Por Arcírio Gouvêa Neto, jornalista
Em dois dias, a mulher foi ultrajada publicamente por um jogador de futebol e outra, mãe de três filhos, assassinada brutalmente, fatos ocorridos somente em São Paulo. Sem contar o que acontece diariamente, entre quatro paredes, Brasil a fora. Esse trágico cenário, que já era grave, depois da ascensão ao poder do monstro que nos desgovernou por quatro anos, aumentou drasticamente. Esses assassinos se viram representados por um ser que em todas as oportunidades menosprezava a mulher.
Dizia que ela era inferior ao homem e por isso mesmo deveria ganhar menos, que até a própria filha havia nascido de uma fraquejada e outras situações tão vexatórias que recuso-me de dizê-las aqui. Há uns 15 anos, entrevistei uma juíza que já previa esse quadro catastrófico, diante das estatísticas de feminícidios da época. Alertava que se não fossem aplicadas leis mais severas as mulheres iriam sofrer graves consequências, não deu outra.
Esse cenário vem desde o Brasil Colônia quando a mulher era tratada como ser de segunda classe. Lembro-me de um livro que li sobre os costumes do século 18 no Brasil onde, em uma carta escrita da Europa dirigida ao capataz de sua fazenda, o senhor de engenho dizia: “Não esqueça de alimentar os porcos e as cabras, o que sobrar dê à mulher”. Basta dizer que a mulher só obteve o direito ao voto nesse país em 1932. No início do século passado, era tradição pelo Natal as esposas se ajoelharem diante do marido e pedir perdão pelos erros cometidos durante o ano.
Esse quadro subserviente foi trazido para cá pelos portugueses e refletia o tratamento recebido pela mulher desde a Europa Medieval, onde ela não tinha nenhum direito, nem mesmo de sentir emoções e ser feliz, e era considerada um ser inferior, pária da sociedade. Em última análise, longe de ser um ato de coragem, esses assassinatos brutais somente refletem a personalidade frágil, insegura, instável emocionalmente e forte sentimento de inferioridade perante à mulher de seus executores.







