Por José Carlos e Renata Lins (via Tiago Prata, Pratinha) e Zeca Ferreira
Por José Carlos
É loucura?
Prestem bem atenção.
Estamos “discutindo” machismo e misoginia que podem estar presentes em uma samba cantado em primeira pessoa por um sujeito que demorou três anos para descobrir que a mulher não era Vasco doente.
Tudo o mais que ele canta, inclusive a pérola final, digna de pára-choque de caminhão. comparando a paixão a um gol anulado, saiu dessa mesma cabeça. Que não é a cabeça de nenhum dos autores. Nem é a cabeça de Aldir, o letrista.
Aldir nasceu no Estácio, viveu na Tijuca, não em Ipanema ou Vila Madalena, e é evidente que ele foi cavalo de personagens reais ou imaginados. Não duvido de que a sua vivência com os “pingentes e balconistas” que aportavam (ainda aportam) no Hospital Psiquiátrico no qual trabalhou foram baixar em sambas como esse.
Difícil de cravar isso? Junte tudo isso com esta informação: quando Aldir largou o serviço público e abriu consultório, costumava conversar com alguns de seus pacientes na rua ou num bar.
Percebem porque, para pessoas como eu, soa bizarro, parece até um chiste frases como “esse samba envelheceu mal?”
Por Renata Lins
As pessoas falam, cheias de empáfia, de gente que não sabe ler, de gente emburrecida pelas redes sociais.
E no entanto um espelho cairia bem.
Teve o lamentável episódio de “Mulheres de Atenas”.
Meudeusdocéu. Era isso, eu até hoje sei esse disco do Chico inteiro, aprendi a cantar quando era criança; jamais me ocorreu que aquilo fosse algo diferente de uma história contada por Chico. Jamais imaginei que ele estava preconizando que os homens tratassem as mulheres como eram tratadas as “Mulheres de Atenas” da música. Jamais pensei que aquilo poderia não ser uma crítica.
Agora, de novo, com mais violência e mais características de fenômeno de massa. Gente que ouviu o galo cantar e não sabe aonde. Gente que nunca ouviu falar em João Bosco e Aldir Blanc. Gente que o considera apenas “um velho”. Gente que não sabe o que essa galera fez pela música brasileira e que se acha muito cheio de razão apenas por ser … mais jovem.
Jovem é apenas alguém que viveu menos, eu sempre disse.
Viveu menos, experimentou menos, pensou menos.
E, surpreendentemente (ou nem tanto), alguns velhos que deveriam saber melhor também aderem. Conveniência, covardia? Preguiça? Adesão pra não ser também alvo de escracho em rede social?
Vão se fuder.
Sério.
Vão aprender a escutar letra de música.
Vão ler ficção.
Esse negócio de só ler autoficção tá ficando grave, as pessoas realmente não diferenciam mais. E querem legislar sobre a história.
João Bosco e Aldir não merecem.
Por Zeca Ferreira
Esperei baixar um pouco a poeira pra botar a minha colher no assunto “de todos os tempos da última semana”, buscando um ângulo não partidário do debate, tentando entender a sua mecânica e porque ele se parece com tantos outros debates que tem se sucedido, com violência crescente e preocupante.
Na minha modestíssima opinião, existe uma armadilha aí sobre a qual é preciso tomar cuidado que é apontar o dedo para “os identitários” como se houvesse um grupo específico – e aí serão sempre as populações marginalizadas – como responsável por um estado de coisas que é transversal a todas as identidades, inclusive as majoritárias.
Por outro lado, me parece óbvio e ululante que temos um problema bem sério no tecido social, que cria certezas meio malucas e nos transforma a todos em paladinos da moral e com verdades inabaláveis lancadas do alto dos nossos banquinhos virtuais (coisa que faço aqui do meu próprio, aliás).
E parte desse problema mora nessa confusão crônica atual sobre o cronos. O eterno presente em que vivemos nessa máquina que troca o cérebro pela ponta do dedo tem nos tirado a capacidade do pensamento histórico, de pensar um tempo que não o hoje, uma cultura que não se paute pelo imediato, nos tira a capacidade de pensar as construções dentro de um tempo histórico imparável, nos tira a capacidade de dialogar com a arte como um pensamento/manifestação que atua no seu tempo, para, a partir dele, poder dialogar com os outros tempos todos. Assim como nos tira a capacidade de projetar futuro.
Em outras palavras, vivemos um tempo depressivo.







