E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, ainda embasbacado com a “bandeira” dada por uns tantos que preferem saudar o pavilhao dos EUA, mesmo se intitulando de patriotas, conta aqui a história do Senhor Canoa. Embarquemos:
Beija-Flor, 9 de setembro de 2025.
Caro editor, caríssimos leitores: é preciso deixar explícito que a história abaixo, escrita há tanto tempo, será publicada dois dias depois de termos visto com nossos próprios olhos pessoas de verde e amarelo a saudar a bandeira americana em um Sete de Setembro. Os anos Trump são inspiradores para os conspiradores.
Não é de hoje que a nossa democracia está sob ataque. Talvez seja este o caso mais freqüente, e não uma exceção à regra. Enfim, que as palavras acima sirvam como lentes para uma adequação à leitura. Ou o senhor Canoa não está falando o que lhe ocorreu por linhas tortas?
Quando o senhor Canoa se tornou o que é
A conversa transcorria tranquilamente até que alguém novo no grupo ao redor da fogueira fez uma indagação que demandou do senhor Canoa certa ponderação ao responder.
A pergunta era: Senhor Canoa, quando exatamente o senhor se apercebeu de sua fortuna? “Eu tinha planejado um futuro menos incerto para mim”, disse ele olhando para dentro de si. “Creio, entretanto, que meus planos tenham dado com os burros n´água um pouco também por minha total responsabilidade. Demorei a me inteirar da situação, o que comprometeu os passos seguintes. A questão era: ficar ou não ficar? À época, a situação ainda não era tão vexaminosa para quem vinha de classes como a minha.
Ouvíamos as notícias quase como se delas não fizéssemos parte. Ainda tínhamos vinho e carne, a lua brilhava. Quando nos demos conta, tínhamos poucas alternativas, tendo esgotado os nossos recursos. Ficamos eu e tantos. Depois de tal dura lição, deixei para trás uma boa parte da minha prepotência, foi como se ela jamais tivesse existido.
Eu era muito sonhador, apesar de parecer precocemente pragmático aos olhos de meus pais. Uma carreira segura como madeira de lei era o que me esperava em breve, qual o quê!. Não a obtive, como é fácil de perceber pelo simples fato de estarmos juntos neste descampado.
Eu gostaria de ter seguido a carreira diplomática, algum posto fora do país. Se eu saberia lidar com a saudade da pátria é algo a que não posso responder. Sonho com esta terra com regularidade apesar da nuvem de fuligem das chaminés.
Tentei, por diversas vezes, atravessar o canal a nado, sem obter sucesso. Por mais que eu me esforçasse, a correnteza me trazia de volta e me lançava por entre as pedras, lacerando-me. Isto para não dizer das terríveis monções que me obrigaram a adiar meus planos. Após testemunharem as minhas inúmeras tentativas, os maledicentes me apelidaram de senhor Canoa, o que ficou de fora de Canaã.”
Era estranho ouvir do senhor Canoa algo tão inverossímil. Não havia saída pelo mar onde estávamos, muito menos monções. Por via das dúvidas, resolvemos entre nós jamais dirigirmos ao velho homem perguntas embaraçosas desse tipo. Alguns de nós chegaram a dar uns safanões no ingênuo inquisidor que fez a pergunta que desencadeou todo este enredo.
Era triste para todos os presentes cogitar a hipótese segundo a qual a prodigiosa memória do senhor Canoa começara a falhar, embaralhando o vivido e o desejado.
Foto do post: Américo Vermelho
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.







