Por René Ruschel, jornalista
Defender a soberania venezuelana não significa apoiar governos, mas afirmar um princípio fundamental: nenhum país tem o direito de impor sua vontade pela força. A insensatez de Trump ao recorrer à guerra ameaça não apenas a Venezuela, mas todo o equilíbrio da região.
Na madrugada deste sábado, 3 de janeiro, a Venezuela foi alvo de uma ofensiva militar dos Estados Unidos. A ação, conduzida sem autorização de organismos multilaterais e à revelia do direito internacional, representa mais um capítulo de intervenção externa em um país soberano.
Independentemente de disputas políticas ou ideológicas, trata-se de um ataque direto à autodeterminação de um povo e à estabilidade regional.
As relações entre Estados Unidos e Venezuela deterioraram-se de forma acentuada a partir do governo de Hugo Chávez. Eleito em 1998, Chávez inaugurou uma política externa voltada à soberania nacional, ao controle dos recursos estratégicos e à integração latino-americana, rompendo com a tradicional submissão aos interesses de Washington.
Desde então, sanções econômicas, pressões diplomáticas e tentativas de isolamento passaram a compor a estratégia norte-americana.
Com Nicolás Maduro, esse cenário se agravou, combinando crise interna, bloqueios econômicos e um discurso cada vez mais agressivo por parte dos EUA.
O principal argumento apresentado pelo presidente Donald Trump para justificar a ofensiva é o combate ao tráfico de drogas. Trata-se de um problema real e complexo, que exige cooperação internacional, inteligência financeira, políticas sociais e fortalecimento institucional, mas existem fórmulas para enfrentá-lo fora do campo de batalha.
A opção pela guerra, contudo, é a mais destrutiva e ineficaz. Uma intervenção militar que sacrifica toda uma população sob o pretexto do combate ao narcotráfico é simplesmente intolerável.
A história recente demonstra que o Exército dos Estados Unidos é um invasor contumaz. Iraque, Afeganistão, Panamá, Líbia e Síria são exemplos de países que sofreram agressões diretas, sempre justificadas por narrativas de segurança ou defesa da democracia, mas que resultaram em destruição, instabilidade e sofrimento prolongado das populações civis. A Venezuela, agora, soma-se a essa lista.
Na América Latina a interferência norte-americana deixou marcas profundas ao longo do século XX, especialmente durante a Guerra Fria. Em nome do combate ao comunismo, Washington apoiou golpes de Estado, financiou grupos paramilitares e sustentou ditaduras sanguinárias no continente.
O golpe militar de 1964 no Brasil contou com apoio explícito dos Estados Unidos, assim como os regimes autoritários no Chile, na Argentina e no Uruguai. Esse passado não pode ser ignorado quando se analisa o presente.
A guerra, em qualquer circunstância, deve ser condenada. É a mais cruel, brutal e desumana das ações políticas, pois atinge majoritariamente quem não decide, mulheres, crianças e idosos.
São eles que pagam o preço mais alto das bombas, da fome e do colapso dos serviços básicos.
Defender a soberania venezuelana não significa apoiar governos, mas afirmar um princípio fundamental: nenhum país tem o direito de impor sua vontade pela força.
A insensatez de Trump ao recorrer à guerra ameaça não apenas a Venezuela, mas todo o equilíbrio da região.







