Por Claudio Lovato Filho, jornalista e escritor
Num terreno coberto de escombros
Na periferia de uma grande cidade (que um dia já foi bonita)
Em meio à fumaça e ao tumulto
Sob um céu indiferente ao que ocorre lá embaixo
E ao sabor (amargo) de uma brisa leve que se faz mais ameaça que alívio Brisa que ele já sentiu outras vezes, instantes antes do estrondo das bombas
Um menino joga bola.
Esse menino veste a camisa (gasta) do grande ídolo dele
E se ressente do fato de estar ali sozinho
Os amigos, ele já não faz ideia de onde possam estar
Prometeu aos pais que não sairia de casa enquanto eles iam buscar comida
Mas descumpriu a promessa
“Vai ser só um pouquinho”, ele pensou ao sair
Tentando se convencer de que seu delito era pequeno.
Agora ele chuta a bola com força
Contra uma parede que não parece em condições de receber aquele impacto
Chuta de novo, e agora ela não volta
Porque fica presa num pedaço de concreto
Então ele vai até ela, para resgatá-la, e assim o faz
A bola, companheira inseparável
Mesmo neste tempo de separações.
A caminho de casa
Com a bola debaixo do braço
Ele olha em volta
Para as ruas da sua infância, para os lugares em que costumava entrar
Aperta a bola e segue
Respira fundo e segue e apressa o passo
Porque não quer que os pais cheguem em casa antes dele
Apressa o passo ainda mais, e mais, e mais, até começar a correr
E corre pelas ruas do lugar onde nasceu
As ruas de sempre e, ao mesmo tempo, as ruas que jamais imaginou ver assim
Corre mais, porque correr lhe dá paz, mas ele não usa essa palavra
Ninguém ali a usa mais
Ele, no entanto, sente
Mesmo que por instantes – instantes que resistem ao medo e ao desmoronamento de tudo – ele sente.







