Entre vaias e reconhecimento, o texto reflete sobre paradoxos da arte contemporânea: a valorização da rejeição e a tensão entre obra, crítica e mercado na definição do que hoje chamamos de arte.
Por Enio Squeff, compartilhado de seu Blog
As discussões sobre a arte contemporânea, possivelmente ocupam um espaço muito maior do que aquele que concedemos como sendo realizações completas e que se mantêm nos suportes tradicionais. O discutível certamente engloba o que a arte contemporânea considera o máximo de suas realizações: não apenas as instalações que perfazem um sem-número de manifestações, mas toda a arte chamada “de vanguarda” que se expressa, em última análise, no conceito – a arte conceitual.
São expressões caras a um mundo reificado. Se à arte tradicional concedemos, máxime, existir nos museus, o resto – a arte que persiste em se autointitular de “vanguarda”, essa se mantém, não obstante cumprir-se em seus salões (muito mais oficialmente fechados do que qualquer arte acadêmica em qualquer tempo) – um processo iniciado sob vaias há pelo menos mais que um século – e que muito dificilmente vem encontrando maior respaldo junto ao grande público.
Já não vivemos mais num mundo em que a ameaça são as vaias. Conta Igor Stravinsky que após a famosa estréia da sua “Sagração”, em Paris, em 1913, ele Diaghilev, Nijinsky e alguns amigos a mais, não fizeram senão por sair do teatro enfurnar-se num restaurante e tomar um porre. Talvez, no fundo, os animassem mais que tudo os apupos. Desde que Manet teve contra si grande parte do público que se desagradou aos gritos e às ameaças de bengalaços, perante a sua “Olympia”, impôs-se aos artistas – como uma espécie de corolário ao sucesso – as desconsiderações públicas. Quanto maior a reação hostil na estréia, mais estrondoso seria o sucesso mais tarde, talvez, quem sabe, quando o artista já velho, pudesse ver reconhecido, por fim, o seu labor.

O Retrato de Gertrude Stein (1905–1906)
é uma das obras mais célebres de Pablo Picasso,
marcando a transição do artista para o cubismo.
O fracasso como corolário do êxito posterior deve também ter se colocado que tal para os artistas de 22 no Brasil. Como responderia derrisoriamente Picasso aos que lhe objetaram não ser parecida com Gertrude Stein o retrato que ele acabara de fazer da escritora e às quais ele respondeu que ela, Gertrude Stein ficaria, por fim, parecida com o quadro, os artistas modernos passariam a encarar com naturalidade e até a ansiaram ser estreados por vaias. Elas se transformariam em aplausos ao fim e ao cabo de algum tempo. O retratado ficaria parecido com o retrato.
O assunto é conhecido e recorrente. Ao grande público, inclusive, já foi estendida essa parte da história. Como no enredo do drama do Crucificado, após algum tempo se repararia a injustiça da crucifixão. E Cristo, afinal, ressuscitaria dentre os mortos.
Na arte, o paradigma parece ter se estendido a todos os artistas dignos do nome: quanto mais se expusessem à chacota pública, tanto mais suas obras mereceriam o respeito da posteridade. O cultivo da vaia passou, assim, por sua vez, a ser uma espécie de mote desejável a qualquer nova manifestação artística. Como diria alguém sobre certos eventos “festas que se prezem têm sempre de ter um penetra conhecido”. É próprio do mundo contemporâneo acoitar a vaia do presente, em nome do reconhecimento do futuro. Talvez, quem sabe, pudéssemos pensar no processo como quase uma tese; seria “de bom tom” que qualquer livro, música ou obra de arte, tenha contra si – e como princípio – uma primeira reação contrária.
No fundo, trata-se de mais uma discussão e não de qualquer obra de arte ou manifestação. No mundo da arte reificada pelo mercado, não ser turbado pela vaia, equivale a uma declaração de fracasso pela posteridade.
É verdade que não existem muitos textos críticos hoje em dia nos jornais. A reação agressiva de quem quer que seja a um livro, um concerto ou a determinada exposição, já não é motivo para crítico algum botar defeito – mesmo porque eles só existem para celebrar – não para dizerem o que consideram um fracasso. Já não nos espantam a indiferença dita pública – leia-se da grande imprensa. Uma vez que determinada obra não responde nada a sua desimportância prevista – o que não lhe suscita nada, deve ser para todo o sempre.
Sob este aspecto, quem sabe, o melhor da vanguarda é que ela se considera em princípio, sempre alvo de vaias – mesmo que elas não existam. Daí também a idéia da arte como sucedâneo, em princípio, principalmente da rejeição pública. A perspectiva é que, de qualquer maneira, a arte ou será objeto de repúdio — e aí se supõe que o seja — ou não será o que pretende: arte.
Talvez o assunto tenha, mais uma vez, a ver com os textos constitutivos de toda a manifestação; eles se oporão, ou acrescentarão ao que até ontem era em si, a despeito do que se lhes apusesse. Fala-se de qualquer manifestação artística. Não se tem em percentagem, quantas obras hoje magnificadas nas paredes e nos pedestais de museus, encontraram, de cara, a admiração pública. Mas, se tomadas na totalidade das obras consideradas como dignas que tais, serão poucas na amplitude de um acervo histórico devidamente aceito como tal, que antecederam a sua entronização, por fim, no repertório normal.
Até bem pouco, em princípio, o estranhamento para qualquer peça de arte – fosse uma música, uma pintura ou um espetáculo de dança (e as expressões terminológicas tradicionais já dizem do que se trata), de um modo geral, deu-se sempre, ou quase sempre, em função da novidade pela peça apresentada. A categoria do “novo” como que esplendeu para a condição “sine qua non” de qualquer manifestação artística.
Ora, a questão da conceituação da novo – ou da sua divulgação como tal – existe, sobretudo, truisticamente, como conceito. Quando se exige de uma expressão que ela se faça “verbo” – em palavra escrita – talvez justamente a sua novidade, seja a primeira questão posta à prova. A peça plástica, ou a obra de arte, só seria considerada não em si – mas pelo luminar do texto que a acompanha.
Parece haver aqui, de um lado uma redução da obra não literária. Quando Beethoven repudiou que sua sinfonia Pastoral, fosse uma descrição da natureza – ele dizia que se tratava dos sentimentos despertados pelo mundo natural e não a sua “descrição” o que supunha qualquer literatice em torno da sua música – ele enfatizou o que já existia antes: a música existe por si. Por isso os tais “sentimentos” que ele reivindicava para a sua música e que seriam despertados musicalmente pela natureza. A poesia prescindiria da música para se expressar como era. Por mais musical que seja, um poema de Drummond , de fato, não se supõe que seja transformada em canção – pode acontecer, mas, como poesia, ela prescindirá do aporte musical.
A outra questão, parece correlata a essa. Todas as artes, quaisquer delas, estreitaram-se – ou se quisermos – alargaram-se em si mesmas. O balé sem o suporte da música, afigura-se o caso – mas assim também a tela da arte dita “tradicional”. Fala-se daquela que está nos quadros, que recebe o nome de pintura e que efetivamente se propõe a isso. Fala-se também do que está imbricado à história.
Pablo Picasso (espanhol, 1881–1973). Gertrude Stein, 1905–6. Óleo sobre tela, 100 x 81,3 cm. The Metropolitan Museum of Art, Nova York, Legado de Gertrude Stein, 1946. (47.106)
© 2019 Espólio de Pablo Picasso / Artists Rights Society (ARS), Nova York
Texto de 2012, da série Guardados, de Enio Squeff.







