A partida de Luis Fernando Verissimo e sobre outros grandes da nossa literatura

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E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, fala aqui da partida do grande, em talento e como ser humano, Luis Fernando Veríssimo. Como conversa vai, conversa vem, César fala também sobre o poeta Mário Quintana, muito admirado na família Veríssimo, como podemos ver nesta afirmação de Erico, pai de Fernando: Descobri outro dia que o Quintana, na verdade, é um anjo disfarçado de homem. Às vezes, quando ele se descuida ao vestir o casaco, suas asas ficam de fora. (Ah! Como anjo seu nome não é Mario e sim Malaquias)…

Soube no sábado passado pelos jornais que Luis Fernando Verissimo se encantou. Gostava de ler as colunas que ele escrevia nos jornais impressos. Primeiro no Jornal do Brasil aos domingos, depois no O Globo, domingo e quarta, se não me engano. Meu pai foi assinante destes dois jornais.




Eu lia os textos de alguns colunistas com atenção que dedico à literatura. Digamos que eu lia aquilo tudo saborosamente. O trecho em que Verissimo sugere que Fernando Henrique leia um autor que ambos admiram é maravilhoso. Quem se lembra? Verissimo sugere a Fernando Henrique presidente a leitura de Fernando Henrique sociólogo.


Verissimo era tão bom em sua arte que por vezes a gente se esquece de atentar para um fato: ele era filho de Erico Verissimo, um grande escritor gaúcho de quem li tão pouco. nem ver a série global “O tempo e o vento” eu vi.


Não sei o que vocês leram do Verissimo pai, mas eu digo que li “Um Certo Capitão Rodrigo” e “Solo de clarineta”. Fiquei de ler o “Incidente em Antares”, livro dele de realismo fantástico, escrito na década de 1970 que também virou minissérie global. Quem se lembra? Tinha como pano de fundo os efeitos da ditadura militar sobre a vida das pessoas. Enfim, nem li nem assisti. Passou o desejo, paciência: nem sempre consigo ler tudo que quero, assim é a vida.


Fato curioso, as voltas que o pensamento dá: com o encantamento de Verissimo, me veio a lembrança de Mario Quintana. Eu não conhecia a história que o Washington nos contou sobre o Verissimo e o Quintana. História de gente que respeita e admira a obra do outro. A lembrança me veio antes mesmo de ler o texto do Washington (leia abaixo).


Se entendi bem, a história é mais ou menos essa: Verissimo foi convidado para participar de um evento literário em homenagem ao centenário de seu pai, aceitou o convite e abriu mão do cachê.

Veio de Porto Alegre para o Rio de Janeiro, falou em público, fato importantíssimo uma vez que ele que não era muito de falar. Depois do evento, disse que queria o cachê, que seria homenagem no ano seguinte de Mário Quintana, que completaria cem anos. Presto: e assim dois autores gaúchos foram homenageados.


Quanto ao Quintana, além dos livros que comprei com meu suado dinheirinho, eu tenho uma agenda poética do Mario Quintana. Não sei se a comprei, não sei se foi meu pai que comprou para mim de presente de Natal (Olha o pai aí de novo!). Eu sei que tanto eu quanto meu irmão tivemos uma agenda poética “Mário Quintana” para escrever sobre os compromissos do já longínquo ano de 1998. Longínquo, sim; mas próximo do coração quando este se ilumina.


O que é melhor: ressignifiquei a agenda, que virou um caderno onde eu anotava meus sonhos. Há registros da minha atividade onírica em minha caligrafia ruim de 2004 até 2015.


Antigamente eu sonhava mais ou anotava os sonhos com mais freqüência? Sei não. Seja como for, dessa agenda eu não me desfiz. Segue entre os livros da estante feito um bichinho de capa vermelha e letras douradas a se defender das traças e das minhas muito mal-traçadas linhas. Um kindle nunca irá proporcionar essa delícia de experiência. Livros podem ser amados pelo tato.


Certa vez, fiz uma apresentação sobre Mario Quintana num bar em Marechal Hermes, aqui no subúrbio do Rio de Janeiro. Um amigo meu estava fazendo um show de música em um boteco e me convidou não sei por que para falar de Mario Quintana. Eu fui. Eu meu apresento em qualquer lugar, sou bem circense. Papo foi, papo veio. Ao final, li o seguinte do Quintana para concluir minha fala: “Sonhar é acordar para dentro”.


Eu não sabia que a agenda iria virar o caderno dos sonhos. Ou sabia? Seja como for, Quintana era um frasista de primeira. Era? Não. Continua sendo. Isso quem nos revelou foi o Luis Fernando Verissimo: a arte de Mário Quintana só fez crescer com o tempo. Ele se tornou um poeta ainda mais lido depois de encantado.


Manuel Bandeira, Manuel de Barros, Mário Quintana. Três grandes poetas com M maiúsculo. Mas isso é papo para outra ocasião.
Deixo a vocês dos poemas de minha autoria:

Já que é de prever… ( À maneira do poema “À maneira de Jacques Prévert)

De tanto pathos caiu feito um patinho

Mário Quintana na cidade (para o Gigante do Sul, amigo cantor e compositor Marco Aurélio Vasconcelos)

Em cada quadro da cidade
Eis Mário Quintana:
O arroio que avança
À luz da primavera
A volta à infância, a prostituta e o suicida
Canta Mário Quintana nem mais nem menos que a vida

Imagem: Charge de Luis Fernando Verissimo, As Cobras

Sobre o autor

Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.

Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019),  Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.

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