Colheita das oliveiras: como Israel sabotou este ano a principal cultura agrícola da Palestina

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Árvores destruídas, equipamentos confiscados, agricultores presos: ninguém impede abusos israelenses

Por Rodrigo Durão Coelho, compartilhado de BdF




Foto: Homem e uma mulher passam por oliveiras que foram derrubadas após um ataque noturno realizado por colonos israelenses em um olival nos arredores da aldeia de Abu Falah - Zain JAAFAR / AFP

Outubro costumava ser um mês feliz na palestina, a época do ano em que as famílias da Cisjordânia se reuniam para colher os frutos das oliveiras, principal produto agrícola e parte fundamental da identidade do povo. Mas não neste 2025, ano em que Israel se esforçou para tornar a colheita uma das mais difíceis, perigosas e frustrantes já registradas.

Foram 259 ataques contra trabalhadores palestinos, sendo 41 cometidos pelo Exército israelense e 218 ataques por colonos, segundo a Comissão de Colonização e Resistência ao Muro (CWRC na sigla em inglês). Esses ataques incluíram violência física grave, prisões, restrições de movimento, negação de acesso, intimidação e terror em todas as suas formas — incluindo disparos com munição real.

O maior número de ataques foi registrado na província de Ramallah (83 casos), seguida por Nablus (69) e Hebron (34). Shaaban acrescentou que 63 incidentes envolveram restrições de movimento e intimidação de trabalhadores da colheita de azeitonas, enquanto 44 casos incluíram agressões diretas e espancamentos contra agricultores.

Autoridades palestinas chamam os ataques de “terrorismo patrocinado pelo Estado e a proteção oficial concedida às milícias de colonos”.

Símbolo de ancestralidade e resistência

“A oliveira significa resistência, cultura, longevidade, ancestralidade, contato com o território, o sonho de um território autônomo, a Palestina livre”, resume à reportagem Adhemar Ludwig, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que participou da brigada que participou da colheita de olivas palestinas em 2018. Além disso, são árvores centenárias, plantadas hoje para serem colhidas por gerações futuras, herança transmitida para manter a ligação com a terra.

Calcula-se que uma delas, na Cisjordânia, tenha entre 3 mil e 5 mil anos de idade, preservada pelos palestinos como um tesouro da nação, o que torna ainda mais cruel a prática israelense de arrancá-las do solo. Este ano, os ataques vandalizaram mais de 4 mil árvores, sejam arrancadas, niveladas ou simplesmente roubadas. Imagens da Maktoob Media mostram momento em que colonos vandalizam oliveiras.

“Colonos israelenses colheram as oliveiras da minha família”, diz a agricultora Ruayda Rabah. Ao Brasil de Fato, a moradora da Cisjordânia relata o horror de quando se viu impossibilitada de colher o fruto do trabalho de um ano inteiro. “Senti total impotência, nunca imaginei que desacreditaria tanto em justiça na minha vida”, resume.

Ela explica que os moradores de sua vila na Cisjordânia foram “proibidos de chegar a alguns terrenos, e alguns tiveram seus equipamentos apreendidos, carros quebrados e [alguns foram] até presos”.

“Fomos agredidos, expulsos e impedidos de fazer a colheita, mesmo que as terras estejam na área B [administradas conjuntamente pela Autoridade Palestina e Israel] e temos documentos provando isso, eles alegam que eram área C [administradas por Israel apenas].”

Não há como resistir

O CWRC afirma que o número de ataques à colheita vem aumentando ano a ano desde o início do genocídio em Gaza, em 2023, como forma de punir a população palestina também da Cisjordânia, onde cerca de 100 mil famílias dependem do produto como fonte primária de renda. As oliveiras são cultivadas em quase metade de todas as terras agrícolas na Cisjordânia e contribuem com 5% do PIB palestino.

A Organização das Nações Unidas (ONU) pressionou Israel, como potência ocupante, a impedir novos ataques na Cisjordânia, com o chefe de ajuda humanitária Tom Fletcher afirmando que “a incapacidade de prevenir ou punir tais ataques é incompatível com o direito internacional. Os palestinos devem ser protegidos, a impunidade não pode prevalecer e os responsáveis ​​devem ser penalizados”.

Na vida real, no entanto, a coisa não acontece assim. “São todos fortemente armados, não há como haver resistência, mesmo porque a Palestina não tem Exército, a população não é armada, enquanto quem nos ataca é um Exército, junto com colonos, que agem de forma extremamente violenta, extremamente animalesca e todos fortemente armados. E muitos com cães”, explica Rabah.

“Eles têm praticado invasões a domicílios indiscriminadamente, têm queimado carros. E a única coisa que a pessoa pode fazer é tentar fugir ilesa. Mais do que isso não há o que se fazer, porque, se tentar reagir, você é morto na hora.”

Editado por: Maria Teresa Cruz

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