E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, embarca em mais uma zoada num certo Senhor M. Desta vez, vai no passado buscar um vizinho que construiu uma nau de insensato em pleno quintal.
Mergulhemos ou derivemos no texto:
Como se sabe, o senhor M, depois de tantos anos ancorado em Paquetá, fez uma viagem de retorno à terra natal, Bangu. Mais especificamente, ele voltou de mala e cuia à casa da rua Boiobi. O nosso herói voltava às terras da infância, crescido de coração.
Na Boiobi não se avista a Baía de Guanabara. Está mais para pedra sobre pedra, com o Maciço da Pedra Branca. Nem toda transversal da rua Dois Irmãos vai bater na água. E, aparentemente hoje por lá não há nem sinal de embarcação nem de barca nem de barcaça. Quando muito, há pelas redondezas dois canais por onde passam pessoas que gostam de se exercitar de manhazinha.
Entretanto, tal qual a velha história segundo a qual um rio corre sempre para o mar, o destino de senhor M está sempre atrelado à ilha. Na verdade, isto ocorria desde a mais tenra infância, como veremos a seguir.
Não se trata de história de pescador. É que na Boiobi, na década de 1970, houve um inventor que construiu um barco para quinze pessoas no fundo de seu quintal. Seu nome, José Francisco. Foi ele que projetou e construiu com suas mãos de engenheiro naval o famoso Boioboat com fibra, ferro, Eucatex e muito, mas muito mesmo, engenho.
Tudo isto está documentado.
Agora imaginem o alvoroço da criançada. Certo dia, poc! O quê, mas não é possível, um barco ali, por trás daqueles muros altos? Quem passava a pé não podia resistir: tinha que dar uma averiguada. É, parece muito com um peixe quando fica só na espinha. É uma maravilha.
Meu Deus! Quem passasse de ônibus tinha que esticar o pescoço para admirar a construção. Tinha criança que fazia questão de ir de ônibus até o centro de Bangu. Tinha gente que se entristecia por não ter memória de elefante, para registrar tudo aquilo nos tintins por tintins.
Imaginemos o senhor M, vestido de roupa de marinheiro, implorando a seus pais para ver e rever o barco em construção. Talvez ele puxasse a barra da saia de sua mãe para pedir para ficar um pouco mais, parado em frente à casa de seu “JoFrans”.
Não havia nada mais importante para ele que o barco. Nem chiclete nem bala de tamarindo nem Sonho de Valsa nem refresco Ki-Suco. A onda era o Boioboat.
Era um barco muito engraçado
Não tinha proa, não tinha casco
Ninguém podia entrar nele, não
Porque estava em construção
Ninguém podia ficar na frente
Naquele barco tão diferente
Ninguém podia ficar lá atrás
Porque espaço não tinha mais
Ninguém podia passar enjôos
Porque no barco não tinha pouso
Ninguém podia ver chaminé
Porque no barco não tinha pé
Ninguém podia chegar na ilha
Naquele barco sem escotilha
Ninguém podia sentir o vento
Porque o barco era pra dentro
Esse causo tão verdadeiro
Não é cascata de marinheiro
Assim nos disse o senhor M
Que é hoje quem segura o leme
E assim se finda essa aventura
De um barco feito na rua
Dizem que ele inda flutua
Por sobre as ondas, por sobre a lua
(Paródia de A Casa, Sergio Bardotti / Vinícius de Moraes)
Dizem que certo dia o Boioboat saiu do estaleiro. Foi preciso quebrar o muro, e ele veio ao mundo mais ou menos como um pintinho quando sai da casca do ovo. Então veio uma carreta e o levou em direção à Baía de Sepetiba, na zona oeste da cidade. Imaginemos o desfile em carreta aberta do inigualável grande peixe da Boiobi. É demais para um coração. É de marejar!
As más línguas se apressaram em dizer que a bichinha não flutuou direito, que ela ficou encalhada, que tropicou que nem barco bêbado. Deve ser verdade, para nosso infortúnio. O princípio de realidade em geral fala mais alto.
Entretanto, não somos gente de imaginação atracada, especialmente quando se trata da preservação ou da invenção de memórias diletas da infância, do engenho ou da ingenuidade humanas. Para muita gente, o Boioboat, essa navilouca, é capaz de fazer a viagem bonita ao redor do mundo: Bangu-Paquetá (Via Praia de Ramos).
Imagem do post: pintura Navio dos loucos – Hieronymus Bosch – 1495
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.







