Ao permitir jornadas de até 12 horas diárias sem horas extras, Milei avança sobre conquistas históricas dos trabalhadores argentinos
Por Simão Zygband, compartilhado de Construir Resistência
A reforma trabalhista promovida pelo direitista Javier Milei não é apenas uma mudança técnica na legislação.
É um divisor de águas social.
Ao permitir jornadas que podem chegar a 12 horas diárias com mecanismos que flexibilizam o pagamento de horas extras, o governo argentino avança sobre conquistas históricas dos trabalhadores argentinos.
Para Milei, um governante cínico e sádico como a maioria dos extremistas de direita, trata-se de “modernização”.
Os trabalhadores argentinos sabem que a retirada de direitos trará mais fome e subempregos, facilitando a vida dos gananciosos empresários, sobretudo os banqueiros, que estão por trás da “reforma”.
Como resposta, a Confederação Geral do Trabalho (CGT) convocou uma greve geral que paralisou transportes, bancos, escolas e parte significativa da atividade econômica do país.
Não foi um protesto isolado. Foi um grito coletivo contra a institucionalização da precarização.
O governo argumenta que a flexibilização reduzirá a informalidade e atrairá investimentos.
Mas a experiência latino-americana mostra que desregulamentação ampla raramente resulta em prosperidade.
O que costuma crescer é a insegurança do trabalhador. E os efeitos já começam a ultrapassar as fronteiras argentinas.
Há relatos crescentes de argentinos buscando oportunidades de trabalho no Brasil, especialmente nas regiões de fronteira.
Diante da queda do poder de compra e da insegurança nas novas regras trabalhistas, muitos atravessam a fronteira em busca de melhores condições existentes no país governado por Lula.
Ainda que não hajam números oficiais, o movimento é perceptível em cidades fronteiriças e nas redes comunitárias.
Quando trabalhadores deixam seu país para buscar condições menos instáveis em outro, não estamos falando de “ajuste econômico”. Estamos falando de desestruturação social.
O espelho brasileiro
O Brasil não está isolado desse debate. As ideias defendidas por Milei dialogam diretamente com a agenda liberal radical promovida por Jair Bolsonaro e por setores do bolsonarismo.
A defesa da flexibilização ampla, da redução do papel regulador do Estado e da diminuição de garantias trabalhistas compõe um mesmo campo ideológico.
No horizonte das eleições de 2026, o nome de Flávio Bolsonaro surge como possível representante do clã na disputa presidencial.
Se essa candidatura se confirmar, o tema da legislação trabalhista certamente estará no centro do debate nacional.
A Argentina, hoje, funciona como um laboratório. O que está em jogo não é apenas um pacote legislativo. É um modelo de sociedade.
Cabe aos brasileiros observar com atenção e em 2026 decidir se pretendem avançar com o presidente Lula ou voltar atrás com projetos que significarão o atraso.
Simão Zygband é jornalista e analista político, editor do site Construir Resistência







