E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, nos leva novamente á sala de cinema. Desta vez para falar do filme do momento, “O Agente Secreto”.
Pode-se dizer que “O agente secreto” (2025) sintetiza o cinema de Kleber Mendonça Filho.
Senão, vejamos: nos seus filmes anteriores já estavam presentes: seu amor pelo cinema; sua queda por cenas trash; seu amor por Recife; a violência perene da sociedade brasileira, com seus jagunços e matadores de aluguel oficiais e extra-oficiais; a exuberante e surpreendente trilha sonora; um certo gosto por antigas formas de registro como a fotografia em papel; um protagonista tão competente quanto conhecido nacional e internacionalmente; um conjunto de coadjuvantes extraordinários, de pessoas que parecem personagens, que dão aos seus filmes uma enorme força de atuação; uma direção de arte que reconstitui o passado com bastante atenção aos detalhes; as inúmeras referências ao cotidiano e ao cinema; a luta contra o “outsider” preconceituoso, que só pensa em lucros; o impacto da perda da mãe em sua vida.
Cada aspecto que mencionei acima é capaz de virar, a depender da competência do pesquisador, um trabalho riquíssimo e esclarecedor sobre o Brasil e seu audiovisual, seja na área do cinema, da interface entre as mídias, do estudo da direção de arte, da história do cinema de rua, da decadência dos grandes centros das cidades, do cotidiano do espectador do cinema, que tem a sala de cinema como ponto de encontro e de realização de fantasias sexuais, do cinema-cidade etc. etc.
Kleber Mendonça Filho é um gênio do cinema. Filma bem e sabe vender seu peixe.
Eu fiquei muito feliz em ver o saudoso senhor Alexandre agora como personagem importantíssima da trama. O projetista foi uma das personagens principais do documentário “Retratos Fantasmas” (2023). Lembro-me bem de sua cara redonda tão pernambucana, tão bonita, da amizade entre ele e Kleber.
No “Agente Secreto”, Alexandre continua trabalhando na projeção de filmes, usa guia cobra-coral por baixo da camisa aberta, e é sogro do protagonista. Na verdade, ele está tomando conta do neto enquanto o protagonista está tentando resolver a vida. Muita coisa importante ocorrerá em seu território de atuação, a sala de projeção de cinema.
Para algumas pessoas, o filme deveria render mais, não merecendo Oscar. Tudo bem, é uma opinião.
Para outros, o filme não tem pé nem cabeça (mas perna tem, afinal, tem a história da perna cabeluda). No meu caso, o único inconveniente do filme foi o frio do ar-condicionado. Eu não sei por que querem nos congelar no cinema. Quer dizer, em suma, para mim o inconveniente foi extra-filme.
Para finalizar, “O agente secreto” tem cena de sacanagem no quarto, no cinema, e nas praças à noite! É para lançar água ao moinho daqueles que dizem que o filme brasileiro só tem sacanagem?
Que ator é Wagner Moura!
Viva o cinema brasileiro!
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.







