Estupro coletivo em Copacabana é mais uma face perversa da epidemia de violência misógina que grassa pelo país
Por Aydano André Motta, compartilhado de Projeto Colabora
Foto: Os quatro maiores de idade acusados pelo estupro coletivo da menina de 17 anos. Foto reprodução
Ao testemunhar o julgamento do nazista Adolf Eichmann e sua narração plácida das atrocidades do regime, Hannah Arendt constatou que os autores daqueles atos não são “monstros”, mas pessoas comuns, humanos como quaisquer outros, agindo burocraticamente, imunes a reflexões morais ou éticas. Assim, a filósofa alemã (1906-1975) estabeleceu o conceito “Banalidade do mal”.
Décadas adiante, a um Atlântico de distância, o aforismo ressurge no massacre de gênero que grassa nesses trópicos. Eichmann e outros bárbaros vivem na caminhada relaxada de quatro jovens, em cariocas bermudas e chinelos, pelas pedras portuguesas de Copacabana. Ali, na imagem típica das câmeras de segurança, vai uma covarde – e banal – quadrilha de estupradores.
João Gabriel Xavier Bertho e Mattheus Verissimo Zoel Martins, os dois de 19 anos; Vitor Hugo Oliveira Simonin e Bruno Felipe dos Santos Alegretti, de 18; e um menor de 17 reuniram-se para emboscar e estuprar uma adolescente também com 17 anos. Montaram a armadilha no apartamento da família de Vitor Hugo, no início de Copacabana, usado para aluguel por temporada.
O menor atraiu a menina, sua ex-namorada, e, quando os dois estavam no quarto, os outros quatro entraram para o estupro coletivo. Puxaram os cabelos dela, desferiram socos e um chute na região abdominal. Em seguida, a subjugaram para realizar atos sexuais forçados. Mesmo com a garota indefesa suplicando para que parassem, os homens seguiram com as sevícias durante aproximadamente uma hora. Quando enjoaram da covardia, mandaram a vítima embora e ainda permaneceram por 20 minutos na cena das atrocidades.
A quadrilha deixou o prédio às 20h42 daquele 31 de janeiro, em cena flagrada pela câmera da portaria, que chama atenção – de novo – pela banalidade. Os estupradores caminham de maneira frugal, integrados à paisagem da transversal comum do bairro turístico. Não têm pressa, nem vão se esconder, tampouco demonstram qualquer emoção ou angústia. Poderiam ser bisnetos de Eichmann.
Até o fim da quinta-feira (5), os quatro adultos estavam presos – isso após algumas trapalhadas da Polícia e Justiça, cúmplices no desprezo à denúncia da jovem, levada pela avó à delegacia na mesma noite do crime – e o menor apreendido após se entregar. Ele e Vitor Hugo eram alunos do tradicional Colégio Pedro II (foram expulsos); Mattheus terminou o Ensino Médio numa escola particular de Botafogo; João Gabriel tentava a vida no futebol, pelo Serrano, clube de Petrópolis (RJ); e Bruno está matriculado em Ciências Ambientais na Unirio.
Colegas que conheciam os integrantes da quadrilha narravam atitude sistemática de raivoso desprezo por mulheres em geral. “Quando falaram que havia um menor de idade, sabia que era ele. Antes mesmo de mostrarem a foto”, comentou uma aluna no 9º ano do Pedro II. “Eles nunca respeitavam quando uma menina dizia não. Era recorrente”, ratificou outra, do Ensino Médio.
Tanto que, após a coragem da vítima de Copacabana, surgiram outras denúncias de crimes semelhantes do mesmo grupo, que funcionava como uma espécie de gangue do estupro. Aparentemente, sempre com dinâmica igual – um deles atraía a vítima para a cilada e os outros apareciam de surpresa, consumando a bestialidade coletiva. Tudo de caso pensado.
Em tentativa desesperada de justificar o dinheiro pago por seu cliente, o advogado de um dos réus lançou a batida e abjeta carta do consentimento (também citada pelos misóginos das redes sociais). Arriscou que a menina aceitou a investida, derrapando na superbrasileira mania de culpar a vítima – o famoso “sai com essa roupa curta, queria o quê?”. Foi, pelo menos, esculachado pelo delegado responsável pela investigação.
Vitor Hugo, Bruno, Mattheus, João Gabriel e o menor, os criminosos, são típicos brasileiros do sexo masculino. Como eles, há milhões de outros, confrades na radical ojeriza pelas mulheres. O estupro coletivo é apenas a face mais cruel de todo um código que objetifica, despreza, repele, invisibiliza, boicota, maltrata, oprime, odeia, desumaniza e mata pessoas do sexo feminino.
Com exceções que somente confirmam a regra, homens, em verdade, gostam de outros homens. São irmãos, amigos, companheiros, sócios, parças. Basta observá-los em momentos de lazer; no botequim, com a inquebrável alegria de chopes e biricoticos, cantorias e piadas, confidências e saudades; na arquibancada, dos abraços nos gols e beijos nas vitórias; na pelada, no socorro a partes lesionadas do amiguinho ou no amparo ao companheiro manquitola – além de tomarem banhos juntos, debatendo gols, vitórias, empates e derrotas. Sempre em apaixonante harmonia.
Mulheres, ao olhar macho, são humanos de segunda classe, adversárias a serem subjugadas, corpos disponíveis ao desfrute – e fim. Não têm direito a vontades, desejos, limites, presunção de inocência. Assim prega o senso comum dos homens, que odeiam, em especial, quando elas invadem territórios “sagrados” a eles. Jogadoras de futebol? Chefes de setores? Líderes corporativas? Presidentas da República? Tudo absolutamente intolerável.
O combustível e a motivação dos cinco estupradores de Copacabana são as mesmas do homem de 35 anos, que se achava no direito de estuprar seguidamente uma menina de 12 anos, em Indianópolis (MG). Esse, aliás, teve, por algum tempo, o aval do estado, pela caneta do desembargador Magid Nauef Láuar, da 9ª Câmara Criminal, que, sem constrangimento, farejou “vínculo afetivo consensual” entre o adulto e a criança. Graças ao trabalho indignado da imprensa e a consequente repercussão nacional, sua excelência voltou atrás e o estuprador agora acompanha o nascer quadrado do sol.
O banalizado mal dos marginais de Copacabana e do criminoso mineiro também motivou João Antônio Miranda Tello Ramos, funcionário do Cefet-RJ que, em novembro passado, matou com tiros na cabeça duas colegas de trabalho, por não tolerar ser chefiado por elas. Ou Cássio Henrique Zamperi, que, no fim de fevereiro, assassinou com uma facada no pescoço a ex-namorada Cibelle Monteiro Alves, 22 anos, depois de invadir o trabalho dela, na joalheria de um shopping no ABC paulista, e fazê-la refém. Ela tinha medida protetiva contra ele, mas para a sanha misógina é apenas um inútil pedaço de papel.
Daria para listar casos atrozes contra mulheres até esgotar o espaço nos servidores do #Colabora. Afinal, o Brasil pode ser a terra do samba, como um dia foi a do futebol – mas também é a do feminicídio. Aqui, a cada seis horas morre uma mulher assassinada, a maioria pelo companheiro ou ex. O banho de sangue motivou a criação de lei específica, aprovada em 2015 e reformada em 2024, prevendo pena de 20 a 40 anos para os criminosos. Nem passar metade da vida na cadeia amedronta os carrascos misóginos, como atesta o aumento de ocorrências.
Regulamentação mais antiga, de 2006, que combate a violência doméstica e familiar, ganhou o nome de uma vítima, a farmacêutica cearense Maria da Penha Maia Fernandes, atualmente paraplégica após sofrer duas tentativas de assassinato do marido. (O algoz dela, o economista e professor universitário Marco Antonio Heredia Viveros, passou dois anos na cadeia, e hoje anda solto pela rua). Tamanha mobilização revela-se inócua: de 2024 para 2025, os casos de violência sexual e estupro cresceram 56,6%, contabiliza levantamento de ONGs do setor.
A tolerância com a extrema-direita conecta-se totalmente à epidemia de brutalidade. Entre muitos fatores, o apoio a bizarrices bolsonaristas em postos do Executivo e nas casas legislativas país afora se escora numa reação dos machos inconformados diante da desconstrução imposta pelo bom senso e a empatia. Disseminado especialmente em igrejas neopentecostais, um conceito anacrônico de família, da mulher submissa e anulada, coadjuvante sem fala de seu amo e senhor que tudo pode, arremata a narrativa opressora.
Às vítimas que sobrevivem às brutalidades está reservado um calvário: o pesadelo perpétuo dos momentos terríveis tatuados na memória, as cicatrizes pelo corpo, a vergonha de reviver o martírio em exames e depoimentos na polícia e na Justiça. Nunca mais a vida dessas mulheres será o que era antes da barbárie.
De qualquer jeito, nada explica o prazer de subjugar em grupo um corpo mais frágil, seviciá-lo e agredi-lo até cansar. Para depois, sair andando pela calçada como quem chupa um picolé, sabor banalidade do mal.





