Por Walter Falceta, jornalista
Os pequenos retalhos da tragédia revelam uma verdade perturbadora: a operação do Estado miliciano ceifou vidas de trabalhadores que nunca tinham passado por uma delegacia.
Quem vai devolver a vida do tiozinho que fazia e vendia empadinhas?
Quem vai devolver a vida do motoboy que estava entregando um remédio de farmácia?
Quem vai devolver a vida do sujeito da construção civil que tinha ido visitar a irmã?
Quem vai devolver a vida do rapazinho que, na hora errada, consertava uma motocicleta?
Quem vai devolver a vida do pai de família que, como eletricista, estava lidando com o 220 para instalar um chuveiro?
A tática do bolsonarismo miliciano, agora, é divulgar listas de pessoas que, supostamente, tinham “passagens” pela polícia.
Como se isso fosse justificativa:
1) para determinar que todo “fichado” era realmente um criminoso;
2) que todo fichado mereceu a pena de morte executada pelas “forças da lei”.
A verdade é que, diante do governo do Rio de Janeiro, nem todos são iguais perante a lei.
Nesse contexto de racismo estrutural, uma vida branca de classe média do Leblon vale mil vezes uma vida negra do Complexo da Penha.
E essa distinção macabra vale também para a mídia corporativa, especialmente para as Organizações Globo, que decidiram naturalizar a tragédia, compondo casamento incestuoso com o bolsonarismo.
O Estado Democrático de Direito não deve ser invocado somente em casos de golpismo político-institucional, mas também em todas as ocasiões em que estiverem ameaçadas as bases da justiça cidadã.
Especialmente, quando a diferença entre o “fazer” e ou “não fazer” definir estados irreversíveis do “ser”: a vida ou a morte.
E isso vale também, sim, para os policiais que perderam a vida nessa operação ilegal, vergonhosa e desastrosa.
Porque as direitas mundiais precisam de heróis, de vítimas e de mártires. Tiraram o sopro fundamental de quatro funcionários públicos para justificar o injustificável e obter o endosso público ao massacre.
Enquanto nação, estamos TODOS derrotados neste momento.
E o poder público precisa, URGENTEMENTE, devolver o moço das empadinhas e seus pares, assim como todos os que, mesmo na delinquência, mereciam o crivo civilizado da Justiça.
Só se termina uma exigência assim com a frase lapidar de Albert Camus:
“A violência é sempre uma derrota.”







