Cuidar da memória também é resistir 

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O que a fala de Wagner Moura, um muro pichado e uma comissão da Ufrgs têm em comum

Por Moisés Mendes, compartilhado de Extra Classe




Foto: Igor Sperotto

Uma pichação ocupa quase 10 metros de um muro da Praça Argentina, na Rua Sarmento Leite, centro de Porto Alegre, nos fundos da Santa Casa de Misericórdia e do outro lado da rua do campus central da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Quem passa rápido de carro lê a palavra que mais chama atenção: MEMÓRIA. A pichação completa informa: ”DA MEMÓRIA NGM APAGA”.

É possível, mas a memória não ajuda, que essa pichação seja prima de outra que também tinha a mesma palavra ‘memória’, no mesmo muro.

É possível que a pichação original, se é que fato existiu, ou se é uma invenção da memória, referia-se aos protestos de estudantes contra a presença do ditador argentino Jorge Rafael Videla, em 1980, em Porto Alegre. Videla, acreditem, deveria reinaugurar a Praça Argentina, mas não conseguiu chegar perto, porque os estudantes não deixaram.

O que se diz dessa pichação, e não da pichação anterior, se é que existiu e que mostrava apenas a palavra memória, é que essa que está ali agora é uma resposta ao apagamento de outra pichação. Que o prefeito Sebastião Melo teria mandado apagar.

Essa pichação apagada, do artista Filipe Harp, mostrava o prefeito afogando-se em merda na enchente de 2024. Por isso outra pichação avisa: ‘Da memória ninguém apaga’.

É o que se sabe. Contada assim, entrecortada, com uma abordagem precária, essa história talvez não contribua muito para a preservação da memória da resistência à ditadura, nos anos 80, e aos desmandos dos que entregaram Porto Alegre às águas, aos esgotos e aos ratos na grande cheia de 2024.

Memória é versão, como qualquer observação ou relato sobre um fato, mas é essencialmente a busca da verdade. É a procura do que há de essência naquilo que aconteceu.

O Agente Secreto, o filme consagrado pelo público antes da consagração em Los Angeles, é uma versão dos anos 70 no Brasil sob o ponto de vista da ficção. É o cinema nos mantendo acordados e atentos sobre a ditadura.

Wagner Moura disse em Logs Angeles, ao receber o prêmio de melhor ator de drama do Globo de Ouro:

“O Agente Secreto é um filme sobre memória ou sobre a falta de memória e sobre trauma geracional. Acho que, se o trauma pode ser passado entre gerações, os valores também podem. Então isso é para aqueles que permanecem fiéis aos seus valores em momentos difíceis”.

Wagner Moura resumiu nesse trecho, com 200 palavras, o que a arte diz ao seu modo sobre o que está escrito no muro da Praça Argentina. A memória, os traumas da geração da ditadura, os valores que chegam até aqui e os que continuam resistindo.

É uma sequência de ideias compacta, precisa e poderosa sobre os significados do que está pichado no muro e está na história do filme. Não podemos nos esquecer.

Kleber Mendonça Filho, o diretor, chegou a sugerir, em nome da memória, que cineastas americanos se lembrem de que esse momento de imposição do fascismo deve ser registrado pela arte da resistência.

O muro pichado na praça de Porto Alegre é vizinho da UFRGS. Foi instalada há um ano na universidade a Comissão da Memória e da Verdade Enrique Serra Padrós, coordenada pela professora Roberta Baggio.

Padrós, já falecido, lecionou no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFRGS e deixou uma marca: as aulas, as pesquisas e o ativismo pela democracia, sempre dedicado a lançar luzes sobre as ditaduras do Cone Sul e seus horrores.

A comissão vai continuar o que o professor fazia e ajudar na compreensão e na preservação da memória dos perseguidos pela ditadura dentro da universidade. Os professores, os servidores das mais várias áreas e os estudantes.

Na primeira audiência pública, a comissão ouviu os depoimentos de três ex-estudantes da UFRGS perseguidos pela ditadura entre 1964 e 1985: Dilza de Santi, João Ernesto Maraschin e Henrique Finco.

Por que isso agora, se todos eles estão com mais de 70 anos? Porque, como disse Wagner Moura, é preciso dedicar nosso tempo, nossa arte e nossa atenção aos que permanecem fiéis aos seus valores em momentos difíceis.

A pressa do século 21 tira dos mais jovens a percepção de memória que a geração dos anos 60 e 70 da ditadura trazem até hoje. Quem está interessado em verdade, memória e justiça?

Qual é o sentido de memória para quem não viveu nada parecido com o que aconteceu durante a ditadura e não consegue imaginar a dimensão da visita de um ditador argentino a Porto Alegre. Que valor tem essa memória?

Pois o trauma geracional dos que viveram sob a ditadura só será percebido com a ajuda do resgate da memória e com o suporte da arte. Wagner Moura nasceu em 1976, no período mostrado no filme que lota os cinemas.

Por distanciamento no tempo e pela certeza de que não tem muito a lembrar de vivências pessoais daquela época, o baiano poderia dizer que essa é uma tarefa para os mais velhos e para a História como tarefa dos outros.

Não é. Memórias se mantêm pelo acervo de pesquisas do professor Padrós, pelas falas e atitudes dentro e fora das salas de aula dos que o sucederam, pelo cinema, pela literatura, pelo ativismo político e por um muro pichado.

Ah, dirão, mas se todos fossem pichar muros, não haveria muro para tanta pichação. Mas há muros e muros, assim como há pichações variadas. A memória também segue viva com um pouco ou com bastante de transgressão, porque ela, a memória atacada, deve ser mais forte do que os que se dedicam a amordaçá-la. O fascismo teme memórias.

Quando escrevi esse texto, não sabia se o muro pichado da Praça Argentina continuava assegurando que ‘da memória ninguém apaga’, ou se a pichação já havia sido apagada. Porque o que importa é que, do outro lado da rua, muitos continuam resistindo.

Pois o fotógrafo Igor Sperotto foi lá e fez a foto que ilustra esse artigo. Memória, memória, memória. Para que se revele a verdade e se faça justiça.

Moisés Mendes é jornalista e escreve quinzenalmente para o Extra Classe.

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