Presidente foi ovacionado ao revelar como tratou George W. Bush em antigo encontro do G7
Por Ivan Longo, compartilhado de Fórum
foto: O presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Paris, na França.Créditos: Ricardo Stuckert
Enquanto o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e seu pai, Jair Bolsonaro, clamam por uma intervenção dos Estados Unidos do Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva dá uma aula de como não ser “lambe-botas” de estadunidense.
Nesta quinta-feira (5), em um evento com a comunidade brasileira em Paris, logo após ser homenageado pela Academia Francesa, Lula relembrou de uma ocasião em 2003, durante seu primeiro mandato, quando esteve em um encontro do G7 na França a convite do então presidente francês Jacques Chirac e manteve a altivez diante da chegada do ex-presidente dos EUA, George W. Bush, em uma sala onde os líderes globais estavam reunidos.
“O presidente Chirac me convidou para ir em Évian, foi a primeira vez que eu participei do G7. E eu fui a Évian, e a primeira coisa que eu estranhei é que eu cheguei com um monte de gente sentado na mesa, fui lá, cumprimentei todo mundo, e fui sentando numa mesa. Eu, o meu embaixador Celso Amorim e o Kofi Annan. Tudo normal. Aí, de repente, eu vejo todo mundo levantado da cadeira, apressado, como se estivesse caindo uma bomba. Não, era o Bush que tinha chegado. Eu fiquei impressionado”, iniciou Lula.
“Todo mundo levantou para cumprimentar o Bush. Eu falei para o Celso: ‘nós não vamos levantar’. Ninguém levantou quando eu cheguei, por que eu tenho que levantar para o Bush? Bom, eu não levantei, e o Bush foi na minha mesa me cumprimentar e sentou conosco lá um pouco. Numa demonstração de que ninguém respeita quem não se respeita. Se você quer ver esse respeito, você tem que se respeitar”, emendou o presidente, arrancando aplausos da plateia.
Lula na França
Na noite desta quinta-feira (5), Paris testemunhou uma cena marcante: a Torre Eiffel, um dos símbolos mais icônicos do mundo, foi iluminada em verde e amarelo para celebrar a visita de Estado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à França. O gesto de cortesia encerrou um dia repleto de simbolismo, no qual Lula foi homenageado pelos Imortais da Academia Francesa –tornando-se o segundo brasileiro na história a receber tal reconhecimento.
Homenagem na Torre Eiffel
“Esta noite, a Torre Eiffel veste as cores do Brasil”, escreveu o presidente nas redes sociais, ao lado de uma imagem com a primeira-dama, Janja Lula da Silva, e o casal presidencial francês, Emmanuel e Brigitte Macron. A homenagem visual, vista por milhares nas margens do Sena, foi o ponto alto de um dia que simbolizou a retomada das relações bilaterais entre Brasil e França.
Homenagem histórica na Academia Francesa exalta trajetória de Lula
Mais cedo, Lula participou de uma cerimônia privada na sede da Academia Francesa, uma das instituições culturais mais prestigiadas do mundo. Fundada em 1635, a Academia é composta por 40 membros vitalícios – os “Imortais” – responsáveis por preservar e promover a língua francesa. Raramente chefes de Estado estrangeiros são homenageados ali, o que tornou o momento ainda mais extraordinário.
Lula tornou-se o segundo brasileiro na história a receber a medalha de honra da Academia – o único brasileiro a receber a homenagem, até então, havia sido Dom Pedro II, em 1872.
“Eu queria dizer aos membros da Academia que vocês estão homenageando um cidadão brasileiro que não é acadêmico. Eu nasci numa região muito pobre em meu país, o Nordeste brasileiro. Eu só tenho um diploma primário e um curso técnico. O restante eu aprendi na vida, para sobreviver. Queria dizer para vocês que eu estou muito orgulhoso em ser o segundo brasileiro a ser homenageado nesta Academia”, declarou Lula, visivelmente emocionado.
Durante a cerimônia, os acadêmicos entregaram ao presidente uma edição especial do dicionário da Academia com a inclusão inédita da palavra multilatéralisme (multilateralismo) – um reconhecimento simbólico de sua atuação em defesa da diplomacia, do diálogo e da cooperação internacional.
“A democracia e o multilateralismo são as duas faces de uma mesma visão de mundo, baseada no diálogo e no respeito à pluralidade. Defender as instituições multilaterais é defender as instituições democráticas”, disse Lula. Ele também destacou o papel do multilateralismo em conquistas históricas como a proibição de armas químicas, a erradicação da varíola e a proteção do meio ambiente.
O presidente aproveitou para reforçar a pluralidade cultural e linguística brasileira, lembrando a influência de línguas como o tupi-guarani, o quimbundo e o iorubá na formação do português falado no Brasil. Lula também citou a inspiração que a Academia Brasileira de Letras teve na francesa, homenageando Machado de Assis como símbolo da inteligência literária e resistência brasileira.
Acordos reforçam nova etapa na relação Brasil-França
A visita de Lula marca um novo capítulo nas relações diplomáticas entre os dois países, sendo a primeira de um chefe de Estado brasileiro à França em 13 anos. “Discutimos uma ampla agenda bilateral. Os mais de 20 instrumentos assinados hoje refletem a diversidade e a densidade da nossa relação”, afirmou Lula após reunião com Macron. “Temos a mesma visão de mundo, um humanismo a serviço do progresso”, reforçou o presidente francês.
Atualmente, a França é a terceira maior investidora direta no Brasil, com mais de mil empresas ativas e responsáveis por cerca de 500 mil empregos no país. A corrente comercial entre os dois países atingiu US$ 9,1 bilhões em 2024 – um crescimento de 8% em relação ao ano anterior. Os acordos assinados durante a visita contemplam áreas como meio ambiente, ciência, cultura, tecnologia, energia e direitos sociais.







