De Daniel A. Rubio, documentarista
Sou documentarista. E foi com esse olhar, acostumado a dissecar a realidade em fragmentos, que assisti ao documentário Anatomia do Caos, de Dandara Ferreira. Senti-me assistindo ao meu próprio trabalho.
A obra opera uma inversão necessária na memória de tempos que, na loucura da desinformação recente, parte da sociedade insiste em esquecer. Para mim, documentários são apenas fragmentos de vidas que, na observação atenta, revelam as entrelinhas da existência, provocando, sem forçar, talvez a busca pelo bom senso, pelo equilíbrio ou pela reflexão, neste caso, nas palavras dos atores dessa tragédia política.
Essa visão conecta-se visceralmente ao meu documentário Mundos Paralelos: Cronologia de um Golpe, que relata, a partir de 2018, a urgência de uma Frente Ampla ante a cegueira da extrema-direita. Lembro-me de ir filmar uma manifestação massiva na AvenidáPaulista, e minha intenção não era em ninguém caso julgar, mas escutar o modelo de país que os militantes e pessoas comuns, ativistas, discursos nos carros de som desejavam.
Queria saber se a minha percepção de uma cegueira massiva e passiva, que tomou conta do mundo nos últimos 20 anos, era minimamente real ou se havia uma compreensão coletiva que eu não via. Caminhei entre os manifestantes e perguntei das mais variadas formas: “Como você vê o futuro com Bolsonaro? O que você deseja para o Brasil? Me conta as coisas legais caso ele seja eleito?”. Da mesma forma que pergunto sobre a vida de qualquer personagem nas histórias que produzo, buscava respostas que revelassem alguma intenção com o “outro”, alguma centelha de empatia.
Ao voltar, senti-me quase incompetente. Não consegui uma resposta minimamente empática ou que diferenciasse o ser humano de uma ideologia rasa, imposta, a qual nem entendiam como havia se instalado. Encontrei apenas respostas pasteurizadas, sem reflexão, definitivamente cegas para a condição humana, a empatia e a solidariedade. O que o documentário de Dandara mostra na tela, eu vivi na pele na Paulista: a incapacidade de dialogar com quem não se permite aceitar nem enxergar as diferenças.
O documentário de Dandara revela que a escolha entre os lados não é tão difícil quanto o caos comunicacional sugere. Tudo estava na mídia, tudo estava nas redes, e muitos não conseguiram ver, vítimas da espetacularização da vida.
A obra expõe a “procura do bom senso” de um lado e, do outro, a falta de empatia, a cegueira causada pelo individualismo e a mercantilização do ser humano. De um lado, a obsessão pelo domínio e pela imposição de uma visão única; do outro, a crença de que podemos discordar em muitos pontos, mas concordar no que atinge o bem de todos. O filme não é panfletário, mas confronta com responsabilidade, transparentando os valores universais intrínsecos ao cotidiano solidário brasileiro, soterrados pelo ruído e pelo perigo iminente nestes dias, no Brasil e no mundo, diante do excesso descontrolado de informação midiática e fake news.
A necessidade de um olhar analógico se impõe. Ser intencional em nosso olhar é um ato de resistência para enxergar a diversa humanidade. No documentário de Dandara, a pesquisa cuidadosa e a montagem séria e responsável da obra revelam, sem forçar, a cegueira de uma turma ancorada no individualismo simples, que esqueceu a condição bela e humana da dúvida, que é o verdadeiro motor da coletividade.
Fazer documentário não é fácil, e fazer um “bom” documentário é mais difícil ainda; é um confronto constante com nós mesmos, com nossos valores e com a nossa intrínseca fragilidade. O caos comunicacional destes tempos que vivemos nos confronta com o cerne da nossa condição: o que nos diferencia entre nós é a linha tênue da dúvida. A dúvida é um convite constante à reflexão; ela nos protege do pensamento em preto e branco, de qualquer “verdade absoluta” ou do simplista “a favor” ou “x é algo natural à nossa condição humana e deveria tornar-nos solidários, pois é juntos que nos protegemos. Essa deveria ser a lógica da nossa diversidade.
Quando não entendemos o “outro”, fechamo-nos no medo e na solidão paralisante, buscando nas certezas fáceis uma sensação de invencibilidade, de “super-herói”. Mas a luz está na dúvida, não na certeza cega.
Nos dias de hoje, a escolha é fácil: é cegueira ou humanidade. É individualismo ou coletivo. A dúvida é o que nos aproxima; a cegueira e o individualismo são o que nos separam. E, em qualquer lugar, ao seu lado, existe alguém que, assim como você, apenas duvida. Duvidar não tem nada de ruim; duvidar é a condição intrínseca do ser humano, e é ela que nos aproxima.
Afinal, se eu fosse você e estivesse na dúvida nesta eleição histórica, assistiria, sem dúvida, ao documentário de Dandara.
Daniel A. Rubio
Documentarista e fotógrafo







