E não é que baixou São Jorge ou Ogum (São Sebastião?) no doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”?
Eu não creio, mas que Ogum existe, existe. Se me permitem, conto estas histórias.
Eu tinha uns doze anos. Era o meu último dia no apartamento de Vila Isabel, no dia seguinte a gente iria se mudar para o Engenho Novo. Eis o motivo pelo qual as camas estavam desmontadas, o armário desmontado, tudo encaixotado. Enfim, a casa estava preparada para a mudança. Eu dormia no meu quarto, no colchão, quando senti alguém me cutucar. Eu só vi o braço e algo como uma capa vermelha. Logicamente eu morri de medo. Doze anos… criança ainda… vendo a assombração! Foi uma sensação tão forte que até hoje dela eu não me esqueci.
Outra vez eu estava em centro espírita tomando uns passes, limpando os chakras, e senti algo como choques elétricos nas costas. Enfim, eu estava nesse centro espírita e senti aquela vibração toda, e aí a pessoa me disse que o meu anjo da guarda era um soldado romano. Dali em diante, eu associei esse cavaleiro a São Jorge, o cavaleiro de São Jorge, para todos os efeitos.
Mas também é curioso pensar em São Jorge enquanto Ogum, porque de onde venho Ogum é São Sebastião. Minha família vem do Nordeste e eu acho que na Bahia, e a Bahia tem uma influência muito grande nessa Seara, eu acho que se considera Ogum como São Sebastião. Eu cheguei a ler uma entrevista de Caetano Veloso para o Pasquim falando sobre isso.
Não sei se estou enganado ou me enganando, mas é assim esta crônica meio sobrenatural. Tudo isso vem a reboque porque 23 de abril é um dia importante para as religiões de matriz africana.
Isso tem muito a ver também com as imagens de um centro espírita chamado “Caminheiros da Verdade” que fica lá para as bandas da Abolição. A minha mãe o freqüentava. “Frequentar” não é bem a palavra correta. Minha mãe era uma pessoa ecumênica, avant la lettre. Ela não frequentava, ela ia e me levava. Pronto.
Era mais ou menos nessa época da mudança, eu na faixa dos doze anos. Eu não sei com quem ficava o meu irmão. Eu fui algumas vezes com ela e com o meu pai, não me lembro do meu irmão ter ido. Seja como for, eu adorava esse centro espírita, porque, além das sessões, muito animadas, havia umas imagens imensas, em tamanho natural, de Omulu, de São Sebastião e também de São Jorge. Montado em seu cavalo o SJ, como manda o figurino.
Além de toda aquela gente de branco, de toda aquela cantoria, de todo aquele cheiro de defumador, de charuto, nessa época se fumava muito inclusive nos terreiros, havia um lugar de predileção: a cantina! Para uma criança, a cantina era uma benção, porque eu ia para lá e pedia um doce de amendoim, que era do tamanho de um sabonete, e bebia Crush ou Grappette. Ali não se vendia Coca-Cola.
E assim a lembrança que eu tenho dessa época é de beber Crush e Grappette naquelas garrafas de vidro em cacarecos. De modo que se, no dia 23 de abril, se eu não beber, eu vou procurar abrir um Grapette, um Crush, um Mineirinho. E se eu topar com meu anjo da guarda, antes de ele me cutucar, eu vou levá-lo para provar uma Pepsi sabor de sabão, bebida que só é possível encontrar Em Maceió, Alagoas.
Meu prazer de feijoada eu guardo e resguardo para o dia Sete de Setembro, que não é a Feijoada de São Jorge, mas do Jorginho, meu cunhado. Praticamente a mesmíssima coisa, só que na tradição árabe. E como não dispenso um bom feijão nem um bom papo com os meu amigos de ala, eu vou lá na minha comadre Laurenice, se Deus assim me permitir, Amém, depois de ver a estréia do filme do Michael Jackson com a família.
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.







