhor acha que apesar dos americanos gostarem tanto da música brasileira, tomarem aulas,  os grandes artistas americanos comparecerem nos shows, porque o mercado fonográfico continua totalmente fechado aos artistas Brasileiros?

Eu penso que é umas três coisas juntas. Por exemplo, a indústria americana não tenta internacionalizar. Prefere um músico americano que tomou aula, que aprendeu coisas com o músico brasileiro.  Eles têm, ainda essa coisa, esse pensamento industrial, pensando que vai vender mais ainda, que nem o cinema americano.
E por que, então,  não cola quando  os artistas/músicos brasileiros procuram fazer exatamente isso?
Por exemplo: fazer uma música americana com essas iscas brasileiras, por que que isso não funciona da mesma maneira como o americano faz?

Essa pergunta é difícil., É difícil de entender, pois o americano pensa como um americano. Todo o negócio, inclusive com a indústria, ele vai, ele volta, ele vota no americano, no industrial americano,. Ele tem mais fé, ele compreende. É a psicologia, ele vê o dinheiro mais vivo. O brasileiro ou outro qualquer, só quando ele é chamado assim, ou que já entra arrebentando, estoura mesmo…
O senhor irá receber no próximo dia 12 de junho, no consulado Brasileiro de Los Angeles, uma honraria do governo Brasileiro. Que honraria é esta, e como o senhor está se sentindo?

É a medalha da Ordem do Rio Branco, concedida pelo Exmo. Sr. Presidente da Republica, Fernando Henrique Cardoso, encomiado pelo Digníssimo Sr. Jório Gama, consul geral do Brasil em Los Angeles.
No meu sentimento eu acho que não mereço  tal elevada honraria, mas prefiro amenizar esta forma de pensamento dizendo que eu aceito esta mui subida honra como um adiantamento para o que eu tenho que fazer todo o resto de minha vida.
Que mensagem o senhor gostaria de mandar aos jovens Brasileiros que aspiram a carreira musical?

Primeiro: trabalhar fervorosamente em busca de seu objetivo.
Segundo: ter humildade no coração, porque só assim as fadas que dirigem o reino musical se aproximarão de você.
E, por fim, procurem ficar afinados com a natureza, observem as criaturas da natureza, por exemplo as flores, os animais  e procure escutar os seus sons quando são emitidos. Muitos não têm sons, mas os cinco sentidos podem captar. Por exemplo: a flor, com sua beleza e seu perfume, (primeiro a visão e segundo o olfato) e assim por diante. Prestem constante atenção a todos os sons (principalmente dos homens e dos animais), que ouve-se para poder transformá-los em música.
Obrigado Moacir, e desejo para o senhor tudo o que há de melhor.
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