Em algum momento, vira-se uma chave

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E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, nos conta sobre um filme que o levou às estrelas.

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo,
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…




E conversamos toda a noite,
enquanto a Via-Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e e de entender estrelas.

(Olavo Bilac)

“Beija-Flor, 10 de julho de 2025.

Hoje mais cedo vi um curta do chileno Patricio Guzman. É uma história bonita sobre dois cientistas amadores. Não é que eles conseguiram construir telescópios? Conseguiram inclusive fazer a lente, que é a alma do telescópio. O filme se chama “Los Astronomos de mi Barrio” e faz parte do material que o cineasta recolheu para fazer o documentário “Nostalgia de Luz” (2010), filmaço sobre o deserto do Atacama no Chile. Como gosto muito de Patricio Guzman, fui conferir. Poxa, quinze minutinhos.


Achei o filme uma gracinha: dois observadores de estrelas e de outros corpos celestes nas horas vagas construíram seus próprios observatórios, numa lógica de fecundo improviso. Há algo de procura de respostas para a nossa existência. A trilha sonora cria um clima dessa nossa busca humana, demasiadamente humana.


O filme revirou de leve o cascalho que estava depositado no fundo da minha memória. Foi o suficiente para eu me lembrar de alguns flashes da minha vida: quando criança, a gente brincava de astronauta, de robôs e marcianos, de viagem espacial, Além disso, a gente evitava apontar estrelas no céu, porque diziam que dava verruga. O que fiz foi juntar algumas pontas para lhes contar esta história de pescador de estrelas.
Vamos à história?


EM ALGUM MOMENTO VIRA-SE UMA CHAVE


Com um tanto de engenho mais um tanto de ingenuidade, o menino construiu, em vez de um elefante, um telescópio. Dois rolos de papel-toalha, uma lente de binóculos que ele arrumou sabe-se lá onde, tesoura fita adesiva e cola e presto! Um telescópio. Para ver de perto as formigas e as estrelas, por que não?


Isto porque, para o menino, as formigas eram seres extraterrestres nas suas fantasias de filme B. Eram elas os monstros de capacetes de bronze, de presas vermelhas, de odor característico, de Murundus, uma legião admirável. E as estrelas eram as suas formigas, formiguinhas prateadas sobre a tampa de mesa de fórmica azul anil do céu.


Em algum momento da vida, vira-se uma chave: a gente vê estrelas, mas é devido ao choque de realidade, que é quem nem bofetada nas fuças. E dali em diante a gente fica meio receoso de dizer que gostava de brincar de astronauta, que gostava de dirigir ônibus escolar debaixo da mesma mesa de fórmica azul, que nunca foi tão azul anil assim.


Todavia, o menino, em vez de se conformar, de se calar ou de ser calado, ainda se indagava: por que os laboratórios dos filmes e seriados de antigamente mais parecem perfumarias com seus frasquinhos? Quer dizer, é alquimia que se fala, não é? Por que os cientistas usam avental e mal se diferenciam dos dentistas que fazem propaganda de pasta de dente? Por que Einstein tinha bigode?


Talvez o menino quisesse ser jogador e astronauta. O menino queria visitar o deserto do Atacama no Chile, queria ir ao Chile, para ver de perto os telescópios mais formosos da América do Sul. O menino queria tocar as estrelas com as mãos, queria voltar para sua terra com os dedos indicadores assim de tanta verruga, de tanto apontar estrelas. Será que ali também havia ataques de formigas? Mas que pergunta! Que idéia para um filme! O chão dali, dizem, é coberto de conchinhas porque ali, dizem, ali já foi mar.


As estrelas fazem um chiado que no fundo é silêncio. É silêncio demais, chega a pinicar. E naquele dia que dormiram todos (a família completa) ao pé de uma cachoeira? Semana Santa, São Tomé das Letras, Minas Gerais. De dia, montanhas de cascalho de piso de piscina. À noite, quanta estrela, meu pai, tinha até estrela que caía.


Era esquisito ter visto aquilo, dava um nó no nada. O que assustava os homens de antigamente não o assustava: ele já conhecia o fogo.


Deu-lhe, súbito, dó no coração. Ele era assim, de vaivens. As sombras das crianças. São as duas pontas da existência, o menino se assombrou em pensamentos: parece que o homem chegou até lá, atravessou a linha que separa a vida da morte. O homem fez besteira. Sempre faz. Arrisca muito para obter sucesso. Pra quê? A bomba.
Nessas horas o menino sentia vontade era de ser escafandrista.


Haverá o momento em que um telescópio, com mais engenho e menos ingenuidade, será usado para observar a moça bonita do prédio ao lado por quem o menino tem sentido umas palpitações estranhas, uma espécie de “Quem sabe ela não aparece?”, vá entender. E se os olhos dos dois um dia se cruzarem? E o que pensar do tempo e do espaço depois de ter visto um fulgor assim?”

Sobre o autor

Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.

Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019),  Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.

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