O jornalista Claudio Lovato relata aqui uma ficcional coletiva de imprensa. Ficção, sim, pois hoje, na maioria das vezes, repórteres concordam com o entrevistado antes de questionarem, quando questionam.
Por Claudio Lovato, jornalista e escritor
Assessor: “Bom dia. Vamos dar início à entrevista coletiva sobre a exitosa operação de ontem, que recebeu e continua recebendo muito apoio da população, como se pode comprovar pelas redes sociais. Vamos seguir a ordem de inscrições. Primeira pergunta. Você”.
Repórter 1: “A gestão estadual entende que…”
Autoridade Política: “Veja bem. Nós não educamos. Nós não fornecemos saneamento. Nós não oferecemos cultura, esporte e lazer. Nós temos armas e as usamos”.
Repórter 1: “Esse então, como se poderia dizer… Esse é o projeto?”
Autoridade Política: “Exato. Projeto, linha de atuação, estratégia de ação, plano de administração”.
Repórter 2 (com a mão erguida): “E o senhor acha que isso resolve o problema? É a solução para o problema do crime organizado?”
Autoridade de Segurança: “Claro que não. Mas o que uma coisa tem a ver com a outra? Que pergunta sem fundamento!”
Repórter 2: “Mas então por quê?”
Autoridade Política: “Por que o quê?”
Repórter 2: “Por que matar, se as causas do problema não são tratadas?”
Autoridade Política: “Causas? Mas o que isso interessa? Você não está entendendo nada, não é, meu filho? Nós somos a solução. O nosso pensamento. O nosso modo de operar. O nosso entendimento de como as coisas devem funcionar, que é o entendimento que todos deveriam ter, entendeu? Todos. Inclusive você”.
Repórter 3: “Houve mortes de pessoas que não tinham ligação com o crime…
Autoridade de Segurança: “Isso é uma pergunta?”
Repórter 3: “Uma constatação…”
Autoridade Política: Sim. Houve. É verdade. Uma pequena quantidade de fatalidades entre inocentes. Coisa pequena, no cômputo geral”.
Repórter 3: “E sobre os policiais mortos, o que os senhores poderiam comentar?”
Autoridade de Segurança: “Lamentamos”.
Autoridade Política: “Isso, lamentamos”.
Repórter 4: “As famílias dos mortos na operação vão ser indenizadas? Vão ter algum tipo de reparação?”
Autoridade Política: “O quê? Próxima pergunta”.
Repórter 5: “Qual é o panorama neste momento em relação às lideranças do crime? As atividades dos grupos criminosos cessaram?”
Autoridades Política e de Segurança (em coro): “Claro que não. Mas o que isso tem a ver com esta entrevista coletiva?”
Repórter 5: “Como assim?”
Autoridade Política: “Como assim, o quê, minha filha? Você também não está entendendo nada, não é? Aliás, acho que nenhum de vocês está entendendo nada. Vamos encerrar a coletiva por aqui. Muito obrigado”.
Autoridade de Segurança (falando baixo para a Autoridade Política, mas o áudio vazou): “É isso aí. Quem nos interessava que entendesse, entendeu”.







