A entrevista de Jack, o estripador

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“O cara é tornado réu por tentativa de golpe de Estado. A acusação não surgiu por uma denúncia de uma Anielle Franco, um Boulos ou de jornalistas do semanário “Causa Operária”.

Por Antônio Prata, compartilhado de Construir Resistências




Tem conversas de WhatsApp do alto escalão do governo e da caserna, conspirando. Tem delação premiada do ajudante de ordens do ex-presidente. Tem confirmação dos comandantes do Exército e da Aeronáutica, nomeados pelo cara. O chefe do Exército, inclusive, disse que se o cara continuasse com aquele papo de golpe, iria lhe dar voz de prisão.

Dentro do golpe, bem documentado, está o projeto de assassinar o Lula, o Alckmin e o Alexandre de Moraes. Assassinar, meus amigos.

Dado o histórico do cara, contudo, não é nenhuma surpresa. Ele foi expulso do Exército por ter um plano de explodir quarteis e um aqueduto no Rio de Janeiro.

Falou bem da ditadura a vida toda, embora com a ressalva de que o regime errou ao “só” torturar e não matar os adversários.

Segundo ele, tinha que matar 30 mil pro Brasil dar certo –matou uns 200 mil na pandemia, ainda não deu.
Dos anos de chumbo, seu ídolo não é o general Castelo Branco, o Golbery, o Delfim Neto.

É aquele que todos os citados anteriormente diziam, em público, desprezar, embora dependessem de seus serviços para garantir o pão de cada dia: Carlos Brilhante Ustra.

Um carniceiro que torturava pais e mães diante dos filhos.

O plano de assassinato do presidente, do vice e de um ministro do STF se chamava nada mais, nada menos, que “Punhal Verde e Amarelo”.

Punhal, temos de convir, não é exatamente uma ferramenta institucional notória à disposição de governantes. Nem veneno. “Os golpistas planejaram usar veneno nos assassinatos.

A Polícia Federal afirma que o general da reserva Mário Fernandes elaborou o plano em novembro de 2022, logo depois das eleições.

Segundo a PF, os militares discutiram o plano na casa do general Braga Netto, que foi ministro da Casa Civil e da Defesa de Jair Bolsonaro, e candidato a vice na chapa dele, derrotada nas urnas.

A reunião foi em 12 de dezembro, três dias antes da data escolhida para os crimes. Mas meses antes, em julho, numa reunião ministerial, com a presença de Bolsonaro, o general Fernandes já falava em golpismo, dizendo: ‘Adotar medidas alternativas.’ E fez referência ao golpe militar de 1964”. As aspas não são, mais uma vez, da “Causa Operária”, mas do site do Jornal Nacional, no G1.
Este réu, então, de passado ilibado, dá uma entrevista coletiva logo depois de o STF acolher as denúncias.

Quais são as perguntas da imprensa? “Por que o senhor veio ontem ao STF e hoje, não?”. “Presidente, o que o senhor achou do voto do ministro Fux?”. “O senhor tem mágoa do Mauro Cid?”. “O senhor pretende acompanhar pessoalmente o mérito do processo?”. “O que falta então pro senhor ter esse amplo direito de defesa?”. “Em relação a Carla Zambelli, como o senhor se posiciona?”.

É como se Jack, o estripador, desse uma entrevista coletiva e perguntassem a ele sobre quais as melhores facas para desmembrar cadáveres.

“Senhor Jack, o senhor prefere Tramontina, o kit Polishop Barbecue Master ou as artesanais, como as Zakharov?”.

Não fosse a aparição maravilhosa daquele trompetista tocando a “Marcha Fúnebre” e a impressão era de que toda essa tragédia iria acabar em pizza. Ou em leite condensado.

Cruzo os dedos para que as leis e Chopin sejam respeitados.“

Antônio Prata é escritor e roteirista, autor de “Por quem as panelas batem”

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