Contrato apreendido pela PF previa que Cezinha de Madureira adquirisse 4% do Instituto Iter, de André Mendonça. O documento surge em investigação sobre suposta comercialização de influência e amplia as informações conhecidas sobre a relação entre o deputado e o ministro.
O deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP), investigado pela Polícia Federal por suspeita de comercialização de influência junto a tribunais superiores, assinou um contrato que lhe dava a opção de comprar 4% do Instituto Iter, criado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). A PF encontrou o documento no material apreendido durante buscas contra o parlamentar e a advogada Valéria Linhares.
O contrato acrescenta um elemento concreto à relação entre Cezinha e Mendonça justamente quando a atuação do deputado junto a ministros do STF, Superior Tribunal de Justiça (STJ) e Tribunal Superior Eleitoral (TSE) está sob investigação. A própria PF, porém, ressalva que não investiga os magistrados mencionados nas mensagens e que não encontrou elementos de solicitação, aceitação ou recebimento de vantagens indevidas por eles.
Segundo a colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, Cezinha depositou R$ 19.353 como caução, valor correspondente a 1% da participação prevista. O deputado compraria os outros 3% de outros integrantes do instituto.
Negócio não chegou a ser concretizado
A assessoria de André Mendonça afirma que Cezinha nunca se tornou sócio do Iter. Segundo a versão apresentada pelo ministro, o parlamentar não poderia ingressar na sociedade enquanto permanecesse na atividade política. Por isso, o contrato previa uma opção de compra futura, condicionada à saída de Cezinha da política, que poderia ocorrer em 2027.
A descoberta, entretanto, ocorre em meio a uma investigação mais ampla. Em 14 de setembro, a PF cumpriu mandados contra Cezinha e Valéria. Segundo os investigadores, mensagens apreendidas indicariam uma estrutura destinada à negociação de influência sobre ministros de cortes superiores em causas específicas. A investigação envolve suspeitas de tráfico de influência, corrupção e lavagem de dinheiro. Cezinha nega irregularidades.
A PF descreve diálogos nos quais advogadas discutiriam causas e honorários enquanto caberia ao deputado realizar contatos pessoais com magistrados. Em alguns episódios, segundo a investigação, aparecem valores de centenas de milhares de reais e até R$ 2 milhões associados ao êxito das demandas. Mais uma vez, a PF faz uma distinção importante: os ministros citados aparecem como possíveis destinatários da influência que os investigados alegariam possuir, e não como suspeitos de participar do esquema.
Cezinha intermediou encontro entre Mendonça e Vorcaro
A relação entre o parlamentar e André Mendonça ganhou ainda mais relevância porque Cezinha participou da articulação de uma reunião entre o ministro e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, em março de 2025.
Mensagens obtidas no celular de Vorcaro mostram Cezinha participando das tratativas. No dia marcado, o empresário avisou que estava chegando e recebeu do deputado a informação de que Mendonça já o aguardava.
O ministro confirmou ter recebido Vorcaro. Segundo seu gabinete, porém, o encontro ocorreu por iniciativa do empresário e tratou exclusivamente de uma ação sobre precatórios de interesse do Banco Master que estava em julgamento no STF. Mendonça afirma que se limitou a ouvir o banqueiro e ressalta que sua atuação jurisdicional acabou contrariando a posição defendida por ele.
A proximidade passou a despertar atenção também por outro episódio. No mesmo mês do encontro com Vorcaro, Mendonça pediu vista de um processo relacionado a concessões de cemitérios privados em São Paulo que, segundo a Folha, envolveria interesses do conglomerado do Banco Master. Quando o julgamento prosseguiu, o ministro votou contra a manutenção de restrições impostas anteriormente às concessionárias. A assessoria sustenta que o julgamento discutia uma tese geral sobre concessões de serviços públicos, e não interesses específicos de Vorcaro ou de alguma empresa.
Diante dos elementos reunidos, Flávio Dino encaminhou ao presidente do STF, Edson Fachin, pedido para que o encontro entre Mendonça e Vorcaro e atos jurídicos relacionados sejam analisados pela Corte. Dino mencionou a existência de um “quadro indiciário suficientemente relevante” para justificar a providência.
R$ 510 mil em uma bagagem
Outro episódio integra a investigação sobre Cezinha. Em agosto, a Polícia Federal apreendeu R$ 510 mil em espécie em uma bagagem transportada por Valéria Linhares no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. A defesa da advogada afirma que o dinheiro tem origem lícita e decorre de sua atividade profissional.
A PF considera que a apreensão merece investigação porque trabalha com a hipótese de que eventuais vantagens indevidas poderiam circular em dinheiro vivo, dificultando o rastreamento pelo sistema bancário. Essa é uma linha investigativa, ainda sem conclusão judicial sobre a origem dos R$ 510 mil.
Cezinha sustenta que não praticou irregularidades e afirma confiar que a investigação demonstrará a legalidade de sua conduta. O contrato encontrado agora não comprova, por si só, qualquer atuação ilícita de André Mendonça ou do deputado. Mas documenta que a relação entre ambos incluía uma negociação econômica: Cezinha tinha uma opção formal para adquirir participação no instituto fundado pelo ministro, além de ter intermediado o encontro entre Mendonça e Vorcaro que também passou a ser objeto de análise no STF.
* Redator: Solon Saldanha
Foto: Cezinha de Madureira. Crédito: Congresso em Foco







