“Diga ao povo que fico”

Compartilhe:

Essenciais em nossas vidas, amizades merecem muito mais: inclusive o direito de acabar

Por Júlia Pessôa, compartilhado de Projeto Colabora

Foto: Entender que amizades importantes acabam é uma das tarefas mais difíceis da vida adulta (Foto: Freepik)

Eu sempre acho um pouco de graça quando vejo esses carrosséis de perfis descolados do Instagram contando o grandessíssimo segredo de que “suas amigas também são o amor da sua vida”. Não que a gente não precise ouvir e ler. Como mulher millennial de 40 anos, passei boa parte da vida sendo bombardeada por produtos da cultura pop que prometiam o amor da vida num esbarrão atrapalhado com um homem branco e hétero.




Dá pra compreender que a gente tenha sofrido uma microlavagem cerebral e comprado a ideia de que o amor romântico é o único preenchimento possível da vida. Mas, embora eu tenha visto O Diário de Bridget Jones mais vezes do que deveria, nesse golpe do romance se sobrepor às amizades eu nunca caí – pelo menos não conscientemente. Venho de uma família grande e barulhenta, em que amigos da juventude da minha mãe e minhas tias foram sendo agregados à aldeia. São meus tios e madrinhas, parte indissociável do que me torna uma pessoa. (Uma Pessôa, no meu caso. Perdão, não resisti).

Mesmo quando passei por um relacionamento extremamente abusivo, eu sabia que estava preterindo algo fundamental quando não priorizava minhas amizades. E essa história de afastar mulheres das pessoas importantes para elas é mais velho que andar pra frente. Silvia Federici conta, em A história oculta da fofoca, que desmerecer laços femininos sempre foi um projeto. Quando a palavra gossip (fofoca), que nomeava vínculos íntimos entre mulheres, vira sinônimo de conversa fútil, não estamos mais no campo da semântica, mas de uma estratégia.

No fundo, é um golpe de mestre: você enfraquece alianças, isola mulheres em relações heteronormativas onde o trabalho doméstico e emocional é gratuito, e ainda convence todo mundo de que o problema é que elas “falam demais”. O perigo dessa narrativa é que ela nos rouba o tempo e a coragem de cultivar os laços que importam.

Toda minha vida adulta foi ancorada nas amizades. Minhas conquistas e perdas foram divididas com pessoas que se tornaram minha proverbial família escolhida. Tenho uma pequena multidão na minha contenção, pronta para me aparar na queda ou comemorar meu voo. E eu também estou lá por elas.

Mas há um perigo (como tudo que é bom na vida): cair no engodo da amizade eterna e incondicional é tão aprisionante quanto o “felizes para sempre”. Se as amizades são laços de liberdade, elas precisam ter a porta de saída sempre destrancada.

Eu ponho tanta fé nas amizades que sou defensora do direito inalienável de que elas acabem. Entender que amizades importantes acabam é uma das tarefas mais difíceis da vida adulta. Compreender que vale muito mais quem fica podendo ir do que a cobrança ou expectativa de algo incondicional. A vida é condicional. E a perspectiva de finitude não anula o que foi vivido; pelo contrário, dá a ele a dignidade do real. O polo oposto de subestimar as amizades é romantizá-las demais e mantê-las a qualquer preço. Ainda que ao custo da saúde mental e da autoestima. Quem nunca?

Frida Kahlo já aconselhava a gente a demorar onde pode amar e se sentir amada. E assim surgem os “amigos de uma vida”: eles vão demorando. Mas só demoram de verdade porque sabem que têm o direito de partir. Quem sabe, sabe.

O Bem Blogado precisa de você para melhor informar você

Há sete anos, diariamente, levamos até você as mais importantes notícias e análises sobre os principais acontecimentos.

Recentemente, reestruturamos nosso layout a fim de facilitar a leitura e o entendimento dos textos apresentados.
Para dar continuidade e manter o site no ar, com qualidade e independência, dependemos do suporte financeiro de você, leitor, uma vez que os anúncios automáticos não cobrem nossos custos.
Para colaborar faça um PIX no valor que julgar justo.

Chave do Pix: bemblogado@gmail.com

Categorias