Beija-Flor com rock, amendoim e o menino sacolejante

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E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, balança ao sabor do rock. Balança menos do que o garoto mencionado pelo cronista. Ah, na foto feita pela Layla, companheira do César, não seria o articulista atrás do carro com um cigarro a bailar em sua boca?

Beija-Flor, 23 de novembro de 2025.




Caros leitores:
Eu moro na Beija-Flor, Baixada Fluminense. Toda sexta-feira tem show de rock por aqui com a banda Merlim. Um show de rock não é apenas uma oportunidade de lucro para o bar que contrata a banda. Você acaba conhecendo uma Beija-Flor que gosta de rock, e não somente de desfile da Campeã do Carnaval. Somos poucos, somos legais.


Em qualquer lugar que se preze, na economia da noite, há os vendedores de peixes e os vendedores de limões. Há também os que vendem flores, bolos, amendoins em cones de papel, balas de eucalipto, balas Fini etc. O texto abaixo é uma homenagem a essas pessoas.


E eu aqui também estou a vender o meu peixe, a passar de mesa em mesa, ou melhor, de tela em tela, oferecendo as minhas palavras que registram, feito uma foto, rabiscos, garatujas, o tempo.
Vamos ao texto!

Poética do menino pulando
A noite estava boa: nem quente nem fria. A casa não estava tão cheia para o som da banda Merlim, provavelmente devido ao fato de que era uma sexta de feriadão.
Desta vez, ficamos em uma mesa bem perto do palco.


Então veio ele, o menino. A senhorinha eu já conhecia. Ela vem vender seu amendoim de bar em bar nas bandas da Beija-Flor. Ela aparece depois do sujeito muito simpático de quem sempre compro amendoins. Sabe como é que é, ele passa de mesa em mesa deixando uma amostra. Depois, ele passa vendendo seu peixe, isto é, seu amendoim com seus tantos sabores. A gente compra.


Quando a senhorinha passa, já estou “borracho”, mais disposto a beber do que propriamente a comprar cones de amendoim. Sei lá, fico introspectivo. Hic!


Desta vez, ela trazia um menino a tiracolo. Vixe, um menino numa hora daquelas. Um pouquinho depois de meia-noite. Sei que era depois da meia-noite porque ela passou no segundo tempo do show, depois do intervalo.


O que ele estava fazendo ali, perguntei aos meus botões. Pensei ruim, maldosamente, que a função do menino era despertar a minha compaixão, era fazer com que eu coçasse o bolso em busca de moedas, eu devo ter uns quatro reais em moedas, por que não teria? O menino está na escola? Estuda, rapaz, estuda. Obrigado, Deus lhe pague.


É verdade o que disse Maria Betânia sobre a cerveja: é uma bebida que nos deixa alegrinhos. Eu tomo é alegria, não diz um verso de “Poética”, poemaço de Manuel Bandeira?

A senhora passou pela gente com o menino a tiracolo. E os dois foram se acomodar à direita do palco lá no fundo, na calçada quase perto da rua. Estávamos frente a frente, apesar da distância.


O fato é que o menino, ao ouvir o som da banda, começou a pular de emoção. Pulava, pulava, pulava, em reação à música que ouvia. Música tem disso, não é mesmo? E a espontaneidade da criança é insuperável. A música é dona do corpo. Qual era a música?
Num ímpeto maluco, saquei o celular e comecei a tirar fotos. Acho que a Layla também deve ter me ajudado na empreitada. Cliques e cliques.


Tudo isso superou os ocorridos dessa noite que poderiam me levar a escrever. Nem os meninos de preto com camisa de rock nem os novos punks nem o menino super extrovertido que foi pra frente do palco bater cabeça nem a menina com o cigarro na mão que parece com a menina de quem meu filho gosta. Nem o velho do rock nem a mulher que vai ao show toda paramentada, quase como se fosse inglesa, sósia do Boy George. Nem o casal que levou uma amiga a tiracolo.

Pega a visão: enquanto a amiga se divertia como se não houvesse amanhã a pobre da moça confessava à Layla que aquela onda não era a dela. Acho que ela curtia era uma sofrência…


De tudo que vi, guardei para mim a figura do menino. Escrevo este texto para não me esquecer: no próximo show da banda Merlim, comprar o amendoim da velha senhora. Perguntar pelo menino. Será que ele está estudando? Ele veio ou não veio? Será? Será?

Sobre o autor

Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.

Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019),  Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.

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