Por Washington Luiz de Araújo, jornalista
Os bares da vida estão emudecidos neste domingo, 08 de fevereiro de 2026. Pediu a saideira o grande timoneiro da alegria, da amizade. Partiu meu amigo de copo e alma, Américo Vermelho.
Naquelas mesas sempre faltará ele, fisicamente, mas eternamente será lembrado como aquele que nunca teve um inimigo e que bebeu e viveu pelo bem.
Américo, ontem lembrei de você aqui na Praia de São Roque. Esteve o Bloco Pérola da Guanabara e eu pensei: está faltando Capitão aqui. Fizemos aquele camarote “antimijo”. Aquela mesa em que você participou, rindo quando os foliões chegavam no muro para fazer xixi e encontravam a gente ali bebendo. E hoje, de manhã, recebo da Cristina Vermelho, sua irmã querida, a notícia que eu jamais pensei em ouvir. A sua alegria, disposição pela vida, Américo o fazia imortal. Pelo menos eu, ingenuamente, pensava assim.
Cara, só você para me fazer beber neste domingo chuvoso e de ressaca. Ressaca pelo que bebi ontem, ressaca por esta vida na qual vários amigos e amigas estão pedindo a conta definitiva. Bebo por você e com você no pensamento, grande amigo e irmão.
Para quem não sabe um “causo” do qual o Américo gostava muito de ouvir. O Américo me foi apresentado pelo Wellington, jornalista que contratava seus serviços de excelente fotógrafo na Previ, fundo de pensão do Banco do Brasil. Eu cheguei de São Paulo em 2003 para trabalhar na Petros, fundo de pensão dos trabalhadores da Petrobras.
Foi amizade à primeira vista ou no primeiro gole. Viramos amigos de infância. Um dia, ele me viu triste, cabisbaixo e perguntou o que estava acontecendo. Eu, já há uns três meses no Rio, não estava feliz com alguma coisa, mas não sabia o motivo. Quando o Américo me perguntou respondi que estava com dois problemas que me vieram à cabeça naquele instante: queria um boteco para chamar de meu, como tinha em São Paulo, o Bar da Ieda e da dona Delfina; e a outra questão era que não estava encontrando um lugar ideal para morar. “A primeira questão, resolvo agora”, disse o Américo. Ele me levou até a Praça São Salvador, na adega que tinha cerveja geladíssima em garrafa de 600 ml (época em que proliferava long neck).
Adorei o jeitão “pé sujo” do boteco e disse ao meu cicerone etílico: “Américo, quero morar aqui perto, para vir a este boteco todos os dias”. Ele balançou a cabeça sorrindo e me disse que morava no Edifício Pres. Vargas naquela mesma calçada há anos e que era muito difícil uma vaga naquele prédio e nas redondezas. Insisti, pedindo para ele ficar de olho para mim e, lógico, pedimos mais uma.
Três dias depois, estava a trabalho em Salvador quando ele me ligou: “Ô rabudo, apareceu um apartamento para alugar no quarto andar de onde moro, no décimo. Reservei para você”.
Resumindo morei 14 anos meio no prédio a trinta metros do boteco Adega da Praça e de tantos outros que foram surgindo por ali.
Era um tal de um ligar para o outro a noitinha com a senha “vamos descer?” que não tinha tamanho. Com o Américo, outros muitos amigos começaram a frequentar a Praça, uma verdadeira “Beerlândia”.
O Américo mudou antes do Pres. Vargas, fiquei até 2017 quando me mudei para Paquetá. Nesta Ilha, ele vinha sempre nos visitar e, lógico, beber e beber e beber. Pensava até em se mudar para aqui, não deu tempo.
Américo, se você deixou um legado, é o da alegria, da amizade sincera, líquida e certa. Meu amigo, Saint Exupery escreveu: “Aqueles que passam por nós não vão sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”.
Você jamais passará, meu amigo, sempre estará comigo e com aqueles com quem você conviveu e perdão por mais um trocadilho, os quais você ria quando eu os cometia: você sempre estará com aqueles com quem você conviveu e “conbebeu”.
Até sempre, Capitão Américo!!!!!







