Reportagem desta terça-feira (29) abordou os desafios e contradições enfrentados na preparação para sediar a COP30.
Por Fernando Assunção, compartilhado de Alma Preta
Foto: Profissão Repórter faz edição sobre COP30 nesta terça-feira (29) — Reprodução/TV Globo
Após a exibição da reportagem do Profissão Repórter na última terça-feira (29), que abordou os desafios e contradições enfrentados por Belém do Pará na preparação para sediar a COP30, a capital paraense tornou-se alvo de uma onda de críticas xenofóbicas nas redes sociais, principalmente no X (antigo Twitter) e no Instagram.
O programa jornalístico da TV Globo tratou de pontos delicados sobre a preparação da cidade para o evento climático mais importante do planeta, que está agendada para acontecer no início de novembro.
A equipe de Caco Barcellos mostrou os contrastes entre os investimentos bilionários nas obras de infraestrutura e a realidade de comunidades periféricas e tradicionais, muitas delas ainda sem acesso a serviços básicos como saneamento, energia elétrica e moradia digna.
Também foram abordadas a crise de hospedagem, a especulação imobiliária e a expectativa de comerciantes locais para atender os visitantes internacionais.
Mas, em vez de participar de um debate construtivo, alguns usuários de redes sociais preferiram postar comentários discriminatórios contra a região Norte do país.
Entre os ataques compartilhados, estão frases como a do usuário @santoskazarv. “A paraense falando sem vergonha nenhuma em rede nacional que aluga o quarto por R$ 350 e que na COP será R$ 6 mil. Essa galera do Pará está completamente fora da casinha. Nunca mais vai ter evento nenhum nessa região”.

“Meu Deus, que coisa pavorosa essa reportagem do Profissão Repórter sobre a COP30 em Belém. Como pode um lugar ser tão podre? O Brasil tem tesão em mostrar seus piores lados pro mundo”, comentou @bardobardolino.
“Gente, tem povo mais micoso que bolsonarista: o povo do Pará”, publicou @annnaduarte. Ela também escreveu: “Gente, que povo esquisito, faz da COP30 um evento extraterrestre. Patéticos”.
Preconceito escancarado
As postagens refletem uma visão estereotipada e discriminatória sobre o Norte do Brasil, que historicamente enfrenta apagamento e invisibilidade política. Para Ana Toni, CEO da COP30, as críticas à escolha de Belém como sede do evento muitas vezes revelam preconceito enraizado.
“Sim, tem preconceito. Nacional e internacionalmente. É lamentável ver a falta de um debate mais profundo sobre as relações de poder que cercam essa COP”, declarou Toni durante o Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, em 11 de julho.
A executiva criticou o foco excessivo da cobertura midiática de modo geral na logística e nos problemas de hospedagem, deixando de lado os grandes temas que a Conferência do Clima da ONU pretende abordar.
“É muito triste ver que a cobertura tem sido só sobre logística. Claro que há temas importantes ali, como os preços de acomodação, mas a imprensa não está conseguindo mostrar a real dimensão política e ambiental do que está em jogo na COP30”, avalia Toni.

Ela reconhece que existem desafios estruturais, mas garante que a cidade terá capacidade de receber os visitantes.
“Belém realiza o Círio de Nazaré todos os anos e acomoda milhões de pessoas. A COP vai exigir um tipo diferente de hospedagem, é verdade, mas há um esforço para atender a essa demanda. Estão sendo construídos e reformados hotéis, casas estão sendo adaptadas, e plataformas de hospedagem alternativas estão prestes a ser lançadas”, pondera a CEO da COP30.
Panorama da hospedagem em Belém
Com previsão de receber cerca de 50 mil visitantes, a capital paraense possui apenas 24 mil leitos na Região Metropolitana, segundo o sindicato do setor de hospedagem. Para suprir o déficit, os governos estadual e federal estão investindo na adaptação e reformas de escolas e prédios históricos, instalação de hotéis em navios de cruzeiro e parcerias.
Mas o tema é alvo de críticas internacionais, tanto pelos altos preços quanto pela falta de transparência sobre as opções disponíveis.
No mês passado, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), vinculada ao Ministério da Justiça, notificou 24 hotéis e o sindicato, exigindo esclarecimentos sobre os valores cobrados durante o evento. O objetivo é investigar possível prática abusiva na cobrança das tarifas.
Durante a Conferência de Bonn, uma reunião preparatória da COP30 realizada na Alemanha, representantes de delegações alertaram a comitiva brasileira sobre tarifas até cinco vezes superiores ao teto de reembolso diário da ONU, que é de US$ 145.
Além disso, há relatos de moradores que vivem de aluguel na própria cidade de que os proprietários estão desocupando os imóveis para alugá-los a preços elevados durante o evento.
Em resposta à crise, o governo federal anunciou, em maio deste ano, uma plataforma oficial de hospedagem para a COP30, buscando coibir práticas abusivas por meio de um acordo com a rede hoteleira local. Mas o serviço ainda não está disponível.
Cobertura negligencia grandes temas, diz jornalista
A visão de Ana Toni é compartilhada pelo jornalista Jorge Bentes, diretor da Plataforma 091, um hub criado para conectar soluções locais à demanda da COP. Para ele, a cobertura da imprensa não apenas negligencia os grandes temas da conferência, como também reforça estereótipos negativos da região.
Bentes foi entrevistado antes da exibição do programa da TV Globo desta terça-feira.
“Mostraram um apartamento de R$ 2 milhões por 15 dias, um quarto simples de pensão, e citaram uma agência local com um pacote de R$ 25 milhões. Isso afasta investidores, parceiros e o público. É um desserviço”, critica.
Ele afirma que os valores exorbitantes divulgados no início foram fruto de desinformação e especulação, mas que não representam mais a realidade atual. “Ninguém pagou esses valores. Foram bolhas criadas por ganância e falta de orientação”.
Segundo Bentes, a Plataforma 091 tem atuado para organizar o setor de hospitalidade de forma ética, oferecendo desde hotéis reformados até casas adaptadas para delegações.
Os preços, diz ele, estão dentro da média praticada em outras cidades que já sediaram a COP, variando de US$ 600 a US$ 1,5 mil por diária, dependendo da estrutura. Mas o dano causado pela desinformação já trouxe consequências reais.
“Empresas cancelaram contratos, eventos foram suspensos, empregos deixaram de ser gerados. Isso afeta diretamente os empreendedores locais, os ribeirinhos, os quilombolas — toda a cadeia econômica que poderia se beneficiar da COP”, lamenta Bentes.
‘Nenhuma cidade está preparada até precisar estar‘
Bentes também aponta que os desafios logísticos enfrentados por Belém não são exclusivos da cidade, tampouco de sua posição geográfica.
“Belém não está despreparada por ser do Norte. Está despreparada porque nunca precisou receber um evento desse porte. Nenhuma cidade está preparada até precisar estar. O Brasil também não estava pronto para a Copa de 2014 ou as Olimpíadas de 2016 no Rio. Isso é uma construção”.
A repetição de uma narrativa que associa Belém ao improviso e à exploração, diz ele, reforça preconceitos históricos e desvaloriza os esforços locais.
“Estão vendendo uma imagem de um povo explorador, despreparado — o que é injusto. Belém está tentando se organizar e merece ser tratada com seriedade”, defende Bentes.
Tanto Ana Toni quanto Jorge Bentes são unânimes em um ponto: a COP30 é uma oportunidade única para colocar Belém no centro do debate climático global. Mas isso só será possível se houver uma mudança na forma como a cidade e a Região Norte são retratadas.
“Não se trata de defender abusos. O que a gente quer é mostrar a realidade como ela é. (…) Belém está se organizando. E merece respeito”, finaliza Jorge.







