Bolsonaristas mentem sobre Lei Rouanet ao criticar protestos contra anistia e blindagem

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Artistas como Caetano, Chico e Gil não têm projetos ativos na Lei Rouanet, mas bolsonaristas usaram a mentira para deslegitimar os atos contra a anistia

Por Luiz Fernando Menezes, compartilhado de Aos Fatos




  • Com a adesão aos atos contra anistia equiparada em público ao Sete de Setembro bolsonarista, perfis nas redes disseminaram mentiras sobre uso de verba oficial nos protestos, o que não procede;
  • Nenhum dos artistas citados nas postagens bolsonaristas tem projetos ativos atualmente na Lei Rouanet. Tampouco há informações de que eles receberam cachês pelos shows;
  • Perfis de esquerda viralizaram vídeos feitos com IA e imagens de outros protestos como se fossem das manifestações de ontem, tática até então mais usada pela extrema-direita.

Bolsonaristas resgataram antigas desinformações sobre a Lei Rouanet para criticar e desdenhar, nas redes, do tamanho das manifestações contra a anistia e a PEC da blindagem neste domingo (21).

As mentiras, disseminadas durante e após os atos, diziam que os artistas que convocaram e que se apresentaram nos protestos são beneficiários da Lei Rouanet e receberam cachê pelos shows de ontem.

Figuras influentes do bolsonarismo, como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) (veja abaixo) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), amealharam mais de 3 milhões de interações entre domingo e segunda (22) ao dizer que o ato “nem com Rouanet vingou” e chamar os artistas de “mamadores de Rouanet”.

Na esteira das lideranças da oposição, uma série de posts com retórica semelhante passou a circular no Facebook e no Instagram, acumulando milhões de visualizações.

Imagem mostra a avenida Paulista vista de cima, tomada por uma multidão em um protesto. Pessoas ocupam toda a via e seguram faixas e bandeiras. Há também balões coloridos e estruturas de som espalhadas pelo ato. Nas laterais da avenida, prédios altos e árvores são visíveis. Legenda do post de Nikolas Ferreira diz: ‘Nem com Rouanet vingou’.
Nikolas Ferreira publicou imagem de manifestação ainda no início para sugerir que governo não teria conseguido adesão aos atos (Reprodução/X)

As insinuações de que a presença dos artistas teria sido custeada por meio da Lei Rouanet não se sustentam nos fatos. O programa não injeta verbas públicas diretamente em projetos: apenas permite a captação de recursos por meio de renúncia fiscal de empresas.

Ainda assim, Aos Fatos buscou e não identificou na Salic — plataforma oficial do programa — nenhum projeto que envolva o pagamento de cachê aos artistas citados nas críticas e desinformações disseminadas nas redes.

Também não há projetos ativos hoje na Rouanet em nome de Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil, que se apresentaram no Rio de Janeiro, ou de Daniela Mercury e Wagner Moura, que foram ao ato em Salvador. O mesmo é válido para as produtoras e as organizadoras do evento. Esses cinco artistas foram citados na maioria das peças desinformativas detectadas pelo Aos Fatos.

A imagem é uma montagem com três homens sorridentes, cada um segurando sacos de dinheiro com moedas e cédulas aparentes. O fundo tem um padrão amarelo com formas curvas. Na parte superior da montagem aparece a frase 'GRITAR SEM ANESTIA É FÁCIL' e, na parte inferior, a frase 'QUERO VER GRITAR SEM ROUANET'.
Posts sugerem que artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil teriam recebido cachê para participar dos atos (Reprodução)

Alguns deles, inclusive, já disseram não usar programas de incentivo, como Chico e Wagner Moura. Flora Gil, mulher de Gilberto Gil, também disse que deixou de recorrer ao mecanismo por conta de “fofocas”.

É fato, no entanto, que alguns dos artistas já receberam recursos no passado, mesmo que indiretamente: uma produtora obteve R$ 270 mil para gravar um vinil de Daniela Mercury e a produtora de Flora Gil captou recursos para eventos e acervos de seu marido.

Além de sugerir que os artistas teriam recebido dinheiro da Lei Rouanet para participar dos atos, algumas peças citaram o recorde autorizado pelo governo Lula (PT) para captação nos últimos dois anos.

A imagem está dividida em duas partes: à esquerda, há um gráfico colorido de barras que mostra valores anuais relacionados à Lei Rouanet entre 2003 e 2024, acompanhado de fotos pequenas de ex-presidentes e presidentes do Brasil; à direita, aparece a cantora Anitta em pé, sorridente, segurando um cartaz com a frase 'SOU CONTRA A PEC DA BLINDAGEM (...), enquanto notas de dinheiro caem ao seu redor e pessoas ao fundo parecem aplaudir. Ao fundo, aparece a mensagem: ‘Patrocinado pela Lei Rouanet’.
Publicações sugerem que apoio seria resultado do recorde de projetos aprovados para captação (Reprodução/X)

De fato, nos dois primeiros anos de mandato, o governo autorizou projetos que, juntos, poderiam captar cerca de R$ 34 bilhões. O montante representa mais do que o dobro do que a gestão Bolsonaro aprovou em quatro anos (cerca de R$ 16 bilhões).

Os posts omitem, no entanto, que esse valor se refere à soma aprovada para captação, e não à efetivamente arrecadada. Dos R$ 34 bilhões aprovados, apenas R$ 5,3 bilhões foram, de fato, arrecadados (veja gráfico abaixo).

Histórico

Assim como fez Bolsonaro no passado, as publicações distorcem o modelo de funcionamento da Lei Rouanet, que permite que pessoas físicas e jurídicas patrocinem ações culturais em troca de desconto no imposto de renda:

  • Primeiro, a proposta é inscrita pelos produtores responsáveis;
  • Técnicos do Ministério da Cultura analisam se a iniciativa respeita os requisitos exigidos em lei e, em seguida, um parecerista da área cultural faz sua análise. A partir desse parecer, a comissão decide por homologar ou não a proposta;
  • A decisão final cabe ao ministro da Cultura, que geralmente acompanha o que foi definido pela comissão;
  • Só após a assinatura do ministro — ou de um subordinado indicado por ele — e a publicação no Diário Oficial da União é que o projeto cultural está autorizado a captar recursos junto aos patrocinadores;
  • Com 20% do valor total captado, já é permitido o início da execução.

Anistiados contra a anistia

Bolsonaristas também têm criticado nas redes Caetano, Chico e Gil por uma contradição infundada: eles estariam lutando contra a anistia dos condenados pelo 8 de Janeiro mesmo tendo sido anistiados após a ditadura militar.

A imagem está dividida em duas partes sobre um fundo que imita papel envelhecido. À esquerda, há uma fotografia em preto e branco de Gilberto Gil e Chico Buarque sorrindo, acompanhada da inscrição 'ANISTIADOS 1979'. À direita, há uma montagem colorida com Chico, Caetano Veloso e Gil mais velhos, acima da qual aparece um cartaz amarelo com os dizeres 'RIO DE JANEIRO NAS RUAS – ATO MUSICAL CONFIRMADO', seguida de seus nomes. Abaixo da montagem está a inscrição 'CONTRA ANISTIA 2025'.
Caetano, Chico e Gil são apontados como hipócritas por bolsonaristas nas redes (Instagram)

Essa argumentação não procede, pois:

  • Em 1968, semanas após a decretação do AI-5, Caetano e Gil foram presos por “subversão e incitamento à desordem”. Ambos foram liberados meses depois e, em 1969, exilaram-se na Inglaterra;
  • Os dois voltaram definitivamente ao Brasil no início de 1972;
  • Após a prisão de Caetano e Gil, Chico Buarque também se autoexilou na Itália no início de 1969;
  • Chico regressou ao Brasil em março de 1970, após 14 meses.

Nenhum dos três, portanto, cumpria pena ou teve acusações criminais perdoadas quando a anistia de 1979 foi aprovada. Os artistas também não constam na lista de anistiados políticos.

Desinformação da esquerda

Assim como já ocorreu do lado bolsonarista, perfis de esquerda recorreram à desinformação para inflar os atos contra a anistia e a PEC da Blindagem.

Aos Fatos identificou vídeos gerados por inteligência artificial e gravações de outros momentos e de outras localidades sendo usadas para fazer crer que ainda mais gente compareceu às manifestações.

Há publicações ainda que afirmam que o ato na avenida Paulista reuniu mais de 100 mil pessoas. Porém, segundo o Monitor do Debate Político no Meio Digital, coordenado pelo Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) em parceria com a USP (Universidade de São Paulo), a média de participação foi de 42,4 mil pessoas em São Paulo e de 41,8 mil pessoas no Rio de Janeiro.

Outro lado

Aos Fatos entrou em contato com as assessorias de Nikolas Ferreira e Flávio Bolsonaro para abrir espaço para comentários, mas nenhum deles respondeu até a publicação desta reportagem. O texto será atualizado em caso de retorno.

O caminho da apuração

Aos Fatos fez buscas por publicações recentes com as palavras “rouanet” e com os nomes dos artistas destacadas por bolsonaristas nas redes — Caetano, Chico, Gil, Daniela Mercury e Wagner Moura. Procuramos por projetos com captação ativa na Salic com a participação dos cinco artistas, mas não encontramos nenhum resultado.

Também pesquisamos por declarações públicas e desmentidos anteriores sobre o uso de recursos da Lei Rouanet por parte dos cinco e buscamos dados de projetos e captação de recursos na base de dados do Ministério da Cultura.

Referências

  1. Metrópoles
  2. Estadão
  3. O Globo (1 e 2)
  4. Terrra
  5. Veja
  6. Ministério da Cultura (12 e 3)
  7. Folha de S.Paulo (1 e 2)
  8. CNN Brasil
  9. Aos Fatos (12 e 3)
  10. El País Brasil
  11. Ministério dos Direitos Humanos

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