Carta a Urariano Mota pela sua saga a procura de um filme

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E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, mostra que está sempre atento e forte na leitura do nosso Bem Blogado. Leu, gostou e já envia carta ao também escritor Urariano Mota. Este teve sua saga a procura de um filme pós golpe de 64 publicada aqui neste 12 de janeiro. Cícero César envia abaixo afetuosa carta ao Urariano. Ah, para quem não sabe, Beija-Flor é a cidade de Nilópolis intitulada assim pelo nosso cronista.

Beija-Flor, 12 de janeiro de 2026.




Prezado Urariano,
Acabo de ver “The troubled land”. Achei o filme espetacular.
Depois de ter acompanhado a saga que foi encontrá-lo, o melhor a fazer era assistir ao filme imediatamente. Filme espetacular! Que personagens. Francisco Julião; o dono das terras com seu revólver de cano longo; a Sudene e Celso Furtado falando em inglês; os cantadores; Severino, absolutamente fotogênico e família; os cortadores de cana pitando fumo enquanto ouvem o discurso.

Recife, a Veneza brasileira. E que prédio é aquele com linhas tão elegantes e sinuosas? Ainda está de pé? O sonho do migrante, do qual Lula fez parte.


Minha cabeça girou para frente e para trás. Em momentos diferentes: “Vidas Secas”. Em momento próximo, “Morte e vida Severina”. Também o filme do Glauber que une a pobreza do Maranhão ao discurso empolado de posse de Sarney. E mais próximo ainda de nós, o início de “O som ao redor”, com suas fotos. E com seu banho de sangue na cachoeira.


Cano longo. Cana longa. Foices e reses. Lápis custam caro. E uma Rural ao fundo.
De certo modo, tal história é a minha e a de minha família. Eles não eram camponeses, já viviam nas cidades grandes de Maceió. Mas eram pobres, abaixo de remediados. O surto de desenvolvimento dos 60s e 70s levou meu pai a ser funcionário da Petrobrás. E aí ele veio para o Rio de Janeiro.


Voltamos diversas vezes a Maceió, de ônibus. Depois de avião. Transbrasil. De modo que um pouco da cultura da cana de açúcar e do fumo está impregnado na minha memória. “Se em Recife tem, na casa fulana de tal também tem”, dizia um reclame de televisão.

E um pouco desta pobreza também que eu via. Da pobreza e da consciência de classe. “O problema do Nordeste não é seca, é cerca”, dizia um slogan de um pessoal de agronomia de esquerda lá pros anos 80s, início dos 90s.


Repito que o filme é espetacular. Não foi sem razão que ele teve a circulação impedida ou dificultada. O filme, feito por americanos, não era pró-Cuba, não pretendia ser, mas acaba sendo porque a situação de pobreza e dominação no nordeste do país era escandalosa.


É a tal da realidade objetiva, que independe das intenções da direção. Muito bem filmado e editado, o filme me lembrou algumas coisas de Thomas Farkas e Geraldo Sarno.


Por isso tudo, por ter feito me lembrar da minha vida com o seu texto e com o link para um filme que precisa ser visto por todos nós, agradeço.
Atenciosamente,
Cícero C.

A foto do post é de Francisco Julião, líder camponês presente no filme.

Sobre o autor

Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.

Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019),  Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.

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