De como não fui músico

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Por Antônio Oswaldo (Tuninho) – advogado

Em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, há um capítulo intitulado ‘De Como Não Fui Ministro de Estado’. O capítulo não narra coisa alguma, apenas se reveste de incontáveis travessões até o final da página. Machado foi inovador ao longo de toda a obra e não é à toa que muitos o consideram o precursor seminal do “realismo fantástico” na literatura, Vargas Llosa à frente.




Sempre gostei do título do capítulo e dele eu me aproprio agora. Porém, ao contrário do “Bruxo do Cosme Velho”, tenho algo a narrar, sim.

Eu estava na casa dos doze anos, quase treze, e, influenciado por Chico, Edu Lobo, Caetano, Gil e outros gênios da nossa música popular, decidi que seria músico. Convenci meus pais a comprarem um violão e através de amigos obtive o telefone de uma professora.

E lá fui eu para a primeira aula, na casa da tal professora, todo animado! Já nascia ali um músico, ora se nascia!

A porta do apartamento se abriu e uma belíssima jovem apareceu, olhos verdes faiscantes, minissaia. Eu tremi, gaguejei meu nome e entrei.

Ela sentou-se diante de mim com um violão. E eu, transbordando de hormônios que naquela idade começavam a pulular desenfreados, continuava trêmulo.

A moça tentou me ensinar O QUE SERÁ, duas posições simples no violão. Acontece que ela cruzara as pernas alvas diante de mim. Com a cumplicidade da minissaia, a exposição das belas coxas ia ao limite.

E a jovem professora (vinte e poucos anos) insistia: “Antônio, eu disse primeiro lá, três dedos, assim…” e mostrava no violão dela.

Mas as pernas da beldade ali estavam, cruzadas. Segundo a minha mente delirante, afogada em hormônios, tudo em mim denunciava uma desejo imenso. E quando ela sorria, parecia zombar: “apaixonou-se, menininho”?

Enfim, a jovem professora se cansou e pediu que eu treinasse em casa. Fim da primeira aula.

Na segunda aula, tudo se repetiu. Ela já não sorria e me olhava, aflita e desanimada, como quem olha para um retardado. Terceira, quarta, quinta aula e a maldita minissaia e as pernas alvas lá estavam, sempre cruzadas no limite.

Não quis mais aula alguma, pedi a meus pais que dissessem sempre que eu não estava, caso a professora ligasse. Até que ela não mais ligou.

Hoje, sou um funcionário público aposentado. E às vezes me pergunto se aqueles olhos, aquelas pernas me salvaram ou me condenaram.

Foto: ator Scott Tiler no filme “Era uma vez na América, interpretando Noodles quando jovem, papel vivdo por Robert De Niro

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