Por Lourenço Paulillo, cronista e poeta octogenário
Dia de homenagear o Lô Borges, que continuará vivo no Clube da Esquina.
Dia de desejar que nossos ídolos caminhem bem em direção aos noventa.
É bem mais complicada
A vida após os oitenta
A pele esfola por nada
A gente já não esquenta
A memória às vezes trai
Nem a letra do Pai Nosso sai
Compreendo, não me iludo
Precisa remédio pra tudo
Comprimido, cápsula, pomada
Spray, xarope, uma baciada
Você tenta se reciclar
Mas não dá pra acompanhar
Tão rápida é a mudança
Que você simplesmente dança
Há esforço pra manter a inteligência normal
Mas te atropela a artificial
Não sei se na tela é meu irmão
Ou apenas uma ilusão
Em vez de mais cuidadoso
Você continua ansioso
Deveria diminuir o ritmo
Mas quer entender de algoritmo
Temos muita história pra contar
Mas ninguém tem paciência de escutar
Novos amigos vão te elogiar
Os antigos não mais te aguentar
No cinema fica difícil enxergar
Na primeira fila precisa sentar
Do calo tenho falado bastante
Repetir seria deselegante
Para os jovens, entediante
Você põe ovos pra cozer no fogão
Dali a pouco ouve uma explosão
A água secou…
O ovo estourou!
Se sai com o neto a passear
Ele reclama que você anda devagar
E ainda quer te ensinar
A rua atravessar
Você não consegue sentar pra meditar
Nem se contenta em caminhar
Quer correr…e certamente tropeçar
Quando o tombo é no mato
Você não se machuca de fato
Mas, numa calçada,
Toda esburacada,
A fiação no chão largada
É mais grave a pancada
Poderia os velhos vinis escutar
CDs, DVDs revisitar
Mas nenhum aparelho irá funcionar
Portanto
Melhor tudo isso esquecer
Deixar pra lá e…escrever!
Vamos falar a verdade
Sabendo levar
Sem reclamar
Ainda há muita oportunidade
De viver com felicidade
Basta saber selecionar
A quem se fazer acompanhar
Algumas coisas ignorar
Ou até se resignar
É preciso ter cuidado, paciência…
Pelo menos você tenta
Se quiser chegar aos noventa.







