Para especialista, também estão em jogo a fervura com o Brics e a exploração das terras raras
Por Adele Robichez e Lucas Krupacz, compartilhado de BdF
Foto: Manifestantes contrários ao pedido de bolsonaristas de anistia geral e irrestrita - Roberto Parizotti
O cientista político Rudá Ricci, presidente do Instituto Cultiva, avalia que a chamada “caminhada pela anistia” convocada por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em Brasília tem um caráter mais simbólico do que efetivo. “Pode fazer o que quiser, não vai passar anistia de jeito nenhum. Isso daí já está selado, os bolsonaristas sabem”, afirmou, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato. Segundo ele, o objetivo do ato é manter mobilizada uma base radicalizada que representa “entre 10% e 15% do eleitorado brasileiro, com valores extremistas, racistas, preconceituosos”.
Ricci explicou ainda que o governo Lula (PT) enxerga a PEC da Dosimetria como uma forma de reduzir tensões e isolar politicamente Bolsonaro e seus aliados mais próximos. “Lula gostaria de abaixar a pena ou algum tipo próximo de anistia àqueles que estiveram em 8 de janeiro nas ruas, chamados cada vez mais de ‘bagrinhos’, inclusive por ministros do Supremo Tribunal Federal. Ele gostaria de isolar o Jair Bolsonaro e os grandes nomes do bolsonarismo, dizendo: vocês não querem defender a base de vocês?”, analisou.
Para o analista, a proposta tem problemas de credibilidade por causa da condução do relator, o deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP). “Logo que ele anuncia uma proposta que iria mediar o conflito e pacificar o país, ele se reúne com Aécio Neves e o [Michel] Temer em São Paulo. Mais indicativo de que ele está de um lado e não está do outro é impossível”, criticou.
Ricci resumiu que a “anistia geral não existe, não passa no Senado e o STF já avisou que derruba”, e concluiu que o governo tenta adiar o debate para usar o tema de forma estratégica em 2026.
Lula e Trump: “Teatro da negociação”
Para o cientista político, a recente conversa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump faz parte de uma estratégia de encenação e pressão política. Segundo ele, o republicano tenta reposicionar o Brasil na esfera de influência dos Estados Unidos, reduzindo a aproximação com a China e com o bloco dos Brics. “O que está em jogo para Trump é o afastamento do Brasil da China e uma diminuição da fervura em relação aos Brics”, afirmou, acrescentando que a negociação pode envolver também interesses na exploração de terras raras.
Para Ricci, o encontro se insere em um “teatro de negociação”, no qual Trump e o senador Marco Rubio cumprem papéis complementares. “Rubio é o policial mau e Trump assume o papel de policial bonzinho”, avaliou. O cientista político observa que Lula reage com cautela, enquanto o ex-presidente norte-americano testa os limites do diálogo: “Trump bateu um monte, colocou ali do lado um policial mauzinho e ele agora vai tentar negociar e ver até onde o Lula vai. É isso que vai ocorrer.”
O analista relembrou ainda o estilo agressivo de Trump nas disputas políticas, baseado em blefes e desestabilização do adversário. “A arte da negociação é você colocar todo o seu tanque de guerra na cara do teu adversário e blefar ao máximo, deixando o outro lado completamente atordoado”, explicou. Para o analista, o bolsonarismo está isolado e sem qualquer papel nas tratativas. “O [deputado] Eduardo Bolsonaro (PL-SP) não tem mais nenhuma influência sobre o processo de negociação”, concluiu.







