E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, inaugura com esta publicação a série “Mas será o Benedito?”, sobre futebol infantil e sonho.
Beija-Flor, 18 de fevereiro de 2026.
Caros leitores: Benedito é um menino dos seus doze anos que ama futebol. Ele joga bola em casa, na calçada, na rua, na ladeira, na escola, no campo, na quadra, na várzea, na praia, no quarto, no banho, na cama, no sono, em qualquer lugar e não-lugar. Quando não ele está jogando futebol, está jogando futebol de mesa.
Benedito está crescendo em Vila Isabel na década de 1980. Como profissão, ele quer ser jogador, obviamente. Ele não quer ser o Zico, porque todo mundo quer ser o galinho de Quintino. “Eu sou o Zico!”, diz o quase craque. “Eu sou o Zico!”, diz o perna-de-pau. E você, Benedito, quem você quer ser? Beeeneeediiiitooo!
Ele não quer ser o Maradona, Benedito teria bastante simpatia pelo craque argentino, mas ainda não era a hora. Ele ainda nem tinha ouvido falar direito do Pibe de ouro. Ele não queria ser o Pelé, embora lhe invejasse o futebol e chegaria a invejar as conquistas amorosas do Rei, o atleta do século.
Ele quer ser o Ardilles, um jogador argentino que usava a camisa 1 na Copa de 1978, e não era goleiro. Mas que é Ardilles? Ele viu num filme. “Ardilles para mim é pimenta”, disse um ignorante certa vez.
Talvez Ardilles venha de ardil e não de ardência. Diga-se a favor do ignorante: naquela época, as informações chegavam mais lentamente. Dependia-se da televisão e de revistas especializadas para se estar antenado como o mundo do futebol. Dependia-se também do álbum de figurinhas do chiclete Ping Pong. Vila Isabel era uma aldeia, tão aldeia quanto a Aldeia Campista, se não fosse mais.
Se perguntassem a Benedito quem era o melhor técnico do mundo, ele responderia de primeira: “Seu Ivo”. Nada de Rinus Michel nem de Menotti nem de Claudio Coutinho nem de Telê Santana. Era o seu Ivo que treinava as crianças no futebol de salão com aquela bola que pesava uns 3 kg. Se abrisse a bola, tinha pano dentro, vá entender. A bola era um boneco de pano.
Foi o meio a contragosto que Benedito teve de ser ele mesmo, desde cedo. Por isso, ele aprendeu a jogar da maneira dele, isto é, da maneira de um certo Bendito Benedito de Assis. E aqui se entrega de bandeja a inspiração para o nome do nosso herói.
Ele não sabia que seria chamado de Ben 10, porque isto não era da época dele. Na época o chamavam de Bené. E estava ótimo.
Vamos dar o pontapé inicial na primeira história?
BOLA DE PAPEL
“E agora, o quê que a gente vai fazer? Amanhã tem futebol”, pensava Benedito. Vandeca Meleca tinha isolado a bola na tarde anterior. Tiquinho, o único que tinha uma bola sobressalente, de férias, pro Norte. Bujão, de castigo, por causa das notas baixas ao longo do ano. E Bamba, o nosso Pelé, estava tomando conta do Conguinha, seu irmão.
Mas estavam na área o Luiz, o Michael, o Branco, o Guinê, o CasaMalte e o Telecatch. Quer dizer, dava pra se jogar cascudinho.
Benedito pegou o jornal velho que era de fazer forro de gaiola de passarinho, arrumou uma sacola de plástico, e com um pouco de engenho fez uma bola razoável, esférica até.
Benedito era bom com as mãos, mas era melhor ainda com os pés. Fez umas embaixadas. Fez umas tabelinhas na parede. É melhor que jogar com tampinha de garrafa.
O jogo de hoje não era na calçada. Era na rua, entre os carros. Uma espécie um tanto arriscada de futebol, mas dava para fazer na rua, que não era nem tão movimentada assim.
A molecada foi se reunindo no local de costume. Em frente ao portão de ferro que fazia às vezes de gol. Todo mundo descalço, em igualdade de condições. Não vale de bico. Quem isolar, pega.
Benedito pintou e bordou no cascudinho. Driblou o time inteiro, isto é, dois adversários. Cruzou. Fez gol de cabeça. Só não fez gol de bunda porque não quis humilhar o goleiro, que era o mais baixinho, o Dominique.
De quando em quando, o jogo era interrompido devido à passagem dos carros. Parou! Vai! Parou! Vai! As interrupções ajudavam Bené a organizar na cabeça do dedão as jogadas que ele faria. Nada de firula. Habilidade, sim. Firula, não. Olha o que seu Ivo disse.
Jogo vai, jogo vem. Já era quase a hora da Ave-Maria. Dava para ver pela impaciência dos pombos, que batiam em revoada, dando rasantes. Daqui a pouquíssimo a mãe de Benedito daria o apito final. Sem prorrogação, sem disputa de pênaltis, sem resenha.
O jogo, entretanto, prosseguiria durante o banho, depois da janta, na cama antes de orações, antes de dormir. Se o céu existe, a cor da grama é verde esmeralda.
A bola de papel, guerreira, resistira o quanto pode. Uma tarde. É reciclável, no dia seguinte, se necessário, se faz outra bola.
Benedito já estava dormindo quando seu pai chegou do trabalho com uma bola Dente de Leite embrulhadinha em papel rosa. De manhã, aquela alegria de quem ganhou o melhor presente do mundo. O futebol daquele dia estava garantido.
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.







