Antes que eu me esqueça (minha mãe e eu no Shopping)

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E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, aborda aqui um assunto muito sério, o mal de Alzheimer.

“Mas Paulo já se foi, mãe”, penso comigo sem interrompê-la. Penso mas nada digo, pois não há por que se ater a fatos quando o objetivo é estabelecer uma conversa com uma pessoa com Alzheimer. Deixei-a falar sem interrupções mesmo sabendo que o tio Paulo já se fora havia uns bons dois anos.




De quando em quando pergunto a ela coisas do tipo: “E Paulo? E Cícero? E Lica? E Josué?” Ela costuma responder que todos se foram entre uma pausa e outra de tristeza. Na verdade, ela é a última de sua gente, era para ser a detentora de toda uma memória de pequenas delicadas coisas. Onde estão?

Os filhos vão se acostumando a não importuná-la demais, a ter paciência, o que é uma forma de amor. Ontem eu a penteei. Eu sei fazer, eu treino com a minha filha para competições de cabelo maluco. Geralmente este pentear a mãe é uma atividade que meu irmão faz, pois é ele que está morando com ela. E só o faz depois de muita negociação. Imagino o quanto ele esteja sobrecarregado. Algumas pessoas, entretanto, tiram força de lugares inimagináveis, ficando mais fortes quanto mais a situação fica difícil.

Os cabelos dela estão mais compridos do que o habitual. Estão bonitos, apesar de carecerem de retoques de pintura aqui e ali. Por um momento, lá estava eu em uma situação que parece ser de sinais trocados ou, vá lá, de uma retribuição. O filho cuidando da mãe, que tanto dele cuidou.

Lá ia eu a emudecer os dedos no potinho com água, a passar creme, depois a escova, depois o pente. Se um fio fosse puxado com força ela exclamaria um “Ai” capaz de rachar as vidraças e os sinos das igrejas.

Não posso deixar de pensar que eu não sou o único a enfrentar tal realidade. No momento em que escrevo sei que há várias famílias em situações semelhantes, talvez com mais recursos que a gente, talvez com menos. O meu amigo Mauro Célio, por exemplo, cuidou de sua mãe com Alzheimer até o fim. Talvez venha daí uma certa delicadeza que Maurinho tem no trato com as pessoas.

A medicina evoluiu bastante. O remédio à base de canabidiol tem efeito surpreendente, o de abrir o apetite verbal. Com o uso de tal medicação, minha mãe conversa mais. Mesmo que esqueça os nomes das pessoas e das coisas, ela parece estar participando ativamente das conversas. E isso é uma maravilha. Bendigo até os rompantes em que ela nos manda apagar as luzes da sala para economizar energia, porque isto era o que ela fazia quando não tinha Alzheimer.

Os momentos de silêncios longos é que são preocupantes. Já vi a ficção descrevê-los como uma espécie de viagem ao passado, um sonhar acordado talvez, Alice caindo no buraco. Mas eu não sei até que ponto tal descrição condiz com a realidade.

Há também algo estranho em minha conduta atualmente. Algo que eu traduzirei como “E se…” por falta de expressão melhor. Bem, para ilustrar peço que você imagine a seguinte situação: eu esqueci um nome, um título de um livro, o trecho de uma canção, a chave de casa, a carteira, o dia de uma prova, entre outras possibilidades. Seria isso um sinal de esquecimento saudável, algo que Freud explica ou um indício de algo mais grave?

Tenho me forçado a lembrar das coisas, a frequentá-las, a refletir sobre elas sempre que possível. Por vezes é mexer em casa de marimbondos, é se revelar demais, e de perceber que tem muita gente que não está aí para o que você tem passado. Mas acho que tenho que correr o risco, porque tem gente que se preocupa com a gente.

Por isso, quando minha mãe me disse que meu tio Paulo estava vivo eu disse a ela em seguida que iria escrever uma carta para ele, que gostaria muito de saber como ele estava. A carta seria escrita à mão, enviada pelos Correios, como manda o figurino. E ele, se vivo estivesse, escreveria uma resposta com sua letra caprichada, que na época deles, as pessoas tinham caligrafia impecável, não importando o grau de instrução.

Mas ela não sorriu nem nada. Apenas me disse que estava cansada e que queria voltar para casa. E foi o que fizemos.

Sobre o autor

Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.

Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019),  Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.

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