Por René Ruschel, jornalista
Américo tinha um jeito raro de existir pois só sabia incluir. Incluir pessoas, cenas, gestos mínimos, o que quase passa despercebido. Onde parecia não haver nada, ele encontrava sentido na fotografia.
Conheci Américo Vermelho no Rio de Janeiro. Foi em um desses encontros que parecem acontecer antes da gente chegar.
Fotógrafo, amigo do meu amigo e irmão Washington, moravam no mesmo edifício, ali na praça São Salvador, em Laranjeiras.
Era meu conterrâneo, paranaense. Nascido em Bom Sucesso, cidade pequena como um quintal de infância, ele nunca saiu totalmente de lá.
Voltava sempre ao ninho para fotografar a própria história, como quem confirma que a memória ainda respira.
Américo tinha um jeito raro de existir pois só sabia incluir. Incluir pessoas, cenas, gestos mínimos, o que quase passa despercebido.
Onde parecia não haver nada, ele encontrava sentido na fotografia.
Onde o mundo corria apressado, ele parava e olhava.
Bem-humorado, com uma máquina sempre à mão, publicava fotos todos os dias como quem dizia sem alarde: estou aqui, estou vendo.
Foi assim que a notícia chegou. Ontem, domingo, o telefone tocou diferente.
Do outro lado, o Washington, chorando, conseguiu apenas dizer: o Américo morreu.
Algumas frases não pedem resposta. Caem na gente como um silêncio pesado, desses que demoram a se acomodar.
Américo via o mundo por suas lentes. Via de verdade. Tinha o olhar aguçado de quem faz muito bem aquilo que ama. Um olhar doce, atento, generoso.
Nas minhas andanças, virou pensamento automático todas as vezes que deparava com alguma imagem diferente: “o Américo iria fotografar”.
A esquina torta, a cadeira esquecida, a sombra que se alonga no fim da tarde.
Ele enxergava com olhos de artista e, sem perceber, nos ensinava a enxergar também.
Américo foi embora dormindo, do jeito mais manso. Deixou filhos, uma legião de amigos e muitas fotografias, essas que agora parecem respirar sozinhas.
Sua última imagem publicada foi no sábado. Às vésperas de partir. Cadeiras vazias à beira do mar, alinhadas como se estivessem olhando o mundo.
Não havia gente, mas havia presença. Era ele ali, na delicadeza da ausência.
Américo enxergou o mundo como poucos. E agora, cada vez que algo simples insiste em ser bonito, a saudade aparece.
Porque ele foi, mas ficou o seu olhar.







