Por Enio Squeff, artista plástico, escritor
Um velório como certamente o Julio Valverde esperava: uma tristeza conformada, mas nada de desespero. Só senti uma real tristeza quando a Juliana, sua filha, me abraçou chorando e disse: “O papai gostava muito de você”. Minhas próprias lágrimas diziam tudo.
A tristeza conformada persistia. Mas então, como eu previa, os músicos, colegas do morto, foram chegando. E David, neto do Julio, começou a tocar violão, como seu avô, logo seguido pela Bibi, também sua neta, que cantou como só ela sabe. E, quando saímos, estava quase uma festa de celebração, com vários se substituindo ao violão: este foi o velório do Julio. Saí pensando que lhe devia uma reflexão.
De todas as artes, a gastronomia é a única que se completa ao ser degustada pelo corpo do outro – o comensal sente uma alegria saudável no próprio corpo, assimilando a inventiva de alguém. Uma vez o Julio me comentou que concebia seus manjares mentalmente. Tive a felicidade de experimentar alguns deles. “Como foi isso, Julio?”. E ele: ”Eu tinha alguns ingredientes e então resolvi misturá-los com…” Podia ser de tudo, carne de porco, galinha d´Angola.
E de modo que, podia se comer pouco, como aprendi: a alegria do gosto espalhava-se pela boca, festejando-se no cérebro – sim, na inteligência. E o corpo agradecia feliz.
Foi-se o meu querido Julio, um homem que me obriga a um raciocínio simples. Julio, foi o maior artista da culinária que eu conheci. Acho que a sua felicidade era toda essa: olhar por instantes o efeito milagroso de seus manjares olímpicos entre seus comensais.
O historiador inglês Eric Hobsbawm, propunha que o século XX inventara novas formas de arte. O futebol praticado pelo Brasil era um deles. A arte da gastronomia é reconhecida há séculos.
Julio Valverde foi um dos que eu me orgulho de ter sido seu amigo. Penso que ele gradecia a mim e a outros que frequentavam o restaurante Soteropolitano, por nos regozijarmos perante seus pratos. A outra questão é que exuberava sua generosidade também na música, na maneira doce com que tratava seus amigos.
Dou “gracias à la vida” por ter sido seu amigo e feliz comensal.







