Rian Johnson usa o formato do mistério para discutir fé, culpa e poder, tratando a igreja não como vilã abstrata, mas como instituição humana, atravessada por contradições e fragilidades.
Por Ramon Vitor, compartilhado de O Vício
proletariado e a mente ególatra e imatura dos bilionários tech bros, Rian Johnson chega com Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out (2025) para abordar algo mais sensível: as contradições da igreja como instituição.
Francis Ford Coppola, em Megalópolis (2024), afirma que um império colapsa quando as pessoas deixam de acreditar nele. Embora o mundo não esteja deixando de crer na pregação das igrejas, que se mantém como uma instituição forte, é inegável que a crise de imagem resultante de escândalos recentes permite que criadores posicionem a instituição como uma vilã.

Não é o que Rian Johnson faz aqui. O cineasta assume que, por mais divina que a mensagem cristã seja, a igreja permanece uma instituição liderada por homens — e homens são falíveis à ambição, ao medo, à culpa e ao próprio ego.
O Reverendo Jud, interpretado por Josh O’Connor, é o principal veículo dessa pregação cinematográfica de Johnson. O sucesso do filme depende da adesão do público ao drama desse ex-boxeador atormentado pela culpa, um homem que passa longe da perfeição, mas tem a humildade de reconhecer isso.

Não é à toa que são gastos 40 minutos apenas na introdução do Reverendo. Quando Benoit Blanc entra em cena, é possível temer o que o detetive cínico e charmoso, interpretado por Daniel Craig, pode fazer com a alma generosa, mas atormentada, de Jud.
E aqui vale um elogio com exclamação! O domínio de Rian Johnson sobre a sintaxe cinematográfica é digno da mais alta reverência artística. O cineasta não apenas utiliza profundidade de campo e eixos para integrar elementos narrativos aos planos, como também manipula a iluminação de forma extremamente criativa.

A mudança nas cores é abrupta no momento em que Blanc se cruza com Jud. Como em um apagar de luzes, o tom ensolarado e divino sai de cena, e um azul frio e cortante toma conta de todo o plano, representando o desprezo que o detetive sente pela igreja e por sua organização estrutural.
A iluminação é uma parte muito importante da história. É através dela que se torna perceptível a transformação do frio Benoit Blanc em alguém tomado pela empatia. Não que ele se torne um crente, o detetive é profundamente tocado pela generosidade de Jud, que, mesmo com a corda no pescoço, encontra tempo para rezar por uma filha em agonia devido à sua relação conflituosa com a mãe doente.

Tal qual um ilusionista, Rian Johnson entrega um filme recheado de diálogos, mas cuja sustentação não reside apenas neles. Para além do mistério desvendado, a verdadeira graça está em sentir a profundidade dos personagens e ressignificar qualquer impressão inicial criada sobre eles. É um grande exercício de empatia e tolerância. Afinal, como o próprio Jud afirma: Se você tratar o mundo como um lobo e partir para a luta contra ele, vai cometer o erro de transformar todo mundo em lobo.
Em última análise, Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out (2025) oferece mais do que uma mensagem divertida e respeitosa sobre a religião como uma fonte inexplicável de inspiração. O filme é um lembrete de que se ambição, medo, culpa e ego são características inerentes ao homem, a generosidade também é.







