Aprendiz de Feiticeiro

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Por René Ruschel, jornalista

É inaceitável que, diante de uma tragédia, um governador trate a morte com ironia.




Em meio à crise do metanol que já matou pelo menos duas pessoas e deixou dezenas intoxicadas em São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas, Republicanos, achou espaço para fazer piada.

Afirmou, diante das câmeras e de secretários, que “vai se preocupar no dia em que começarem a falsificar Coca-Cola”. Sorriu. Olhou de lado, em busca de cumplicidade. Não encontrou.

Os secretários da Saúde e da Justiça, Eleuses Paiva e Fábio Prieto, permaneceram imóveis, constrangidos.

A cena é simbólica. Mostra um governante que, em vez de se indignar com o veneno que corre nas garrafas e mata os mais pobres prefere a zombaria.

É impossível não se lembrar de Jair Messias que, em plena pandemia, riu da dor de quem agonizava por falta de ar, chamou a Covid de “gripezinha” e debochou das vítimas.

Tarcísio aprendeu bem o tom, a frieza, o desprezo disfarçado de ironia. É a criatura repetindo o gesto do criador. O governador quis parecer espirituoso, mas revelou apenas insensibilidade.

Ao insinuar que “se as pessoas bebessem refrigerante, nada disso aconteceria”, tentou se eximir de responsabilidade. Como se as vítimas fossem culpadas por escolher uma bebida errada.

Como se a morte delas fosse uma lição moral. Esse tipo de raciocínio, além de cruel, é politicamente oportunista. Agrada ao conservadorismo religioso que condena o álcool, ao mesmo tempo em que livra o governo da obrigação de agir.

Mas um governador não tem o direito de escolher quem merece ser salvo. Não pode dividir a população entre “cidadãos de bem” e “pecadores”. Foi eleito para proteger todos os paulistas, sem exceção.

Aquele que toma uísque, vodca cara e quem bebe cachaça de boteco. A responsabilidade de fiscalizar, investigar e punir quem envenena produtos é dele. Não cabe ironizar. Cabe agir.

Por trás do sorriso, há cálculo eleitoral. Tarcísio tenta se manter fiel à cartilha bolsonarista do deboche, da negação e da crueldade travestida de coragem.

Quer mostrar que é “autêntico”, que não se curva ao “politicamente correto”. Mas o que ele demonstra, na verdade, é ausência de empatia.

O líder de verdade se indigna diante da morte, mas o oportunista, diante da câmera faz piada.

O episódio do metanol poderia ser um momento de grandeza. Poderia ser a hora de anunciar medidas duras contra falsificadores, de reforçar a vigilância sanitária, de consolar famílias.

Mas Tarcísio preferiu o espetáculo. E quando a política vira encenação, o sofrimento vira cenário.

A vida não é uma piada. E o cargo de governador não é um palanque para medir ironias.

O Estado de São Paulo precisa de quem governe com responsabilidade, não de quem brinque de imitar o ex-capitão que tratava tragédias como memes.

A história mostra que aprendizes de feiticeiro quase sempre acabam vítimas do próprio feitiço.

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