Editorial do Grupo Mundial News de Comunicação
Abstenções, brancos e nulos revelam um eleitorado que não se reconheceu nas opções apresentadas — enquanto Lula e Flávio Bolsonaro avançam para o segundo turno.
Há um número das eleições de 2026 que não deveria passar despercebido.
No primeiro turno, o Brasil teve 27,5 milhões de abstenções, além de 2,3 milhões de votos brancos e 3,67 milhões de votos nulos. Somados, são aproximadamente 33,47 milhões de eleitores que não produziram um voto válido para a Presidência, cerca de 21,1% do eleitorado apto. Os dados são do Tribunal Superior Eleitoral.
É um contingente maior do que a população de muitos países. Mas é preciso cuidado para não transformar esse número em uma conclusão que os dados não permitem. Quem não foi votar não necessariamente rejeitou os candidatos. Quem votou branco não necessariamente protestou. Quem anulou o voto também pode ter tido razões diferentes. O TSE deixa claro que brancos e nulos não são transferidos para nenhum candidato e não interferem na contagem dos votos válidos.
Ainda assim, o fenômeno merece ser discutido.
A eleição colocou frente a frente, no segundo turno, Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Flávio terminou o primeiro turno com 56,1 milhões de votos, enquanto Lula obteve 53,9 milhões, considerando os dados divulgados pelo TSE com 99,99% das urnas apuradas.
O resultado mostra uma disputa eleitoral extremamente concentrada — mas também expõe aquilo que não aparece imediatamente na fotografia dos dois primeiros colocados: milhões de brasileiros ficaram fora da escolha por um voto válido.
E aqui está o ponto que deveria incomodar todos os lados do espectro político.
Não basta perguntar quem ganhou e quem perdeu. É preciso perguntar por que tantos eleitores não chegaram a escolher nenhum candidato.
A abstenção pode estar relacionada a fatores muito diferentes: dificuldades de deslocamento, problemas pessoais, desinteresse, descrença na política, impossibilidade de comparecer ou simplesmente outras circunstâncias individuais. Já os votos brancos e nulos são escolhas feitas dentro da própria urna e também não podem ser tratados como se representassem uma única corrente política.
Por isso, seria um erro transformar esses 33 milhões de pessoas em um suposto “terceiro candidato”. Mas seria igualmente um erro ignorá-las.
O segundo turno e o desafio da representação.
Com Lula e Flávio Bolsonaro no segundo turno, a campanha entra em uma nova etapa. A questão central passa a ser como cada candidatura dialogará com um eleitorado que não é formado apenas por militantes e apoiadores.
Existe uma parcela expressiva de brasileiros que não votou em nenhum dos dois nomes que estarão na disputa final. Essa realidade não pertence exclusivamente à esquerda nem à direita. É um desafio para a política brasileira.
A democracia não está automaticamente “em risco” porque houve abstenções, votos brancos e nulos. O processo eleitoral segue as regras constitucionais e eleitorais, e o TSE disponibiliza os dados da votação, inclusive boletins de urna e informações sobre comparecimento e abstenção, para consulta e fiscalização.
O risco democrático, quando discutido seriamente, precisa ser associado a questões concretas: respeito às regras eleitorais, liberdade de escolha, funcionamento das instituições, transparência, direito à informação e participação cidadã.
A grande pergunta deixada pelo primeiro turno, portanto, talvez não seja apenas quem vencerá o segundo turno.
É outra: quantos brasileiros ainda se sentem representados pela política que lhes é oferecida? Essa pergunta não tem dono ideológico.
E talvez seja justamente por isso que ela precise ser feita.







