Por Lourenço Paulillo, poeta e cronista, inspirado em seu sítio nas redondezas da Grande São Paulo
Os dias já amanhecem quentes, as cigarras orquestradas em concerto.
Os sabiás constroem seus ninhos no topo das colunas da varanda. Devem intuir que esse lugar é protegido dos temporais e das ventanias.
Pela manhã o céu é azul e, se houver nuvens, são de um branco reluzente. Mas subitamente vão enegrecendo e se avolumando. No fim da tarde despencam em aguaceiro, em meio a assustadores raios e trovões.
Com a chegada das águas, as hortênsias ficam deslumbrantes, salpicando de azul o verde ao redor.
Já as brancas e perfumadas gardênias têm vida breve. Pouco resistem ao calor, em poucos dias ficam amareladas e logo de tom marrom, secas.
Também festejam as vermelhas helicônias e as marias-sem-vergonha. Os tinhorões, após longa hibernação, ressurgem com suas folhas coloridas.
Os cães ficam preguiçosos e procuram se acomodar nos cantos mais frescos e sombreados. Dormem por longas horas.
Ao anoitecer, as luzes ficam rodeadas de besouros, com seu incessante zumbido. Lembram as mariposas do Adoniran.
E os vaga-lumes recriam os pisca-piscas das árvores de Natal.
Se houver tempo para relaxar, surge a ideia de planejar as prioridades para o novo ano, mesmo sabendo que isso é fogo de palha. Em poucos dias volta tudo ao que era antes e eles caem no esquecimento.
À noite os sapos, que andavam sumidos em suas tocas, voltam a povoar as varandas. Se não ficarmos atentos, chegam a adentrar a casa.
É tempo de férias escolares. Ouve-se ao longe o alarido dos pequenos da vizinhança.
Já os arredores do colégio próximo estão mais silenciosos, sem a presença dos alegres e irrequietos adolescentes.
É janeiro. Vamos curti-lo desde o primeiro dia, pra depois não dizer:
Ah! Como passou depressa!
É aproveitar pra tirar das gavetas as roupas mais leves, deixar os pés respirarem à vontade, tomar uma limonada, descontrair o quanto possível.
Fazer tudo isso de imediato, porque sim, janeiro vai passar depressa.
Por isso já comecei a escrever. Sem compromisso, em clima de verão.
Foto: Washington Luiz de Araújo, bairro do Rio Pequeno, São Paulo







