Dê, o 10 dos Veteranos do Gericinó

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E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, virou atleta de futebol. Atleta de “pelada” como nos conta Aqui. Pelo que observa os companheiros e adversários, nos parece que mais olha do que joga.

Apita o árbitro:





Acabei entrando para o grupo de jogadores veteranos do Gericinó, parque da Beija-Flor. Eu, aos 54 anos, não posso dizer que seja “gato”, que tenha adulterado a minha idade. Confesso que talvez eu seja um dos mais jovens da patota. A média é 60+, mas já teve jogador de 77 anos, acreditem se quiser, que dava pique, esporro, o escambau a quatro. Era salvo engano, PQD reformado. Zagueiro tipo beque de subúrbio.


Os Veteranos do Gericinó se reúnem toda quarta-feira de manhã para jogar a sagrada pelada. O futebol era para ser das 7h às 9h, mas a gente perde um tempo colocando as redes e a faixa, fazendo o sorteio dos times, distribuindo os coletes, aquecendo.


Antes da bola rolar, faz-se uma roda para as orações e outras recomendações. A preocupação é com a integridade física dos atletas. Nada de carrinho, por favor; é melhor maneirar nas chegadas etc. e tal. Afinal de contas, não somos crianças.


As partidas começam mesmo por volta das 7h30. No mais, é futebol como em qualquer outro lugar do mundo: se joga para ganhar, com as manhas e as artimanhas que envolvem o jogo. Quem ganhar fica. Empate, saem os dois times. Se um time tomar mais de três gols, está fora.


Há muitos jogadores bons, mas eu tenho afeição pelo futebol do Dê. Além de bom de bola, de ter a cara do Zidane, ele é uma figura: líder, bom coração, nada bobo; sujeito que não se deixa intimidar, e que tem uma inteligência tanto nos pés quanto no trato com as palavras que me impressiona.


Ele é da igreja, mas já deixou passar feito um corta-luz o tempo em que ele freqüentava terreiros e quando tinha que encarar seu Zé Pilintra. “Era o seu Zé ir embora para a gente poder beber cerveja, fazer farra”, disse ele.


Dá gosto jogar com o Dê. Parece futebol de verdade, não uma mera pelada de coroas. Ele toca de primeira, se movimenta, se finge de morto, cai pela direita, faz gols e jogadas que exigem um raciocínio acima da média. Tem um quê de poesia no futebol dele? Sim.


É verdade, que com Quinho Gonzales, zagueiro, também é assim: parece mais jogo do que pelada. Há nele um entendimento profundo do sentido do jogo, de como perder ou ganhar pode estar nos detalhes.


Tem um pouco de prosa no futebol do Gonzales, que é muito preocupado com a parte física do jogo. É um cara que malha bastante. Aliás, tem muita gente que joga bola conosco que faz exercícios físicos regularmente, como manda o figurino. Acho que esse pessoal todo suporta uma prorrogação.


Eu vou me lembrando das coisas. Foi o Moisés, o pastor responsável pelas orações antes do jogo, que me levou para esta pelada. Ele um dia me viu jogando na quadra pequena do Gericinó e falou que tinha um futebol às quartas de manhã lá no Campo Grande, que era para eu aparecer por lá. Como eu estava de férias, eu fui. É bom você jogar com as pessoas da sua faixa etária, pensei comigo, e eu estava certo.


Devido ao trabalho, eu só jogava quando possível: se não eram nas férias, era num feriado na quarta. Era pouco, mas era o que dava. Neste segundo semestre de 2025, para minha grande alegria, consegui organizar meu horário de trabalho de maneira que a manhã de quarta ficasse livre. Aí passei a freqüentar o futebol do Gericinó com mais regularidade.


Teve aquele dia em que qual tal num duelo disputaram um contra um Dê e outro rapaz cujo nome não sei. Ele joga com proteção nos dois joelhos. Ele é habilidoso, mais novo que a gente, não deve ter chegado aos cinqüenta ainda. Quer dizer, novo demais, né? Daí eu chamá-lo de rapaz. Ele é gato.


Pois bem, houve uma disputa no “one-xis-one” entre ele e Dê. Ele ganhou. Fez o gol de calcanhar, depois de ter tirado o Dê para dançar, indo para lá e para cá com cortes curtos. O pessoal de fora cornetando, é claro, pois, tão divertido quando jogar bola é observar em seu ofício os corneteiros, que não jogam uma partida, mas criticam com fúria de torcida organizada.


Retomando o assunto, o jogo continuou. E não é que lá pelas tantas o Dê tentou dar um ovinho no rapaz bom de bola? Ficou no quase, mas houve a malícia, algo que ilustra como o Dê é no futebol.

O adversário não tinha se atentado para a jogada que o Dê tramou, foi surpreendido. Foi por pouco.
A gente, que estava de fora, ficou meio sem entender por alguns momentos. O quê? Se aquela bola passa entre as pernas, meu amigo, eu não sei se descreveria a jogada nos detalhes para vocês.

Algumas jogadas são grandes, mesmo não tendo ocorrido. O maior exemplo é aquele não-gol do Pelé na Copa de 1970.
É que o craque, senhores, antevê.


Eu poderia falar do grupo do Zap dos veteranos, mas aí seria devassar demais a intimidade da gente. Por enquanto, apenas digo que no grupo não se posta nada de política. Quanto a esse aspecto, parece até o Politheama. É amor ao futebol e pronto.

Sobre o autor

Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.

Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.

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