E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, traz o seu personagem decano, o professor alfredo, e com ele, no seu indefectível fusca azul, vamos ao cinema, assistir “O Agente Secreto” e, depois, recordar outras fitas que não se embaralham na sua memória, como Tubarão. Mais uma crônica que é coisa de cinema.
Viu-me o filme! Foi uma grata surpresa, pensou com seus botões o professor Alfredo ao ver o “yellow beetle” no filme “O agente secreto”. De fato, para pessoas como ele, aquele desfilar de carros antigos é bem capaz de despertar antigas paixões. Tanto foi assim que Alfredo, sem imaginar motivos, tratou de apalpar o bolso da camisa em busca do maço de Hollywood, só para se dar conta segundos depois que havia uns bons quarenta anos que ele deixara da fumar. Foi a melhor decisão da vida dele.
Alfredo viu o filme do ano em um cinema de shopping. A tela é imensa; o som, Dolby stereo; as poltronas, confortáveis. Tudo muito bom. Ele não era contra os avanços da tecnologia, pelo contrário. Mas o filme fez com que ele sentisse falta dos cinemas de rua do seu tempo. Desde aqueles com poltronas de madeira até aqueles com poltronas de couro. E os saguões com seus candelabros imensos, espelhos de ponta a ponta, sofás, cinzeiros e tais? E as balas Boneco? E as balas Toffee? E o Dentine?
Será que a gente de vez em quando se pega no presente vendo o futuro em perspectiva? Que sensação estranha, tão estranha que ele guardou para si o que não cabia.
Ao chegar do filme já era noite. Alfredo fez questão de preparar um drinque para Matilde, sua companheira. Cuba Libre? Cinzano? Martini? Um scotch? Qualquer coisa para tuas mãos, Matilde, suaves como as uvas.
Uma coisa ele tinha em comum com o poeta Neruda: o amor maior por uma mulher chamada Matilde. Os dois ficaram conversando sobre como Wagner Moura está magnífico, como Tania Maria representa tão bem a cara do Brasil solidário mesmo sem ser atriz, como foi legal o Kleber colocar seu Alexandre como personagem da trama.
Beberam e comeram. Canapés. Sacanagem. Azeitonas pretas.
Quanto ao seu Alexandre, eles sabem que ele era um projetista com quem Kleber criou laços de amizade desde o documentário “Retratos Fantasmas”. Ficaram se perguntando como o Kleber conseguiu encontrar alguém tão parecido assim. Talvez o ator seja um pouquinho mais alto e só, disse Alfredo. Que sujeito correto é o seu Alexandre, disse Matilde.
E a perna cabeluda? Fizeram a associação entre perna e pênis, acharam tudo curiosamente estranho. Matilde se riu quando se lembrou do medo que sentia ao ver o filme do tubarão. Tem alguma na trilha sonora, disse ela. Sem trilha sonora, vira comédia. Os efeitos especiais daquela época, não sei se assustariam a nossa época tão realista, tão cercada de violência.
Alfredo se lembrou que, na ocasião do filme Tubarão, a cada susto Matilde ficava mais próxima, apertava-lhe o braço. Não seria mentira se Alfredo dissesse que ela ficava mais bonita ainda quando assustada. E assim se passaram alguns dias.
Como já se aproximava a época do Natal, os netinhos, com a participação direta de Matilde, fizeram uma surpresa. Compraram um fusquinha amarelo, desses de brinquedo, e o adesivaram com a logomarca do filme. Alfredo ficou feliz que nem criança quando ganha o presente certo sem saber o que iria ganhar. Quase que voltou a acreditar em Papai Noel.
Se Alfredo pudesse, se Papai Noel existisse, ele pediria para voltar no tempo em que assistiu mais a mãe o filme “Marcelino, Pão e Vinho”, no Cine Baronesa, na Praça Seca, aquele mesmo que fechou, que virou igreja. Todos eles viraram igreja, não só em Recife, aqui no Rio, pensou Alfredo. O que fizeram com os dez, doze cinemas da Tijuca senão os transformarem em igreja.
Não era o filme, um tanto carola, franquista, que o atraía. Ele queria ouvir de novo a voz daquela mulher o chamando para ir ao cinema numa tarde de dia da semana, simplesmente porque lhe deu na veneta. Ele queria ouvir mais uma vez a voz da mãe a lhe dizer que, depois da sessão, ela lhe pagaria um gelado. Ou um Eskibon, se assim ele preferisse. E voltariam ambos de fusca azul, o velho fusca azul, o inegociável fusca azul que até hoje está na família.
Alfredo ainda não sabe, é surpresa, mas o fusquinha amarelo era apenas um dos presentes de Natal. Ele haverá de ganhar uma camisa da Chico Rei com a estampa de Pepe Mujica ao lado do famoso fusquinha azul-celeste das bandas do Uruguai. Na legenda, lê-se: “No soy pobre, soy sobrio”.
Essa Matilde não toma jeito.
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.







