Eleições: a Arte de Refazer

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Por Ulisses Capozzoli, jornalista

Fizemos o bom combate, mas ainda não foi desta vez. Vamos tentar a próxima. (…) Não podemos, e esse é o desafio pela frente, nos rendermos à apatia, indiferença, comodismo. Tudo está por fazer e devemos arregaçar as mangas mais uma vez. Até porque, de muitas maneiras, não temos alternativa para viver a vida breve que passamos por aqui, nesta terceira pedra do sol.




Fizemos o bom combate, mas ainda não o suficiente. Então é preciso retornar e retomar, como se fosse a primeira vez. Uma única batalha não define os resultados de um combate mais amplo, duradouro e desafiador. As coisas todas são assim. Podem dizer que é otimismo, mas não se trata disso ou daquilo, otimismo ou pessimismo. O fato é que é preciso retomar o que não foi concluído. É parte do que costumamos chamar de “realidade”.


As estatísticas apontam que um número em torno de 33 milhões (21,08% dos eleitores) não votou. Parte delas, se tivesse ido às urnas, sem dúvida teria optado pelo adversário e com isso quero dizer nosso adversário, o fascismo e os fascistas. Outra parte, possivelmente a maioria, retirada da letargia, seriam nossos parceiros de opinião. Então, desta vez, é preciso fazer com que elas cumpram o que é um direito, mas mais que isso, uma obrigação de cidadania.


A parcela da população com olhos para a complexidade é, por muitas razões minoritária, o que pode parecer visão elitista, pretensiosa. Mas é exatamente isso. A maior parte das consciências está restrita ao imediato e ao imediatismo, um olhar próximo da alienação.

Algo como uma consciência mecânica do mundo, quando o mundo é uma pulsação de sofisticada energia. As reações nucleares no coração de uma estrela, o Sol, que iluminam confortam com calor o pequeno mundo em que respiramos. O mundo que gira em torno dessa estrela viva e assim produz o dia e a noite. Em um, pequeno mundo que gira em torno da estrela, em um universo que pode não ter início nem fim, ao contrário de tudo que consideramos sob restrição cotidiana. Envolta por uma névoa espessa de completa alienação.


Fizemos o bom combate, mas ainda não foi desta vez. Vamos tentar a próxima. A diferença entre os finalistas: 47,05% contra 45,13%, o que significa uma diferença de 1,92% num cenário em que 33 milhões de eleitores que, por um conjunto de razões que vão da comodidade ao ceticismo em meio a uma enorme complexidade de outras razões.


Interessante as votações do exterior. Algumas delas, na Alemanha: Lula, 5.404, o outro, 1.320. Na Austrália, 4.562 contra 2.579. Na Arábia Saudita, 52/22. Na China, 367/203. Em Chipre, 24/20. Na Coreia do Sul, 123/72. Na Croácia, 29/17. Na Dinamarca, 1.166/195. No Egito, 46/12. Na Espanha 7.063/3.297. E no Japão 5.222/24.601. O Japão, uma grande e reacionária votação refletindo como um espelho toda uma postura frente ao mundo que renderia volumes espessos de história/mentalidade.


Na Noruega 592/198. Na Nova Zelândia 234/64. E nos Países Baixos 4.387/983. Na destroçada Palestina, agredida/destruída/mutilada por Israel e Estados Unidos 1.078/46 e em Portugal, mais equânime, mas ainda assim diferenciados 26.401/19.142. No Reino Unido 8.640/5.366 e na Turquia, para concluir uma pequena amostra, 90/30.


Ganhamos em todos esses países em que, por um conjunto de razões, é possível enxergar um cenário mais amplo e complexo da vida. Aqui, onde lamentamos uma derrota, que é temporária e pode/deve ser repelida, 56.102.908 contra os 53.870.434, que incluem meu voto e certamente o seu que também votou em Lula/na democracia. Dos meus familiares e praticamente da totalidade dos meus amigos.

Não tenho, próximo de mim, relacionamento de amizade com fascistas/fascistóides e isso não é intolerância. É diferença de interpretação, de enxergar o mundo. Além de falta absoluta de paciência da minha parte.


Vejo, na TV analistas, a quase totalidade conservadora (nem todos) apontar questões insuficientes para explicar uma situação. Essa, por exemplo, de um retorno da Direita num país que, mesmo com os avanços mais recentes, ainda se ressente de muita transformação básica, elementar. De alto a baixo. Entre elas a integração interativa/transformadora do bloco de ação geopolítica que toma forma na vida prática, o BRICS. O analista da TV, no entanto, se restringe a insignificâncias, contextos equivocados/reacionários, de que não consegue se livrar e trata de convencer os demais da mesmíssima alienação.


Não podemos, e esse é o desafio pela frente, nos rendermos à apatia, indiferença, comodismo. Tudo está por fazer e devemos arregaçar as mangas mais uma vez. Até porque, de muitas maneiras, não temos alternativa para viver a vida breve que passamos por aqui, nesta terceira pedra do sol.


Abraço a todos que votaram pela repulsa ao autoritarismo, anacronismo, intolerância e uma forma conformista de viver. Respire fundo e vamos lá mais uma vez. Por aqui, quase tudo ainda está por fazer.

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