Ações de Trump na América Latina acendem alerta para eleições brasileiras de 2026

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Sequestro de Maduro, tarifaço e postura das big techs ampliam preocupação com interferência estrangeira no pleito

Por Lorenzo Santiago, compartilhado de BdF




Foto: O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump | Crédito: Official White House Photo / Joyce N. Boghosian

postura ofensiva dos Estados Unidos na América Latina ao longo dos últimos 12 meses — marcada por ações como o tarifaço, a operação de sequestro de Nicolás Maduro e os desafios à soberania de Cuba — reacendeu o debate sobre a possibilidade de interferência de Washington no pleito brasileiro de 2026. A proximidade das grandes empresas de tecnologia ao governo Trump amplia essa preocupação.

O tarifaço foi o primeiro sinal de um ativismo mais direto. Ao anunciar, em 2025, sobretaxas sobre produtos brasileiros, Trump justificou a medida citando suposta “perseguição” ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). “A imposição foi corretamente interpretada pelo governo brasileiro como uma antecipação da atuação que o governo Trump deve ter na eleição brasileira”, afirma Roberto Goulart Menezes, professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB). “E, embora tenha havido negociações com o governo brasileiro, isso não significa que estamos livres, por exemplo, da interferência das big techs, que estão afiadíssimas ao governo Trump.”

Em dezembro de 2025, o governo Trump publicou um documento chamado Estratégia de Segurança Nacional, propondo a retomada da Doutrina Monroe na América Latina para “restaurar a preeminência estadunidense e proteger o acesso a regiões-chave em toda a região”. O texto anuncia um “Corolário Trump” à doutrina formulada pelo presidente James Monroe em 1823, pela qual qualquer intervenção europeia externa no “Hemisfério Ocidental” seria tratada como ameaça à segurança dos EUA.

A preocupação se intensificou após as ações militares estadunidenses. A operação de sequestro de Maduro e o ataque contra a Venezuela, em 3 de janeiro, expuseram uma postura abertamente ofensiva.

No dia 28, o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato da extrema direita à Presidência, pediu que os EUA apliquem “pressão” sobre as eleições brasileiras. “Em vez da administração Biden interferir em nossas eleições para instalar um socialista que odeia a América, aplicar pressão diplomática por eleições livres e justas baseadas em valores de origem americana — essa é uma boa mudança de política externa para a região”, disse em evento conservador no Texas.

Desinformação e financiamento

A principal frente de preocupação para 2026 é o financiamento e a difusão de desinformação por meio das redes sociais. A proposta de regulação dessas plataformas travou no Congresso e no Judiciário, e o Brasil chega ao pleito sem critérios definidos para o controle de conteúdo.

Para Menezes, a ausência de “filtros” e a falta de transparência das grandes plataformas abrem espaço para formas indiretas de influência. Uma outra forma de inferência, destaca, pode se dar pelo financiamento de campanhas nesses espaços. 

“O problema é quando isso se dá fora da lei, violando regras eleitorais no nosso país para favorecer determinado candidato ou grupo de candidatos”, disse. “Tanto o WhatsApp, quanto o Instagram, o Facebook, o próprio Google, o X, que pertence a Elon Musk, respondem a interesses de empresários que têm aspirações políticas.”

A presença de Musk no debate não é acidental. Em maio de 2025, o bilionário chamou a inelegibilidade de Bolsonaro de “tirania” e respondeu a uma fala da primeira-dama Janja afirmando que ela perderia a eleição. Em 2023, após ser acusado de articular um golpe na Bolívia para controlar a extração de lítio, Musk publicou na rede X: “Vamos dar golpe em quem quisermos. Lide com isso.”

Antes das eleições brasileiras, os EUA já terão demonstrado sua capacidade de interferência nas eleições colombianas, marcadas para maio. Trump tem atacado publicamente o presidente Gustavo Petro e o trata como um dos principais adversários na região.

Para Mara Telles, professora de Ciência Política e presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel), o papel da diplomacia brasileira será determinante no período. “Apesar de não apoiar explicitamente Flávio Bolsonaro e de não ter se manifestado sobre as eleições brasileiras, Trump é imprevisível e cercado de assessores radicais. O cenário depende da capacidade diplomática brasileira de manter lideranças e equilíbrio na América Latina diante de pressões externas”, disse.

Um dos pontos considerados cruciais neste processo, segundo Telles, são as eleições de meio de mandato dos Estados Unidos. O resultado do pleito, que será realizado em novembro, pode também influenciar na postura de Trump em relação ao Brasil. Ela entende que é possível que o presidente estadunidense inclusive não reconheça os resultados brasileiros. 

Sem novidade

A vigilância estadunidense sobre a política brasileira não é inédita na história recente. Em julho de 2015, o WikiLeaks publicou documentos que comprovaram a espionagem da Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA) contra a então presidenta Dilma Rousseff e outras 28 autoridades do governo brasileiro desde 2011. A NSA monitorou dez telefones diretamente ligados a Dilma, incluindo celulares de seu assistente pessoal, Anderson Dornelles, e de ministros como Antonio Palocci. As revelações ocorreram no momento em que Dilma retomava as relações com o governo Barack Obama, após Edward Snowden ter denunciado, em 2013, que a presidenta era alvo de vigilância estadunidense.

Em agosto de 2025, Mike Benz, ex-funcionário do Departamento de Estado dos EUA, levantou hipótese de ingerência estadunidense nas últimas eleições brasileiras. Em depoimento na Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, afirmou que 11 agências estadunidenses atuaram, com financiamento, nas eleições brasileiras de 2022. O objetivo declarado era apoiar parceiros no país.

Menezes aponta que o interesse estadunidense no Brasil vai além do pleito em si. Influenciar politicamente o país significa projetar poder sobre toda a América Latina, região em que os EUA perderam terreno para a China nas últimas duas décadas. “O Trump partiu de uma política externa que tem como um dos eixos o que ele chama de unificação do Ocidente. Ele busca reafirmar a América Latina como um espaço privilegiado dos EUA. A tendência é que ele busque um país-chave como o Brasil”, disse.

Editado por: Thaís Ferraz

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