E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, aborda uma realidade muito triste, para a qual muitos, e põe muito nisso, preferem dar as costas, a pobreza extrema. Tema tão atual, flagrante, tratado com desdém por grande parte dos integrantes do Congresso Nacional, que lá se mostram a serviço, lacaios, dos excessivamente ricos em detrimento aos pobres.
O Bicho
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem. (Poema de Manuel Bandeira, escrito em 1947)
“Estamira” (Dir. Marcos Prado, 2004) é um documentário sobre uma mulher que cata seu sustento no Aterro Sanitário de Gramacho, Duque de Caxias, Rio de Janeiro. As cenas do “Lixão” são fortes. Caminhões e mais caminhões erguem suas caçambas enquanto os catadores aguardam que nem gente em dia de promoção no Supermercado Guanabara. Depois começa a triagem. Com o decorrer do filme, nos deparamos com uma realidade de dar nó na cabeça: aquelas pessoas são pessoas. Invisíveis de tão sujas, silenciosas como urubus, mas pessoas, não tão distantes da gente. Será que é por isso que nos afastamos delas?
O asco que sentimos tem a ver com esse medo de cairmos também no lixão da loucura e da pobreza extrema? Aquilo que descartamos servirá como sustento para os trapeiros. É esse o ponto. Produzimos muito lixo, que tem ficar longe de nós.
Lembro-me do quanto fiquei impressionado com Estamira, protagonista do filme. Ela era de uma personalidade forte, sem censura, ciente de suas limitações impostas pela doença mental de que padecia (esquizofrenia). Talvez um pouco por isso tudo, ninguém lhe punha rédeas, ela viveu como quis. Poucas vezes na vida ouvi de alguém de maneira tão clara o quanto a medicação pode servir mais para dopar do que para curar.
À época em que assisti ao filme, ainda não tinha despontado no horizonte a medicação excessiva como solução para nosso sofrimento cotidiano. Pelo menos, ao meu redor, não. Hoje não é tão incomum topar com pessoas que se tratam com medicação tarja preta e afins. Além da terapia, que é a cura pela palavra, pela escuta. Para o bem e para o mal, depressão e crise de ansiedade são assuntos do nosso cotidiano, não são tratados como fraquezas individuais.
Não comentarei o documentário “Lixo extraordinário” (Dir. Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley, 2015), nem o famigerado “Ilha das flores” (Dir. Jorge Furtado, 1989), que também vi e recomendo. Partirei para o documentário “Something better to come” (Dir. Hannah Polak, 2014).
Yula, menina russa que mora com a família em um lixão a vinte quilômetros do Kremlim. Bruta vida. Vêem à mente as semelhanças e as diferenças entre a realidade brasileira e a russa. Mais uma vez, sinto que Yula não é tão diferente dos jovens da sua idade. Ela tinge o cabelo, usa anéis, sabe-se bonita, quer amor, seus olhos brilham no frio de lascar.
“Something better to come” (algo como “alguma coisa melhor por vir”, em português), é dirigido por Hannak Polak, que filmou Yula por quase quinze anos – dos dez anos até os vinte e quatro.
É tempo demais, é dor demais, uma dor que sufoca a esperança do título, que se torna ironia amarga até quase o final do filme. Percebe-se que a vida vai lhe dando mais perebas que esperança no Lixão. Mas, a exemplo de “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, o filme também termina com um tom em prol da vida.
Mais uma vez, mostra-se a vida como ela é, o que inclui pequenas vitórias, além das unhas sujas. É estranho, mas as fotos de Sebastião Salgado da série “Trabalhadores”, apesar de geniais de tão bem feitas, não me proporcionam esse torvelinho de emoções.
“Something better to come” faz parte de uma mostra do cinema do Leste Europeu que o Sesc está promovendo. Dois filmes da mostra dirigidos por Hannah Polak foram disponibilizados na plataforma Sesc Digital.
Enquanto isso, podres poderes no país nos envergonham. No Congresso, descaradamente vetam-se medidas que taxariam um pouquinho os ricos enquanto legislam em causa própria. Sinto-me um tanto envergonhado, sem condições de defender um mundo que proteja gente como eu, como Estamira, como Yula, trapeiros do mundo.
Por derradeiro, uma história pessoal: jamais se dissipou de minhas retinas fatigadas a seguinte cena: um homem mete o braço no tonel de lixo e de lá retira carcaças de galeto.
De onde tal cena vem? Há cerca de quarenta anos, meu pai, depois de ter deixado minha mãe no Aeroporto do Galeão, levou meu irmão e eu para almoçar no centro da cidade, em um restaurante chamado “Frango Veloz”. Eu, sentadinho, nas banquetas altas, talvez protegido por uma janela de vidro, vi a cena descrita acima se desenrolar na rua.
Mais velho, quando li o poema “O bicho”, de Manuel Bandeira, eu o entendi de prima. Talvez venha daí minha opção pelos trabalhadores, pelos mais necessitados. Infelizmente, com cada vez menos ingenuidade. Pois, se tudo se corrompeu, por que não se corromperiam os que mais necessitam?
“Estamira” você encontra no YouTube; “Something better to come”, na plataforma Sesc Digital, que é gratuita, diga-se de passagem.
Imagem do post: Divulgação do filme “Estamira”
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.







