A Rifa

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Por Cláudio Lovato Filho, compartilhado de Museu da Pelada

Ele estava sentado na beira da cama desde antes das 7 da manhã, segurando a camisa com ambas as mãos. Não havia sido fácil consegui-la, não mesmo. Foram várias tentativas, mais de um cartaz escrito com todo o capricho e muitos gritos para chamar a atenção de seu maior ídolo, o zagueiro capitão do time. O curioso é que ele conseguiu aquela camisa 4 tão desejada na situação menos provável.




Era um clássico disputado palmo a palmo, muita marcação, uma guerra, estádio quase lotado, e a vitória tinha que vir para garantir que o time continuaria entre os quatro primeiros na tabela e para manter o rival bem longe. Os dois gols do time saíram nos 10 minutos finais do tempo regulamentar e a torcida estava enlouquecida. O treinador fez duas substituições para parar o jogo e também para que o zagueiro capitão, o ídolo da camisa 4, recebesse a ovação mais que merecida.

Naquele dia, o menino e o pai ficaram mais distantes do túnel de acesso dos jogadores e o do banco de reservas do que costumavam ficar. Mas, no momento da substituição, o zagueiro estava na intermediária do campo de ataque e, obedecendo, a contragosto, a ordem do árbitro, deixou o gramado pelo caminho mais curto, o que o fez abandonar o gramado num ponto a considerável distância do reservado do time, mas no exato lugar onde, aos pulos na primeira fila de cadeiras, um menino gritava e exibia um cartaz escrito em letras maiúsculas pretas sobre fundo branco, com os quais – gritos e cartaz – pedia a camisa do capitão do time.

Ele foi em direção ao garoto, apontou em sua direção, para que todos em volta soubessem a quem era destinada a camiseta, e então a atirou. O menino não cabia em si quando sentiu nas mãos o prêmio que perseguia havia muito tempo. O pai, embasbacado e agradecido, só conseguiu fazer sinal de positivo para o jogador, com um sorriso que encampava todo o estádio.  

Agora o menino, que se chamava Rodrigo André e tinha 12 anos, estava ali, no silêncio do seu quarto, de manhã cedo, olhando para a camisa número 4 presenteada por seu maior ídolo.

O sábado ainda não tinha chegado às 8h30 da manhã quando os pais empurraram a porta entreaberta. Ficaram em silêncio por um tempo, lado a lado, olhando para o filho.

“Tudo certo?”, perguntou o pai. “É isso mesmo que você quer fazer?”

Ele olhou para os pais, então olhou mais uma vez para a camisa e respondeu:

“É, sim”. Disse isso e se levantou.

“Já volto”, falou. E se foi.

Ele chegou em frente à casa e respirou fundo. Abriu o portão, que não era alto, mas que chegava um pouco acima de seu peito. Depois, percorreu o caminho de pequenas pedras bancas até a porta e tocou a campainha. Passaram-se alguns instantes até que um homem com os cabelos desgrenhados e barba crescida, de bermuda, chinelo de dedo e camiseta regata abrisse a porta.

“Oi, Rodrigo… O Marco não está… Ele está no…”

“Eu sei, tio. Eu só vim entregar isto para o senhor”.

O homem olhou para a camisa nas mãos do menino.

“A camisa…? Mas por que você.. Não entendi, meu filho…”

“É para o senhor fazer uma rifa. Para comprar os remédios do Marco”.

O homem ficou em silêncio, olhando para o menino. Quando conseguiu, disse:

“Mas, rapaz… Essa camisa é muito importante para você… Eu não posso aceitar…”

Rodrigo André permaneceu ali, em silêncio, muito sério, sem saber o que dizer. Foi quando a mãe de seu amigo abriu um pouco mais a porta, passou à frente do marido, e disse:

“Muito obrigada, querido”.

Ela estendeu a mão e o menino lhe entregou a camisa.

“Nós te agradecemos de coração”, ela disse. “Isso que você está fazendo é muito especial para nós”. Então sorriu para ele e entrou.

“Tchau, tio”, ele disse para o homem, que continuava à sua frente, descabelado, barbudo e com cara de cansado.

Rodrigo André só sentiu o coração começar a desacelerar quando chegou em casa.

Foi para o quarto com a sensação de que havia feito exatamente o que queria ter feito.

Era um sentimento novo, que deixou sua semente plantada.

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Vivemos tempos em que as informações circulam a velocidades altíssimas, o tempo inteiro  – pelas redes sociais, pela imprensa e, também, pelo velho e bom boca a boca (que começa ali mesmo, no bairro, e tem o céu como limite). Assim foi que, alguns dias depois da entrega da camisa aos pais de seu amigo Marco, alguém tocou a campainha da casa de Rodrigo André. Ele estava no quarto quando o pai veio lhe chamar.

“Tem visita pra você”.

Quando ele chegou na sala e viu quem estava ali, não acreditou.

“Como é que a gente pode ajudar?”, disse o sujeito alto e magro que Rodrigo André tantas vezes viu no gramado, correndo, orientando os companheiros e disputando a bola com a camisa número 4 e a braçadeira de capitão. Pois ali estava ele, com outros quatro jogadores do time, em carne e osso, na sala da sua casa.

“É só dizer”, insistiu o zagueiro, e então, a partir disso, teve vez uma daquelas mágicas que só a generosidade e a empatia mais reais são capazes de produzir.   

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