“Mas será o Benedito?” III: O dia em que perdemos para a Itália

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E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, nos apresenta o terceiro texto da série “Mas será o Benedito?”, sobre futebol infantil e sonho. Neste episódio, o sonho que virou pesdadelo na chamada Tragédia de Sarriá, quando, na Espanha, o Brasil perdeu a Copa do Mundo de 1982 para a Itália.

Beija-Flor, 5 de março de 2026.

Quem poderia acreditar que Riquinho estaria de posse de uma camisa oficial da seleção de 1982, com assinatura de Zico e tudo? Era um sonho? É certo que o Riquinho era o garoto mais rico da rua, o que morava num sobrado todo reformado, com piso de tábua corrida, com som último tipo, com Atari, com quadra de squash e piscina. Para vigiar sede social de seu clube particular, Rico tinha um cachorro pastor alemão chamado Rex. Benedito, não se sabe se por inveja ou se por espanto, achou um pouco estranho o tecido da camisa. Ao passar-lhe os dedos lhe pareceu a textura algo como isopor, como a caixa de um ovo.





Uma camisa oficial era quase tão sobrenatural quanto um ovo, é bem verdade. Mas isso não seria rebaixar o tecido da camisa, não era dizer que a tecnologia ainda não tinha avançado tanto assim?


Todo mundo boquiaberto e tal quando Bamba disse em voz alta que um dia ele vestiria uma camisa como aquela, a 10. Que um dia ele jogaria no exterior, que um dia ele seria eleito o melhor jogador de futebol do mundo. Todos sabiam que bola ele tinha para sonhar assim.


Os meninos da rua jogavam bola sem camisa, com a camisa enrolada no braço, muitas das vezes. Poucos eram os que tinham camisas de clube, que eram de algodão, da Hering. Quem tivesse um short da Quebec já estava no lucro, o que dirá uniforme oficial.


Só o Dodge, da família do Bamba, usava camisa da Adidas e tênis Rainha Iate. Nem o Rico tinha, pra você ver. O Riquinho usava docksides da Samello. Originais.


Dodge era do bicho, como se dizia, de três-oitão na cintura por debaixo da camisa de treino. Ele, nem dezesseis anos, já tinha fumado, já tinha se deitado com mulher, já tinha batido de frente com os vermes, já tinha tatuagem, já tinha perdido alguns dentes e arrancado outros dos vacilões com soco inglês.


Nós tínhamos medo dele quando ele passava na rua gingando com olhar de crocodilo. Ele ficava assim de longe olhando a pelada.


Pois é, para ser do bicho, quando estivesse no asfalto, tinha que estar de camisa da Adidas e de Rainha Iate, e não dar mole pra ninguém. Quer moleza, senta no pudim. Aliás, era Dodge ou Toddy? Como é que ele se chamava mesmo? Até Bamba, que era parente, não sabia dizer qual era o apelido do Fernando Luiz da Silva Pinto. Até o Bamba fazia confusão: trocava Dodge por Toddy.


Do fatídico jogo contra a Itália, do dia em que perdemos a inocência, Benedito parece ter guardado estranhamente na memória a imagem da camisa rasgada de Zico. Além dos gols. Isto é, ele não guardou nem o início nem o fim do jogo. Não guardou a decoração da rua, os desenhos nos muros, as bandeirinhas na cobertura do prédio, as pessoas de amarelo ou de verde, não guardou nada, era como se tudo tivesse sido apagado, como se não houvesse videotape íntimo.

Ele não poderia precisar se assistiu ao jogo em casa com seus pais ou em outro local. Jogo, que jogo? Tio Ivo, onde estaria o tio Ivo nessa história toda, cadê seu Ivo, ele talvez tivesse algo a dizer que confortasse o coração de Benedito, que ardia em chamas. Será que até ele chorou baixinho?


Quando saiu à rua, bem mais tarde, Benedito topou com Vandeca Meleca, Bujão, CasaMalte e Tiquinho, que já queria ser chamado de Paolo Rossi. Está certo, não havia mais o que fazer. Vamos jogar bola. “Volta, canarinho, volta”. Muita gente assumiu a autoria daquele samba de retorno. E lá foram eles jogar.


Um tempinho depois da pelada ter começado chegou Bamba e demonstrou por que ele, e somente ele, poderia pleitear uma vaga em uma seleção brasileira no futuro. Como jogava bola o Bamba.


A meninada jogou até cansar. Até ficar com aqueles anéis sujeira em volta do pescoço, até dar caraca em todas as dobras do corpo. Jogaram para esquecer que há certa distância entre o sonho e a realidade. Jogaram para esquecer que os deuses do futebol são caprichosos. Jogaram para esquecer que a Itália também era um time poderoso.


Depois da pelada, Bamba chamou Benedito num canto e lhe disse que Dodge iria tomar um chá de sumiço por uns tempos. Tinha voltado pro Norte. Bamba parece ter dito o que disse com um tom de alívio, como se de alguma maneira o destino de Dodge atrapalhasse o seu.


Eis a primeira versão, a que vale para Bené. Mas ele ouviu também de outras fontes que Dodge tinha sido preso, tinha sido morto, que tinha assumido uma boca de fumo, que era o rei do morro, que tinha deixado de usar Adidas e Rainha Iate, que tinha colocado uma bíblia embaixo do sovaco, que tinha se regenerado quando descobriu que nem mesmo Zico tinha o corpo fechado. A camisa rasgada. Dali em diante ele seria o pastor Fernando dando seu testemunho. Outra história começara.


De quando em quando, Benedito sonha que Dodge passa a bola para Bamba, que, depois do overlap, cruza na medida para Bené marcar de cabeça o gol que dá a classificação para o Brasil. O empate era nosso. E aí o Zico aparecia, com a camisa 10, autografada por ele mesmo, a camisa do Riquinho. O Zico com a cara do Bamba.

Foto: Reginaldo Manente para o Jornal da Tarde, de São Paulo

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